Thiago Lacerda fala sobre personalidade de Darcy em Orgulho e Paixão: “Enxergo um pouquinho de Brasil”

Publicado há 2 anos
Por Greicehelen Santana
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Em Orgulho e Paixão, Thiago Lacerda está dando vida a Darcy Williamson. Um homem bonitão que ao lado da determinada Elisabeta (Nathalia Dill) forma um dos casais mais famosos da pequena cidade do Vale do Café. Típico tradicionalista do início do século XX, é nesse romance, cheio de altos e baixos, que ele começa a amadurecer seus pensamentos para uma sociedade igualitária entre homens e mulheres.

Em uma conversa com o Observatório da Televisão, a ator detalhou como foi o processo de construção da personalidade do Darcy, figura já presente no imaginário do público pelas obras da escritora inglesa Jane Austen. “O meu Darcy, de cara, em alguns momentos tem essa liberdade de ser um personagem que nasceu no Brasil”, disse.

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Faltando poucos meses para a trama de Marcos Bernstein acabar, Thiago também falou sobre o clima nos bastidores, elogiou o trabalho da figurinista Beth Filipecki e muito mais. Confira:

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Thiago Lacerda afirma satisfação em fazer a novela

Como está sendo fazer Orgulho e Paixão?

Está sendo uma delícia. O trabalho foi desde o início muito bem colocado. A gente sabia que tinha tudo na mão para fazer uma novela bacana, e a novela é muito bacana. Ela é o que se presta a ser, uma novela despretensiosa. É um romance feito para o veículo que a gente está. É uma adaptação muito interessante do Marcos [Bernstein, autor] e da equipe dele, uma maneira de trazer as referências da Jane Austen para o nosso dia a dia, misturando as informações e contando a história dessa personagem maravilhosa que é a Elisabeta (Nathalia Dill).

Bastidores

E como é a relação com a equipe nos bastidores?

O elenco é um barato. A equipe de direção é um barato. O clima é maravilhoso. Todo mundo que entra aqui é com uma energia bacana, a gente está assim desde o início. É uma energia que contamina o nosso trabalho, a nossa coxia, o camarim e isso vai para a tela, imprime nos personagens. Eu estou muito, muito, muito feliz.

Romance entre Darcy e Elisabeta

Fala um pouquinho sobre romance do Darcy com a Elisabeta.

Primeiro lugar: casal é barato, é um sucesso! As pessoas me param nas ruas dizendo que acompanham a novela, que adoram os personagens, fazem alusão a obra da Jane Austen. Isso é o mais legal! A gente está trazendo um pouco dessa obra que é muito bacana. Que as pessoas conheçam cada vez mais, leiam mais a Jane Austen. Então, o personagem vai indo muito bem, o casal vai muito bem.

“As pessoas amam os dois, torcem para ficarem juntos. É muito gratificante, muito legal”, afirma

Elisabeta (Nathalia Dill) e Darcy (Thiago Lacerda) em Orgulho e Paixão (Divulgação/ TV Globo)

O muda entre o casal com a chegada da Lady Margareth (Natália do Valle)?

O casal é fortíssimo. Para derrubar ele tem que fazer um esforço grande. Eu acho que a Lady Margareth vai nesse caminho aí. É um personagem que beira um pouco o absurdo, mas a Natália vem humanizando bastante. Eu acho que vai dar samba, vai dar uma treta, um suspiro de conflito até o final da história, que está chegando já. Eu acho que é importante também para dar um gás nesse final.

Figurino do personagem

Orgulho e Paixão tem chamado atenção pelos detalhes cenográficos e figurinos. Você gosta das roupas que o Darcy usa?

Gosto! Mas eu gosto mesmo é dos figurinos das mulheres dessa novela. O figurino de um modelo geral é muito bom. O trabalho da Beth é incrível, como sempre. Mas especialmente nesse momento, o figurino das meninas eu acho um exercício de reconstrução de época e um detalhe da nossa condição de história, que é muito definitivo para o que as pessoas recebem em casa. É uma imagem, uma cena e perceber que as pessoas estão inseridas naquele contexto da época, do início do século. O trabalho do figurino é magnífico.

“A gente muda com o tempo. A gente vai ficando mais velho, vivendo mais coisas e vai se transformando”, afirma o ator sobre mudar por conta de um grande amor

O Darcy confessa para Elisabete que o relacionamento o fez amadurecer e ser menos durão. Na vida real, você também já mudou por causa de amor?

