“Tinha medo de ser o Félix para o resto da vida”, diz Mateus Solano

Publicado há 3 anos
Por João Paulo Reis
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Mateus Solano é Eric, na novela das 19h, Pega Pega. O protagonista da trama escrita por Claudia Souto, é um homem bom, porém cheio de mistérios e problemas. Em entrevista ao Observatório da Televisão, Solano contou sobre a nova fase do personagem, a mudança do figurino, as comparações com Félix, seu personagem em Amor à Vida, e a repercussão nas ruas:

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Como está a resposta do público diante do seu personagem em Pega Pega?

É muito legal. O público de cada horário é diferente, e o horário das 19h é muito eclético, desde donas de casa, taxistas, a adolescentes. Agrada a uma gama de pessoas.

O que as pessoas te falam sobre o Eric?

As pessoas me pedem muito dinheiro (risos). Porque o Eric é muito rico, e 99,9% das pessoas no Brasil não conhecem nem vislumbram isso. Aliado a bom caráter ainda. Como seria bom se tivéssemos vários Erics Ribeiros país afora, empresários comprometidos com cultura, com arte, melhorando como pessoa apesar de tanto dinheiro. E pra completar, nas ruas as pessoas me pedem dinheiro em dólar.

O Eric está sendo investigado pela Luiza. Como ator você defende seu personagem, mas acha que ele tem alguma culpa em relação à morte da Mirella?

Na morte da Mirella (Marina Rigueira) acho que não. Acredito que possam ter tentado incriminá-lo, mas ainda não tenho certeza. Consigo fazer o personagem mesmo sem saber sobre essa lacuna. Eu gosto sempre de sujar o personagem, ele é bonzinho e gosto de deixar algo de mau nele, e no Eric é muito difícil. Apesar de ser empresário, poderoso e cheio da grana, é um cara muito sensível que vai se conhecendo como pessoa para ser um melhor pai, e melhor ser humano. Tentei sujar ele um pouco por ficar encantado com a Sandra Helena (Nanda Costa), porque o personagem é quase indefectível.

Na novela todos são suspeitos…

Isso é legal. Faz de uma novela tão boa, com cartas na manga que o público não sabe. Outro grande trunfo, só quem sabe quem roubou o dinheiro do hotel é o público. Os personagens estão sendo enganados mas o público conhece a história. Agora começam aparecer coisas que o público também não sabe como segredos dos personagens, isso que deixa o público ligado no que vai acontecer.

Até que ponto você sabe como era o relacionamento do Eric com a Mirella, porque nos flashbacks sempre vemos eles brigando…

Vemos apenas alguns frames deles brigando pouco antes da morte dela. Eric e Mirella eram muito apaixonados mas era uma relação um pouco doentia. Mirella era muito muito muito vaidosa, aquela vaidade que trabalha contra a gente, que aprisiona, e isso teve consequências sérias todos saberão mais pra frente. Ela se importava muito com o que os outros iam achar, e queria muito ter um filho. Quando ela teve uma filha, colocou a menina numa redoma em que ninguém podia se aproximar, nem o próprio pai, virando uma doença na estrutura familiar desses três que desembocaram na morte dela, e no mistério sobre quem foi o culpado por essa morte, que culminou na relação ruim que ele teve com a filha durante 15 anos. A novela começa no ponto de mudança que é Eric conhecendo Luiza (Camila Queiroz) e querendo se tornar um pai melhor. Tem muito pano pra manga aí até janeiro.

Nesse momento ele já está casado não é?

O que é muito legal é que a Claudia (autora da novela) colocou o Eric dentro da trama agora, porque ele ficava meio à parte com a Luiza. Tanto ela vai saber sobre o passado dele, para ajudá-lo, e ele para pegar quem transformou a vida dele num inferno, e ameaçou o hotel. Ele se junta com o Domênico (Marcos Veras) para isso, e vai começando a desconfiar a partir de coisas que vai descobrindo. O Agnaldo (João Baldasserini) era namorado da Sandra Helena, então ele acha que tem algo, passa a desconfiar da Cíntia (Bruna Spíndola) porque ela era apaixonada pelo Júlio, e aos poucos ele vai colhendo informações, o que é legal porque até então estávamos vendo apenas um Eric romântico e problemático.

Você acha que agora que o roubo já foi descoberto, todas as histórias vão passar a orbitar em torno do roubo?

Não. A família Borges por exemplo, tem uma coisa muito dela. Acho que Eric e Luiza já de cara se conheceram e se apaixonaram, e num segundo momento você vê os problemas, e agora eles estão mais na trama. Acho bacana nesse sentido o casal deixar de ser só mocinho e mocinha, até porque eles já casaram né gente. Tem que botar conflito. Isso acho bacana das novelas atuais, não mostrar o casamento como um adorno do final feliz, mas como uma coisa que faz parte da vida, e tem seus problemas.

Você falou das pistas que a autora joga. Você acha que ela pode jogar pistas falsas?

Claro que sim. Faz parte da inteligência de você manter uma história durante meses e meses, e manter o negócio surpreendente. Ela planejou essa novela por cinco anos, então o enredo está muito bem pensado.

Alguns críticos como a Patrícia Kogut demonstraram não ter gostado da novela, já entre o público é um sucesso. A quê você atribui isso?

