Os 16 anos de Esperança, problemática novela das 21h da Globo

Esperança
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Em 17 de junho de 2002, Benedito Ruy Barbosa voltava ao horário nobre da Globo após o sucesso de Terra Nostra (1999/2000) com Esperança, uma história que guardava algumas semelhanças com a novela anterior do autor, da qual se propunha a ser uma espécie de continuação. “Uma espécie” porque o plano inicial de que uma eventual Parte 2 de Terra Nostra desse sequência imediata aos fatos narrados por aquela novela – que inclusive não terminou com o clássico “Fim”, mas com a mensagem “Esta história não termina aqui” –, mas a minissérie Aquarela do Brasil (2000), de Lauro César Muniz, ambientou sua história na mesma época em que Benedito pretendia localizar a segunda parte de Terra Nostra. Com isso foi necessária uma modificação na sinopse que já existia, com o transporte da nova novela para alguns anos antes da época retratada na minissérie.

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Esperança se passava na década de 1930, e tinha como esteio a história de amor entre Toni (Reynaldo Gianecchini) e Maria (Priscila Fantin). Filha de um homem muito rico, Giuliano (Antonio Fagundes), que não aprova seu romance com o pobretão Toni e deseja casá-la com Martino (José Mayer), homem mais velho e também rico, Maria acaba por ceder à imposição do pai, mas não sem antes passar uma noite de amor com o amado, que gera um filho, criado inicialmente por Martino como se fosse seu. A única pessoa com quem Maria pode contar é sua avó Luiza (Fernanda Montenegro).

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O triângulo amoroso

Toni é filho de Gennaro (Raul Cortez) e Rosa (Eva Wilma) e sobrinho de Giuseppe (Walmor Chagas), um velho sonhador que vive com saudade de seu grande amor, que ficou no Brasil, e da filha que tiveram. No Brasil, para onde embarca após a desilusão com Maria e na esperança de encontrar a família da qual o tio Giuseppe sempre lhe falara, Toni conhece em São Paulo a jovem judia Camille (Ana Paula Arósio), que se apaixona por ele. Os dois acabam se casando, mas por mais bela e dedicada que seja Camille não consegue fazer Toni esquecer Maria, a quem ele reencontra algum tempo depois, quando Martino viaja para o Brasil com a família após enfrentar problemas devido a seu envolvimento com os fascistas na Itália.

O cortiço e a fazenda: outros núcleos da novela

A mulher que havia conquistado o amor de Giuseppe na juventude era Madalena (Laura Cardoso), que criara sozinha a filha Nina (Maria Fernanda Cândido). Esta era operária numa fábrica e lidava com o assédio de seu chefe, Humberto (Oscar Magrini), marido da proprietária Sílvia (Lígia Cortez). Madalena e Nina moravam num cortiço, e através delas era mostrada a dureza da vida dos habitantes desse tipo de moradia na época.

Reynaldo Gianecchini e Maria Fernanda Cândido em Esperança
Reynaldo Gianecchini e Maria Fernanda Cândido em Esperança (Divulgação)

Outro ramo da trama se localiza no interior de São Paulo, onde a fazendeira viúva Francisca (Lúcia Veríssimo) comanda as propriedades que herdara do marido com tanta severidade que ostenta o apelido “Francisca Mão-de-ferro”. Bonita e ainda jovem, ela é mãe de Maurício (Ranieri Gonzalez) e Beatriz (Miriam Freeland), e é cortejada pelo italiano Farina (Paulo Goulart), o qual junto a outros amigos compra uma propriedade vizinha à dela. Maurício e Beatriz se envolvem com outro casal de irmãos, os filhos de Vincenzo (Othon Bastos) e Constanza (Araci Esteves): Caterina (Simone Spoladore) e Marcello (Emílio Orciollo Netto). Martino acaba assassinado na fazenda de Francesca por Maurício, que revela uma faceta psicopata até então oculta.