Ah, sim! A gente muda com o tempo. A gente vai ficando mais velho, vivendo mais coisas e vai se transformando. O processo de transformação é humano, natural e é muito bom que aconteça. As relações também fazem parte desse processo de autorreflexão, de autoconhecimento, de transformação. E eu acho bonito quando você tem um personagem que diz isso para o parceiro: ‘olha, eu era um cara. E a partir de você, eu sou um outro cara. Um cara que ainda vem sendo construído com a convivência diária’. Isso, talvez, seja uma das coisas mais divertidas de uma relação. Você se propor, se permitir essa reflexão sobre si mesmo, e encontrar mecanismos dentro de você que te levam a transformar o que você pensa. A transformar você mesmo na direção de continuar caminhando junto, de descobrir coisas novas e juntos.

Trama moderna e feminista

Um exemplo é que a própria Elisabeta pediu o Darcy em casamento. Como é para você essa proposta?

A mulheres sempre estiveram aí, muito antes da Elisabeta. As grandes revolucionárias: Elisabeta, Jane Austen, Manuela D’Ávilla, Leila Diniz. Essa galera sempre esteve aí rompendo os paradigmas, as estruturas. O que acontece é que de um tempo para cá, felizmente, essas vozes ganharam mais espaço. Essas vozes chegaram a mais pessoas, promoveram mais reflexão, mais transformação.

Hoje a gente discute a questão feminina como algo fundamental e esse espaço que é do feminino precisa ser cada vez mais ocupado por essa luta, por essa ideia de liberdade, de direitos iguais. É uma luta pertinente, moderna e sempre foi. É muito legal que através de um instrumento de comunicação de massa, que é a novela, você possa falar também sobre isso e projetar, talvez, a origem desse questionamento. Isso faz com que a gente entenda alguns porquês: por que a gente está até hoje falando sobre liberdade de gêneros, direitos iguais, manutenção do espaço da mulher? Porque a gente precisa entender melhor esse processo.

“Transformar requer educação e tempo”

Você sente que vem evoluindo junto com essa discussão?

Sem dúvida. Somos brasileiros e, além de termos a nossa própria história, a gente tem a história da nossa gente, da cultura que opera nesse país desde que ele existe. Uma cultura machista, escravocrata, preconceituosa, cultura e de medo das diferenças. Transformar isso requer educação e tempo. E eu como filho de uma cultura interiorana, porque minha família é do interior de Minas Gerais, uma gente que viveu a sua história assentada numa ideia de colônia de exploração, depois escravocrata e agora de questionar todas essas estruturas, eu venho, sim, me questionamento ao longo desses 40 anos e transformando o que eu penso e o que acredito. Isso tem a ver também com a luta das mulheres, que existe desde sempre.

“Eu sou um homem do meu tempo, um homem que viveu o preconceito e vive.”

A novela é livremente inspirada nas obras de Jane Austen e traz personagens já conhecidos pelo público. Te deu alguma insegurança ao saber que iria interpretar o Darcy?

Primeiro lugar: eu acho muito gostoso esses desafios de personagens biográficos. Não é caso do Darcy, mas ele tem um imaginário coletivo gigante em torno de quem conhece a obra da Jane Austen. É natural que cada pessoa tenha o seu próprio Darcy. Então, quando você recebe o desafio de contar a história de um personagem que as pessoas já sabem quem é, de cara bate um certo medinho. Você fala: ‘caraca, que pepino! ’. Como é que você contribui para esse imaginário? Como é que você contribui com a sua leitura sem ofender o imaginário coletivo? E uma das coisas que logo de cara eu senti era que precisava defender esse imaginário britânico, essa rigidez do personagem que é fundamental para a gente contar a história dele.

Darcy

Eu conto a história de um cara rígido, mas enxergo um pouquinho de Brasil, um pouquinho de Darcy Ribeiro. Essa é leveza que eu busquei desde o início e que contribui para uma originalidade. Esse é o meu Darcy. Se alguém for fazer um dia, vai fazer certamente alguma coisa diferente. Ele não é propriamente o Darcy da Jane Austen e eu acho bacana quando as pessoas curtem. Acho que uma das coisas que mais me envaidecem sobre esse trabalho é quando as pessoas falam: ‘eu não consigo imaginar nenhum outro ator fazendo’ ou ‘eu curto o que você está fazendo, mesmo não sendo o Darcy da minha referência’. O Darcy era mais sisudo, mal-humorado, rígido. O meu Darcy, de cara, em alguns momentos tem essa liberdade de ser um personagem que nasceu no Brasil.

Muitos podem não lembrar imediatamente, mas você já interpretou diversos personagens presentes no imaginário do público, né?