Eu respeito muito as opiniões dos críticos mas acho que essa é uma novela simples, fácil, muito amorosa, de fácil apreensão. Tem trama policial, mocinho, vilão e personagens adoráveis, tudo o que o público gosta de ver. Tem ótimos atores, direção acertada, e entendo os críticos como a Patrícia Kogut quando dizem que não gostam. Estamos vendo um amadurecimento em certos lugares que essa novela se absteve de ter, de tocar fundo em alguma questão ou pintar algo com mais força. A novela se absteve do compromisso de dar esse passo a frente, ou aprofundamento de uma questão, mas a trama não precisa disso para fazer sucesso, ela pode simplesmente entreter. Talvez as pessoas estivessem sentindo falta de um simples entretenimento no horário. Acho eu depois de muito pensar que está nesse terreno a diferença entre a opinião do grande público e dos críticos.

Esse tipo de feedback incomoda de alguma forma?

Não pode interferir. Eu particularmente olho com atenção tanto a crítica negativa como a positiva. Tem gente que vê a crítica negativa e diz: “Essa pessoa não sabe o que está falando”. Eu não trabalho assim, eu procuro saber porque falou mal ou bem. Não podemos nos deslumbrar com uma crítica positiva nem se penalizar, e penalizar o trabalho. Eu comparo um pouco como quando gravei com o (Antonio) Fagundes pela primeira vez. Tive que tirar ele do pedestal que ele estava na minha cabeça e pensar: “É meu colega de trabalho”.

As pessoas ainda te param na rua por causa do Félix?

O tempo todo e se Deus quiser será para a vida toda. Me param falando bordões, alguns até erram. Dizem “Olha o rosário da conta hein?” (risos).

Você falou sobre o mocinho que às vezes fica como o bobo da situação. Muitos atores dizem que é muito difícil. O mocinho inserido nesse contexto como o Eric, que está investigando, torna isso mais fácil?

Acho que fica mais gostoso para fazer do que apenas dizer “Meu amor eu te amo, isso foi só um mal entendido”, “Você voltou a acreditar em mim, agora estamos bem”. O ator passa a sair disso, e dá mais camadas ao personagem. Esse é o caminho da dramaturgia, deixar as coisas mais complexas porque o público não acredita mais no mocinho que é só mocinho, mas ao mesmo tempo existe o espaço do lúdico do mocinho que faz coisa boa, e o vilão que faz coisas ruins.

Qual é mais difícil fazer? Mocinho ou malvado?

Depende do mocinho e depende do malvado. Fiz o Miguel, de Viver a Vida que era um mocinho muito bem falado mas tinha o Jorge para contrabalançar. Fazer uma pessoa boa que não tem maldade é um desafio maior porque quando você assiste a uma obra de arte, você quer se reconhecer naquilo, e as maldades criam mais identificação porque são reprimidas. Bonzinho é um puxão de orelha do tipo “Olha como eu devia ser”.

Muita gente disse que o Eric e o Félix eram idênticos devido ao figurino das personagens. Você acha que isso contribui para a visão do público?

Isso contribui para a primeira visão, você ver a mesma roupa, o mesmo terno e penteado. A mudança já era falada, e eu ficava ansioso para ela acontecer. Eu dizia “Gente, terno preto, camisa branca, cabelinho de lado. Bota uma foto ao lado da outra, é a mesma coisa”. Não digo para um público minimamente inteligente, mas para a massa que olha e que quer ver o Félix ali. Muitas pessoas querem ver o Félix em tudo o que eu faço e ficam procurando. Outro dia, a dermatologista falou pra mim: “Esse olhar foi do Félix” (risos). E eu falei: “Não, esse olhar foi meu, inclusive emprestei muito dos meus olhares para o Félix, mas são todos meus”. Claro que o figurino ajuda ou atrapalha nesse sentido, e desde o início eu sabia que ele tiraria o terno, e achei que seria bem antes.

Não te incomoda ser sempre lembrado como Félix?

Incômodo não, antes eu tinha medo de ser o Félix para o resto da vida, mas hoje vejo que ele tem um lugar gigantesco muito especial, não por ser gay e engraçado, mas um lugar que eu como artista vislumbrei que conseguiria no teatro. Eu queria que apenas uma pessoa no teatro sentisse alguma coisa ao ver um personagem meu, mas milhões de pessoas para mim é um objetivo-mor de um artista. Eu também sou o Zé Bonitinho, o Eric Ribeiro e uma porção de outras coisas.

A cena final do Félix com o César em Amor à Vida é sempre lembrada nas matérias de dias dos pais…

Sério? Aquilo é muito bonito né? Foi um salto de maturidade do Walcyr como autor. A cena da caçamba que falam muito, eu explico a novela inteira naquela cena. Eu achei que na última ele ia colocar um texto imenso: “Pai eu sempre te amei, porque isso e aquilo”, e não foi. Uma mão na mão, pôr-do-sol, e ele chamando o Félix de filho pela primeira vez na novela. Pronto, matou a pau. Foi realmente uma cena muito legal.

Já gravou toda a Escolinha?

Já. Vai ser sensacional. Temos episódios surpreendentes. É o projeto em que sou mais feliz aqui dentro, com pessoas que admiro e viraram minhas coleguinhas de classe. Era para ser uma temporada só, e já estamos com a terceira garantida com 16 episódios. Começa no Viva e depois será exibida na Globo.

*Entrevista feita pela jornalista Núcia Ferreira. 

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