“Sou uma cidadã indignada”, diz Irene Ravache sobre política nacional

Publicado em 06/06/2017

Irene Ravache estará na nova novela das sete, Pega Pega que estreia na noite desta terça-feira (06). A trama contará a história do roubo milionário de um hotel cinco estrelas localizado no Rio de Janeiro, e a veterana que já foi inclusive indicada ao Emmy conversou com nossa reportagem para contar detalhes sobre sua personagem, a malvada Sabine. Confira:

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Você acredita que de certa forma a novela seja um retrato do Brasil?

Sim, é de um Brasil que acreditamos que dará outro passo.

Como a sua personagem é inserida nesse universo?

Minha personagem é uma brasileira que detesta este país insuportavelmente colorido como ela mesma fala; e não vê a hora de voltar para a Suíça. Fizemos uma cena onde ela reprime o filho por ele ter sido educado na Suíça, e gostar tanto do Brasil.

É uma vilã bem preconceituosa?

Ela é arrogante! Tem várias caras. Se a situação a favorece, ela vai usar uma cara ou outra. Ela é desagradável, não do tipo que fala verdades, apenas desagradável.

Por trás da personagem existe uma história de adoção. Como é isso?

Ela adota o Don (David Junior), e é meio obscura a forma como ela adotou essa criança. Só isso que eu posso adiantar.

Como você enxerga a adoção no Brasil?

O que eu vejo às vezes através de depoimentos e documentários é que nem sempre a adoção se dá de forma tão fácil como alguns casais gostariam e como algumas crianças precisariam. Ainda existem alguns entraves, por exemplo, se a mulher é solteira ela tem dificuldade para adotar, os casais gays ainda têm um caminho muito longo, quando no fundo, o que vemos são crianças precisando. Lastimável!

Você é considerada uma das melhores atrizes de sua geração. Você se sente uma pessoa realizada?

Não! Como atriz tem horas que me acho mediana, vejo coisas que eu gostaria de ter feito e não fiz, e sei que não vou fazer mais até pela questão da idade. Sinto que ainda tenho muito a aprender. Se eu ganhasse um (prêmio) Emmy, ficaria feliz. Já fui indicada, mas não ganhei. Eu gosto de prêmios, é um reconhecimento, uma prova de que alguém prestou atenção no seu trabalho.

Você é muito estudiosa?

Sou! Estudo muito para não fazer feio.

E esse visual?

Eu cortei meu cabelo aqui nos Estúdios Globo, num projeto da equipe de caracterização e gostei bastante porque posso misturar um pouco do meu cabelo branco e um pouco de tinta. Uso um shampoo especial para cabelos brancos, para manter o fio, porque o fio do cabelo branco quebra com mais facilidade, e também para não amarelar. Só isso!

Como você está vendo a nossa política atual?

Ficou uma situação assim: Eu fui de esquerda, fugi de polícia, volta e meia estava no palanque das Diretas Já, mas eu não entendo esquerda que compactua com corrupto, não entendo esquerda que faz aliança com bandido. E, às vezes quando nós externamos essa opinião as pessoas dizem: “então você é coxinha”. Não, sou uma cidadã indignada. Essa divisão que aconteceu no país pós-PT, é burra. Eu não entendo aliança com um presidente que sofreu impeachment, que é o Collor, não entendo uma aliança com Sarney. Quando você diz: “eu não entendo isso”, as pessoas rotulam.

O que você tem achado do trabalho do Sérgio Moro?

Penso que até agora o [Sérgio] Moro vem conduzindo tudo com lisura. Este homem estava lá no escritório dele, e levava uma vida normal. Colocava uma bermuda e ia passear com os filhos dele no parque, e caiu em seu colo o processo, e ele foi atrás como profissional. Ele é execrado por algumas pessoas, mas você pode crer que a maioria dos brasileiros o apoia.

Você já fez diversas comédias no horário das sete. Como surgiu o convite?

Eu nunca sei como surge o convite, não sei por que vocês perguntam isso. Eu simplesmente fui escalada, e eu acho uma delícia fazer comédia.

Você sempre lutou por algumas causas. Você se considera feminista?

Eu não acho que lutar por salários iguais é ser feminista, isso é uma questão de cidadania. Como eu passei pela revolução feminista de queimar sutiãs, houve um momento em que erroneamente se tentou trocar a figura do opressor por opressora. Sempre fui fazendo as coisas sem me ligar a rótulos, porque quando se rotula, tende a ficar engessado.

*Entrevista realizada pelo jornalista André Romano.