Há 48 anos, união de romance, faroeste e futebol marcou o início da hegemonia da Globo

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Em 8 de junho de 1970, estreou na Rede Globo aquela que se tornaria uma de suas novelas mais representativas e que contou uma das histórias mais queridas pelo público, marco de uma geração e de um modo de fazer televisão: Irmãos Coragem, de Janete Clair.

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Os irmãos do título são João (Tarcísio Meira), Jerônimo (Cláudio Cavalcanti) e Eduardo, o Duda (Cláudio Marzo). Os dois primeiros vivem na cidade natal, Coroado, interior de Goiás, enquanto o terceiro mora no Rio de Janeiro, onde se tornou jogador de futebol de sucesso e atua pelo Flamengo. A história tem início quando João encontra um diamante fora do comum no garimpo e se recusa a vendê-lo ao Coronel Pedro Barros (Gilberto Martinho), mandachuva da região e que mantém os garimpeiros sob seu jugo, comprando deles as pedras que acham a preços irrisórios. João acaba se apaixonando pela filha do coronel, Maria de Lara (Glória Menezes), jovem retraída, amedrontada, cuja fragilidade emocional a leva a assumir outra personalidade às vezes: após uma verdadeira transformação ela se converte em Diana, de temperamento oposto ao de Lara, sensual, provocante, liberada e descontraída.

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Tarcísio Meira e Glória Menezes como João e Diana

A jovem fora criada pela tia Dalva (Mirian Pires), e não tem grande intimidade com os pais, Barros e Estela (Glauce Rocha), mulher infeliz que mascara com futilidade o vazio de sua vida. Pouco antes do último terço da novela, a Lara e Diana se junta uma terceira personalidade da jovem filha de Barros: a jornalista Márcia, que reúne características das outras duas.

Na mesma época, Duda volta da cidade para passar uma temporada com a família e reencontra a namoradinha da infância, Ritinha (Regina Duarte), filha do médico de Coroado, o alcoólatra Dr. Maciel (Ênio Santos). O casal passa a noite junto, conversando e passeando, e só volta à cidade com o dia claro. É o que basta para que a reputação de Ritinha fique maculada e Duda é obrigado pelo pai da jovem a casar-se com ela. Os dois se amam, mas o casamento começa com o pé esquerdo e tem a forte oposição de Paula (Myriam Pérsia), namorada que o atleta mantinha no Rio de Janeiro e que não se conforma com o fato de ser trocada por uma moça do interior. Marzo e Regina deixaram Irmãos Coragem antes do final para protagonizarem a novela das 19h, Minha Doce Namorada (1971/72), terceira das quatro em que formaram par romântico.

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Enquanto isso se desenrola, o público pode acompanhar também o drama de Jerônimo, que tem uma queda por Ritinha, a antiga namorada de Duda, mas resiste ao sentimento verdadeiramente forte por Potira (Lúcia Alves), uma índia, sua irmã de criação. Seu pai Jerônimo Coragem (Antonio Vitor) trouxera a menina para criar com a esposa Sinhana (Zilka Salaberry), mulher forte, a autêntica mãe brasileira, que desconfia de que Potira possa ser de fato filha de Sebastião. Paira sobre Jerônimo e a índia, que também o ama, a dúvida sobre serem irmãos. O promotor Rodrigo César (José Augusto Branco) se encanta com Potira e acaba se casando com ela, enquanto Jerônimo envereda pela política e se envolve com Lídia (Sônia Braga), filha do deputado Siqueira (Felipe Wagner). Mas o sentimento dos irmãos de criação é avassalador e eles acabam traindo seus respectivos pares. A cena da morte do casal no final da novela tornou-se antológica.

Além dos relacionamentos amorosos dos três irmãos e suas complicações, o grande acontecimento que une os núcleos é o roubo de um diamante fora de série que João encontra no garimpo. Pedro Barros manda seu capanga Lourenço (Hemílcio Fróes) roubar a pedra, e este cumpre a ordem, mas se apossa dela e foge. A fuga desperta a ira de muitas pessoas, mas por motivos variados: enquanto João e Barros desejam tomar posse do diamante, Estela fica irada porque Lourenço é seu amante e foi embora sem mais.

João Coragem empreende verdadeira luta não apenas para reaver seu diamante, mas principalmente para colocar fim ao domínio de Pedro Barros sobre Coroado. Para isso, ele reúne um bando de outros contestadores e ganha cada vez mais força na luta contra os desmandos do coronel.