Lúcia Veríssimo como Francisca em Esperança
Lúcia Veríssimo como Francisca em Esperança (Divulgação)

Na cidade, há também a família espanhola composta por Manolo (Otávio Augusto), o pai que não dá certo na vida, a esposa Soledad (Denise Del Vecchio) e a bela filha Eulália (Giselle Itié). Outra trama que ganhou destaque foi a do amor do estudante Marcos (Chico Carvalho) pela prostituta Justine (Gabriela Duarte) e sua amizade com Gennaro, quando também vai para o Brasil após enviuvar e deseja encontrar o filho. Vários personagens se reúnem na pensão de Mariúsa (Regina Dourado), que se apaixona por Gennaro.

Gabriela Duarte como Justine em Esperança
Gabriela Duarte como Justine em Esperança (Divulgação)

Problemas em Esperança

À época de Esperança, além do desestímulo já de saída com a compulsória troca de localização histórica da novela, Benedito Ruy Barbosa passava por problemas particulares de saúde, tanto dele próprio quanto de sua mãe, já idosa, e isso acabou se refletindo em dificuldades na entrega dos capítulos e na própria escrita deles. A coisa chegou a tal ponto que a emissora resolveu afastar Benedito e passar a condução de Esperança a Walcyr Carrasco.

Walcyr escreveu o terço final da novela e fez sensíveis modificações na trama, notadamente na personalidade de Farina, que de bonachão galanteador e sinceramente apaixonado por sua “potranca” Francesca passou a impiedoso vilão, com toda uma trama por trás de suas reais intenções ao se mudar para a região da fazenda da “Mão-de-ferro”, que também transformou-se numa mulher mais doce, menos amarga, no decorrer da novela. O teor político da narrativa também foi ampliado, com a inclusão do personagem Jacobino (Osmar Prado), um revolucionário com quem Toni faz amizade e que o influencia nas questões do Brasil de então – a Era Vargas.

Paulo Goulart na capa de uma edição da revista TV Brasil da época
Paulo Goulart na capa de uma edição da revista TV Brasil da época (Divulgação)

Benedito reprovou as mudanças feitas por Walcyr e criticou-as abertamente. Chegou a dizer a um dos diretores da emissora, Mário Lúcio Vaz, que caso encontrasse Walcyr bateria nele. O tempo curou as mágoas.

Grandes nomes no elenco de Esperança

No elenco de Esperança estiveram ainda Nuno Lopes, Eliana Guttman, Gilbert Stein, Ida Gomes, John Herbert, Sheron Menezes, Marcos Palmeira, Jackson Antunes, Cosme dos Santos, Chica Xavier, Antônio Petrin, Zé Victor Castiel, Dan Stulbach, Paulo Ricardo, José Lewgoy, Gianfrancesco Guarnieri, Milton Gonçalves, Luís de Lima, Beatriz Segall e Cláudio Corrêa e Castro, entre outros.

Antes de uma série de novelas de repercussão truncada no horário das 21h, e tendo sucedido a um grande sucesso – O Clone (2001/02), de Glória Perez –, Esperança por algum tempo foi tida como a produção mais problemática dentre as recentes da emissora nessa faixa. Os problemas de bastidores e a flutuação de audiência, que deixou sua média geral abaixo dos 40 pontos quando o habitual era de cerca de 45, marcaram a trajetória da novela. No entanto, ela teve muitas qualidades e uma direção criativa e competente como é comum a Luiz Fernando Carvalho. Todavia, acabou não cativando o público após várias intercorrências.

Inclusive, até que Benedito voltasse ao horário das 21h da Globo foram necessários 13 anos após o final de Esperança, e com uma história inicialmente planejada para as 18h e que acabou remanejada, Velho Chico (2016). Uma nova oportunidade de ver Esperança seria bem-vinda, sem o calor da necessidade de dar certo e com o olhar consciente de quem sabe os percalços vividos pela equipe da novela na época. Quem sabe um dia no Viva?

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