“Eu tenho o meu Garibaldi que é diferente do Garibaldi da Maria Adelaide de Amaral”

Capitão Rodrigo, Hamlet, Macbeth, Garibaldi, Jesus Cristo, Tiradentes. Eu tenho na minha carreira alguns personagens históricos e épicos que as pessoas, de alguma forma, têm uma relação. E eu me toquei muito nisso na época do Garibaldi. O Garibaldi era o meu objeto de estudo, eu estudava a biografia do cara. Eu tenho o meu Garibaldi que é diferente do Garibaldi da Maria Adelaide de Amaral, que era um personagem para o Jayme Monjardim. A minha carreira é cheia desses momentos e é um prazer pessoal esses personagens.  É um prazer pessoal que eu tenho com o meu trabalho em lidar com esses personagens e contar para as pessoas uma outra coisa.

Thiago fala das dificuldades em dar vida ao Capitão Rodrigo no longa O Tempo e o Vento

Você foi incrível no cinema com o Capitão Rodrigo. Como foi fazer esse personagem?

O Capitão Rodrigo era um problema. Além de ter toda a obra do Érico, que é uma obra muito séria, o Capitão Rodrigo é a história da nossa gente. É uma fatia da população brasileira, aquilo é quase um evangelho de quem nós somos. Ele tinha a dificuldade de ter tido o Tarcísio Meira definitivo fazendo a minissérie. Então eu falei: ‘cara, e agora? ’. O medo sobre o Capitão Rodrigo durou por muito tempo, eu fiquei por quase quatro anos até a gente começar a gravar. Desde o convite do Jayme, que foi logo quando ele comprou os direitos, ele me chamou e falou: ‘olha, comprei os direitos e você é o Capitão Rodrigo’. O medo do desafio, do precipício, da corda banda durou por muito tempo. Até que eu, por conta de demorar, isso ficou de lado.

Esse medo voltou quando a gente de fato começou a pegar o leão pela unha. Eu lembro que na noite anterior da gente começar a filmar, eu não conseguia dormir, fiquei sem dormir apavorado. Eu falei com a Vanessa: ‘eu preciso de ajuda. Vem alguém para cá porque eu preciso chorar, desabafar’ (risos). Aí eu me tranquei no quarto. Eu não sabia como ia ser, como ia fazer, onde me meti. Foi uma das poucas vezes que eu me oprimi de verdade por um personagem, de ficar amedrontado, petrificado.

Outros personagens

E o processo do Capitão Rodrigo foi em cena, quando a Fernanda chegou e a gente começou a conversar e a fazer. As coisas foram se encaixando à medida que a gente foi fazendo, que eu fui vendo as revisões. O personagem estava lá em algum lugar, não sei como aconteceu. E eu quis muito fazer uma homenagem ao Tarcísio também. Então o meu desafio com o Capitão Rodrigo era, além de conseguir caminhar em cena, fazer essa homenagem sem ser uma tentativa de copiar o trabalho do Tarcísio.

“Falar dessa coisa de ser ou não bonito é passado”, diz o ator sobre ter seu trabalho relacionado a beleza

Qual balanço você faz da sua carreira? Muitas vezes a sua beleza foi colocada acima do seu profissionalismo.

Como eu havia falado, somos um país de preconceituosos. As nossas raízes estão fincadas na casa grande senzala, estão fincadas numa sociedade extrativista e escravocrata. Essa é uma identidade contra a qual a gente precisa lutar constantemente, cotidianamente para transformar isso para uma civilização mais evoluída e igualitária. Esse não é um processo simples e rápido. Talvez, demore mais 500 anos para a gente ser uma sociedade mais justa. Mas essa luta é cotidiana e fundamental. O preconceito não é só de raça, só de crença, é também estético, de gênero. Somos preconceituosos e é, claro, que as pessoas têm essa relação com uma atriz jovem e bonita que começa. Falar dessa coisa de ser ou não bonito é passado, a gente sabe como é.

Até já dei outras entrevistas sobre isso, eu nunca parei para prestar atenção, nunca perdi meu tempo com esse tipo de questão. A gente tem que entender o que e trabalhar, se dedicar para transformar. Não adianta ficar remoendo. É olhar para frente, traçar as suas referências, pegar o que interessa, ignorar o que não interessa e caminhar para diante. Eu tenho muito orgulho desses 20 anos de carreira. Sou muito aventurado por ter tido a chance de contar histórias de tantos personagens incríveis.

