Os 50 anos de carreira de Glória Pires, uma das mais admiradas atrizes brasileiras

Gloria Pires
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Neste mês de abril, a atriz Glória Pires comemora seus 50 anos de carreira. Atualmente interpretando Elizabeth em O Outro Lado do Paraíso, de Walcyr Carrasco, a atriz saudada como um grande talento da interpretação mesmo sem tradição teatral começou a atuar ainda criança: em 1968, aos 5 anos, participou da abertura da novela A Pequena Órfã (1968/69), de Teixeira Filho, produção da TV Excelsior dirigida por Dionísio Azevedo, que gostou da pequena Glória Maria Cláudia Pires e deu a ela uma pontinha como uma das internas do orfanato onde vivia a protagonista Toquinho (Patrícia Aires). Em 1972 Glória participou de “Sombra suspeita”, unitário da série Caso Especial, e ganhou seu primeiro papel em novelas: a espevitada Fátima da primeira versão Selva de Pedra (1972/73), de Janete Clair. Filha de Irene (Agnes Fontoura), a menina era bastante inteligente e não tinha papas na língua, dizia na cara do mau-caráter Miro (Carlos Vereza), por exemplo, que ele não valia nada.

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Entre 1973 e 1977, Glória atuou nos humorísticos Faça Humor, Não Faça a Guerra, Satiricom e Chico City, no qual também atuava seu pai, Antonio Carlos Pires – conhecido como o Joselino Barbacena da Escolinha do Professor Raimundo –, e em novelas como O Semideus (1973/74) e Duas Vidas (1976/77), ambas também de Janete Clair. Mas foi em 1978 que ela, já com 15 anos, conquistou seu primeiro grande personagem na televisão: Marisa, a adolescente que era alvo da disputa de suas duas mães – a biológica Júlia (Sônia Braga) e a de criação, sua tia Yolanda (Joana Fomm) – na trama central de Dancin’ Days, estreia de Gilberto Braga no horário nobre, com direção geral de Daniel Filho.

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A partir daí sua carreira como atriz deslanchou, emendando diversos trabalhos nos anos seguintes: a Zuca de Cabocla (1979), de Benedito Ruy Barbosa baseada na obra de Ribeiro Couto, sua primeira protagonista, fazendo par com seu par de então na vida real, Fábio Jr.; a Sandra de Água Viva (1980), de Gilberto Braga; a Maria José, uma d’As Três Marias (1980/81) de Rachel de Queiroz, aqui em adaptação de Wilson Rocha e Walther Negrão; a Cláudia de Louco Amor (1983), de Gilberto Braga, primeira novela após o nascimento de sua primeira filha, Cléo, com Fábio. Em 1984, interpretou Celina, a filha do bicheiro Célio Cruz (Raul Cortez) e de Izildinha (Célia Helena) em Partido Alto, novela de Aguinaldo Silva e Glória Perez, e gravou sob a direção-geral de Paulo José a minissérie O Tempo e o Vento, exibida no ano seguinte nas comemorações dos 20 anos da Rede Globo. Sua personagem era Ana Terra, que dá origem à família cuja trajetória é contada ao longo de décadas na obra de Érico Veríssimo, adaptada para a TV por Doc Comparato.

No ano de 1987 interpreta Rosália em Direito de Amar, novela de Walther Negrão baseada na radionovela Noiva das Trevas, de Janete Clair. A moça é obrigada a se casar com o temível Francisco de Monserrat (Carlos Vereza), devido a dívidas contraídas por seu pai, Augusto Medeiros (Edney Giovenazzi) – o que compromete sua felicidade com Adriano (Lauro Corona), justamente filho de Monserrat.

Em 1988 vive outro grande momento da carreira no papel de Maria de Fátima, a vilã arrivista de Vale Tudo, novela de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères. Tendo na mesma história outra vilã de peso, a sogra Odete Roitman (Beatriz Segall), e fazendo um contraponto à honestidade indiscutível de sua mãe, Raquel (Regina Duarte), Fátima aprontou mil e uma para se dar bem e teve um final feliz, casada com um nobre riquíssimo e sem abrir mão do amante César (Carlos Alberto Riccelli). Em seguida, a atriz participou de Mico Preto (1990), de Marcílio Moraes, Leonor Bassères e Euclydes Marinho, como a ambiciosa Sarita; e O Dono do Mundo (1991), mais uma de Gilberto Braga, como Stella, esposa do cirurgião plástico mau-caráter Felipe Barreto (Antonio Fagundes).