Um personagem que merece destaque é Juca Cipó (Emiliano Queiroz). Instável psicologicamente, até certa altura da história ele desconhece ser filho de Pedro Barros com Domingas (Ana Ariel), empregada dos Maciel, e faz tudo que seu “padrinho” manda, inclusive surrar e matar pessoas se for o caso. Juca fiscaliza o garimpo, toma medidas bastante duras contra os garimpeiros acusados de roubarem pedras e estupra Cema (Suzana Faíni), mulher de Braz Canoeiro (Milton Gonçalves), melhor amigo de João. O público torcia para que a gravidez que Cema revela trouxesse à luz um filho de Braz, não de Juca.

Emiliano Queiroz como Juca Cipó

Ainda eram tempos de afirmação da emissora e grande concorrência da Rede Tupi, e por isso não se podia arriscar demais no horário das 20h, que vinha de um sucesso também escrito por Janete, Véu de Noiva (1969/70). Por isso, a autora fez de um dos irmãos jogador do Flamengo, num ano de Copa do Mundo, e investiria nele caso os personagens do interior não agradassem. Mas os três irmãos despertaram o carinho e a torcida do público, e os universos rural e urbano se complementaram na caminhada rumo ao grande sucesso conquistado pela novela.

Ao final, depois das mortes de Jerônimo e Potira – que levam João a destruir o diamante que lutou tanto para reaver e dera ao irmão, a fim de que ele fugisse com a índia e o casal iniciasse uma nova vida longe da cidade e da perseguição de que foi alvo –, de uma operação que livra Lara de suas outras duas personalidades e após Pedro Barros incendiar Coroado, completamente enlouquecido, os habitantes da cidade iniciam sua reconstrução, que simboliza a reconstrução da vida de todos, sem a opressão e a violência do coronel.

A direção de Irmãos Coragem foi de Daniel Filho, Milton Gonçalves e Reynaldo Boury. No elenco ainda as presenças de Carlos Eduardo Dolabella, Neuza Amaral, Michel Robin, Paulo Araújo, Macedo Netto, Dary Reis, Dorinha Duval, Antonio Andrade, Arthur Costa Filho, Lourdinha Bittencourt, Telmo de Avelar, Jacyra Silva, Renato Master, Francisco Milani, Valdir Onofre, José Steinberg, Ivan Cândido e Yara Amaral, entre outros.

A novela estreou no Rio de Janeiro em 8 de junho de 1970, mas apenas no dia 29 estrearia em São Paulo. Na época, as transmissões em rede eram coisa rara, destinada a jornalísticos e eventos esportivos, e era normal que os capítulos das novelas e as edições de programas como humorísticos e de variedades fossem exibidas em dias e horários diferentes conforme a praça.

Anúncio de jornal indicando a estreia da novela no Canal 5 de São Paulo em 29 de junho de 1970

Irmãos Coragem foi a quarta novela que Janete Clair escreveu para a Globo sem descanso, num ciclo iniciado em setembro de 1968 com Passo dos Ventos e teve na sequência Rosa Rebelde e Véu de Noiva. Depois dos 328 capítulos de Irmãos Coragem – que a mantêm até hoje como a segunda novela mais longa da história da emissora, suplantada apenas por A Grande Mentira (1968/69), de Hedy Maia – ela ainda escreveria O Homem que Deve Morrer e Selva de Pedra, e apenas em janeiro de 1973 sairia de férias. Eram mesmo outros tempos.

A novela foi reapresentada pela Rede Globo em três ocasiões: em janeiro de 1980, como atração do Festival 15 Anos, que exibiu um compacto numa noite; pouco depois uma reprise também compacta, porém mais longa, foi ao ar no matutino TV Mulher; e em 1990, uma edição especial da história em 20 capítulos foi atração do Festival 25 Anos. Em 1995, para marcar as comemorações de seus 30 anos, a Globo produziu um remake de Irmãos Coragem para o horário das 18h, com atualização do texto feita por Dias Gomes à frente de uma equipe de roteiristas – Marcílio Moraes, Ferreira Gullar, Lilian Garcia, Antonio Mercado e Margareth Boury – e direção geral de Luiz Fernando Carvalho, inicialmente. Mas em razão de uma série de fatores o projeto não deu tão certo quanto se esperava, e como poderia. Na ocasião, Marcos Palmeira, Marcos Winter e Ilya São Paulo viveram os irmãos.

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