Thiago Lacerda revela que teve prazer em interpretar todos os personagens de sua carreira

Os meus personagens são muito maneiros, tenho muito orgulhos deles todos. Uns foram mais difíceis, outros menos. Mas a verdade é que poder contar a história dessa galera é um privilégio para um ator. Quantos colegas não têm a oportunidade de contar histórias de figuras que instigam tanto a curiosidade? O Tiradentes, por exemplo, é um personagem que as pessoas nem sabem quem é. Então, você tem a oportunidade de investigar a natureza de uma figura que desperta tanto a imaginação, que faz parte da nossa identidade. O Tirantes é o primeiro grande marte brasileiro.

Criado, forjado, mentindo do jeito que for, mas é. Eu me sinto muito privilegiado e tenho muito orgulho do trabalho feito até aqui. Com todos os elogios e críticas que podem ter acontecido ao longo desses anos todos, eu acho que é isso aí e eu sou amarradão.

Sobre as dificuldades, preconceitos e violência que existem no Brasil. Em algum momento você quis morar fora do país?

Eu tenho essa vontade todo dia, é um conflito pessoal. Mas por um lado, fica essa sensação difícil de jogar a toalha, eu não sou desses que jogam facilmente. Quando você tem filhos, as coisas mudam de lugar. Sou brasileiro, somos brasileiros, seremos em lugar do planeta e, de qualquer lugar do planeta, a gente consegue ajudar e contribuir para o processo de amadurecimento da democracia no Brasil, mas a coisa aqui é muito complicada. Ficar é uma decisão corajosa, uma decisão muito difícil que a gente vem mantendo e sustentando na tentativa de ajudar, contribuir e participar desse processo.

“Não me vejo vivendo em nenhum outro lugar que não seja o Rio de Janeiro.”

Mas é muito difícil, especialmente no Rio de Janeiro que é uma cidade que eu amo. Sou carioca, não me vejo vivendo em nenhum outro lugar que não seja o Rio de Janeiro. Acho que não consigo cortar o meu cordão com o Rio de Janeiro, mas eu anseio em ir para um lugar mais justo, limpo, honesto, educado. Falta muita coisa simples para a gente como educação. Está muito difícil a gente olhar para esse cenário de abismo ético, de abismo de humanismo. O brasileiro está cada vez mais perdendo o seu humanismo.

Claro que existem as pessoas maravilhosas que desmentem essa afirmação. Mas, quando você vê um garoto de 7 anos descalço, sem ter o que comer, pedindo no sinal do trânsito, isso é falta de tudo, falta de humanismo. Não dá para achar que vai ficar bem. Eu não vou ver o meu povo com igualdade de direito enquanto for vivo. Talvez daqui a ‘xis’ anos, mas vislumbrar essa realidade a curto prazo é muito duro porque o risco de excluir dos meus filhos da juventude deles.

Na tentativa de proporcionar uma qualidade de vida melhor, oportunidades melhores, você acaba tangenciando o risco de segrega os seus filhos da sua própria gente, da nossa própria cultura, da nossa própria cidade, dos amigos. Dá para viver no Brasil e no Rio de Janeiro, mas

“Viver com dignidade e orgulho está muito difícil”

A sua família assiste a novela? Seus filhos já estão demonstrando algum talento com a atuação?

Eles são muito jovens, não sei o que eles serão. Eu sei o que eles são. Eu vejo o dia a dia deles e à medida que o tempo vai passando, eles vão se revelando. Eu não sei, e também não é uma coisa que eu fique me perguntando. Eu percebo as aptidões e tem gente talentosa em casa (risos). Tem gente talentosa, mas não sei exatamente para qual profissão. E se eles assistem a novela? Assistem.

De vez em quando alguém ‘zapeia’ lá. Eu não assisto. Normalmente, a gente acaba vendo aqui no Projac entre uma cena e outra. Mas em casa eu acho que é uma coisa que acaba acontecendo, é inevitável. Não por influência nossa. Eu nunca pedi para eles assistirem nada. Eles acabam assistindo porque ficam curiosos, vêm assistir à gravação. Quando eu estou em cartaz, eles vão no teatro. É muito mais uma curiosidade pelo trabalho do pai do que uma aptidão, um desejo de ser aquilo ali.

Thiago como pai

Você é o pai que sempre sonhou? Seu pai é uma inspiração?

Sim! A referência masculina de criação, íntima, é o meu pai. Claro que ele faz do meu cotidiano com os meus filhos. Mas se eu sou o pai que gostaria de ser? Eu não tenho a menor ideia. Eu sou muito esforçado, muito dedicado. Devo ter lá os meus defeitos. Mas aí um dia você entrevista os meus filhos e aí eles falam (risos).

*Entrevista feita pelo jornalista André Romano

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