No ano de 1992, Glória foi a escolhida da novelista Ivani Ribeiro para protagonizar a nova versão de Mulheres de Areia, no papel duplo de Ruth e Raquel, mas sua segunda gravidez a impediu de fazer o trabalho na época. O projeto foi adiado e, em 1993, quando enfim pôde ser realizado, a atriz novamente foi saudada por seu grande talento. Na sequência veio aquele que ela considera seu trabalho mais difícil: a protagonista da minissérie Memorial de Maria Moura (1994), adaptação do romance de Rachel de Queiroz por Jorge Furtado e Carlos Gerbase. Estuprada na adolescência pelo padrasto, que matara sua mãe, Maria lidera um grupo de homens na resistência contra a invasão de terras que lhe pertencem por seus primos inescrupulosos, influenciados por Firma (Zezé Polessa), no Nordeste brasileiro do século 19.

Na década de 1990 Glória ainda participou de O Rei do Gado (1996/97), de Benedito Ruy Barbosa, como Rafaela, que pretendia enganar o fazendeiro Geremias Berdinazzi (Raul Cortez) dizendo ser sua sobrinha Marieta; da segunda versão de Anjo Mau (1997/98), escrita por Maria Adelaide Amaral a partir do original de Cassiano Gabus Mendes, como a babá Nice, num grande sucesso que já ganhou três reprises; e de Suave Veneno (1999), de Aguinaldo Silva, como Lavínia, a misteriosa mulher que vira de ponta-cabeça a vida do “Rei do Mármore” Waldomiro Cerqueira (José Wilker).

Em Desejos de Mulher (2002), de Euclydes Marinho, Glória reencontrou Regina Duarte e as duas agora eram as irmãs Júlia e Andréa. Júlia tinha ciúme da dedicação de seus pais à irmã mais velha e logo no primeiro capítulo revela que Andréa era adotada – na verdade, ela era filha biológica apenas do pai, Atílio (Hugo Carvana), e sua mãe era Isaura (Mirian Pires). Na novela Belíssima (2005/06), de Silvio de Abreu, recentemente divulgada como próximo cartaz do Vale a Pena Ver de Novo, Glória deu vida a Júlia Assumpção, executiva que passou a vida oprimida pela avó Bia Falcão (Fernanda Montenegro), que a humilhava e diminuía, e encontrou um grande amor na figura do grego Nikos (Tony Ramos).

No ano de 2007, o reencontro com Gilberto Braga em Paraíso Tropical – também de Ricardo Linhares – no papel de Lúcia, que no passado teve um romance mal-sucedido com Cássio (Marcello Antony) e representou para o magnata do ramo hoteleiro Antenor Cavalcanti (Tony Ramos) um novo rumo sincero no amor, após o fim do casamento com Ana Luiza (Renée de Vielmond). Gilberto e Ricardo assinaram também Insensato Coração (2011), novela na qual Glória viveu Norma, enfermeira cuja vida é transformada (para pior) ao entrar em contato com Léo (Gabriel Braga Nunes).

Na segunda versão de Guerra dos Sexos (2012/13), de Silvio de Abreu, a atriz foi escalada para interpretar Roberta Leone, que após a morte do marido Vitório (Carlos Alberto Ricelli) precisava assumir as rédeas do negócio da família, as confecções Positano, e era alvo de preconceito e críticas que punham em xeque suas capacidades profissionais e condenavam seu envolvimento amoroso com Nando (Reynaldo Gianecchini), mais jovem do que ela. Em seguida Glória foi a Beatriz de Babilônia (2015), novela de Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, marcada por uma trajetória tumultuada. Antes de assumir o papel de Elizabeth na atual novela das 21h, ela ainda viveu a juíza Andréa Pachá em Segredos de Justiça, série exibida no Fantástico: o cotidiano de uma juíza da Vara de Família, com os diversos casos que acompanha dia a dia e as peculiaridades de cada um, com as motivações e consequência mais variadas.

De atuação marcante também no cinema nacional – já esteve em quase 20 filmes –, Glória teve destaque em produções como Índia, Filha do Sol (1981), sua estreia na tela grande com direção de Fábio Barreto – o mesmo que a dirigiria também em O Quatrilho (1995) e Lula, o Filho do Brasil (2009), filme no qual interpretou a mãe de Luiz Inácio, Dona Lindu –, Memórias do Cárcere (1984), A Partilha (2001), Se Eu Fosse Você (2006), Se Eu Fosse Você 2 (2008), O Primo Basílio (2007), É Proibido Fumar (2009) – que lhe rendeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Brasília – e Nise – O Coração da Loucura (2015).