Rafaela Ferreira fala sobre personagem que sofre preconceito por ser gorda e doméstica em As Aventuras de Poliana: “Que ela possa se valorizar e se se aceitar”

Publicado há 2 anos
Por Leandro Lel Lima
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Em As Aventuras de Poliana, a atriz Rafaela Ferreira, 29, inegavelmente vem ganhando destaque por conta dos dramas de sua personagem. Nanci é uma moça batalhadora que devido às dificuldades financeiras parou os estudos e passou a trabalhar como doméstica.

Além disso, na história contada por Irís Abravanel na faixa das 20h30 no SBT, Nanci sofre e muito com sua baixa autoestima: provocada então pelo preconceito por ser gorda, pela relação abusiva que mantém o namorado e da visão estereotipada da sociedade em relação ao seu corpo e profissão.

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Sucesso nas redes sociais

Em entrevista ao Observatório da Televisão, Rafaela revela como vem construindo sua personagem. As reações do público pelas ruas e redes sociais, onde coleciona mais de 900 mil seguidores. Além disso, nesse meio tempo, em seu canal no Youtube, Rafaela dá dicas de como seguir na carreira artística. E sobretudo como é ser “gorda num mundo de magros”.

“Torço para que Nanci possa se encontrar, se valorizar, se aceitar e encontrar alguém que a trate dessa mesma forma. A insegurança da Nanci passa pela não aceitação do seu corpo, pelas dúvidas e sonhos profissionais ainda não realizados”, afirma a atriz. Confira:

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Só pra exemplificar. Como define a relação entre Nanci e Poliana? 

“Nanci é guardiã fiel da Poliana, como um anjinho da guarda humano. Tem um carinho muito especial pela menina, desde a chegada dela à casa da patroa. Nanci fica compadecida com a orfandade de Poliana e passa a protegê-la e cuidá-la com muito amor. Além de participar e ajudar a menina em todas as suas aventuras”.

Passou a ter uma outra visão ao interpretar uma empregada doméstica?

“Com certeza! Passei a valorizar e reconhecer ainda mais essa profissão tão presente no Brasil. E também, pude perceber como nossa sociedade ainda reforça inúmeros estereótipos e preconceitos ligados a essa figura tão importante na cultura e formação do nosso povo”.

Comentários infames

“Por exemplo, já ouvi piadas infames, como convites pra fazer faxina na casa de um sujeito, que respondi com um sonoro: ‘pagando bem que mal tem?’, já me solicitaram cafezinho enquanto caminhava de figurino na rua antes da novela ir ao ar, fora as percepções mais sutis, no próprio formato cênico para que reflita como é na nossa realidade, por exemplo, não se sentar à mesa, mesmo em festas ou recepções, não comer junto aos outros, ficar em pé enquanto todos se sentam e por aí vai…

Como atriz, sinto imensa alegria em entrar em contato com essas mazelas varridas para de baixo do tapete. Para mim, que já tinha lido o livro original, quando soube que iria interpretar essa personagem fiquei muito feliz.

Aliás, Nanci é um presente, tem uma importância imensa na trama e principalmente, na criação da Poliana, assim como todas as “Nancis” da vida real, e por isso causa uma identificação muito grande no público”.

Exemplos

Assistiu Que Horas Ela Volta e Histórias Cruzadas? Consegue fazer uma ligação com a história de Nanci?

“Assisti aos dois e amo a forma como essas histórias foram contadas! É impossível assistir Que Horas Ela Volta e não questionar a forma como tratamos as pessoas e os valores da nossa sociedade. E Histórias Cruzadas que transborda a desigualdade social e racial da sociedade americana da época. Nanci assim como as personagens de Histórias Cruzadas é uma mulher valente e guerreira que muitas vezes deixa sua família para cuidar e servir como babá de uma família rica. E segue um pouco na contra-mão de “Que horas ela volta”, onde a filha da empregada consegue ir para a faculdade. Nanci, vinda de uma família rica que ficou pobre, abandona a faculdade de veterinária para trabalhar e se sustentar”.

Rejeição da avó

A avó da Nanci sente vergonha do trabalho da neta. Como explica essa situação? 

“Branca veio de uma família rica e perdeu tudo, era inclusive amiga da Dona Isadora, mãe de Luísa, frequentava a mansão onde a neta trabalha atualmente. Além do fato de não se conformar da neta ter abandonado a faculdade de veterinária, Branca sonha que a neta possa se descobrir como ser humano e trabalhar com algo que não só a sustente financeiramente, mas, preencha sua vida e desenvolva seus talentos como os dotes culinários e confeiteiros que Nanci vem descobrindo”.

Relação abusiva

Nanci é uma personagem rica em histórias que merecem ser discutidas. Ele começou uma dieta para conquistar um rapaz. O rapaz sente vergonha de Nanci. Quais os cuidados e caminhos que você está tomando na condução da história? 

“Na verdade, Nanci e Waldisney tem um relacionamento cheio de altos e baixos desde o início da novela. Ele é um dos grandes vilões da história, também conhecido como Rato. Nanci não enxerga essa maldade nele e acaba abrindo portas, metaforicamente falando, e até mesmo as portas da mansão onde trabalha. Waldisney é muitas vezes abusivo e manipulador”.

Virada de Nanci

“Nanci é encantada por ele, sua baixa autoestima não a permite perceber os defeitos do namorado. Ele é mulherengo e isso mexe ainda mais com a insegurança de Nanci, que decide fazer dieta para alcançar o padrão das mulheres com quem ele trabalha na 0110. Para mim, como atriz, viver essas relações é um presente! Revisitar a época em que era insegura com meu corpo, que estava cega pela baixa autoestima e principalmente, poder falar sobre esse assunto com milhares de mulheres que também o vivem é um privilégio. Mas não digo que é fácil compartilhar essas dores com a personagem, é colocar o dedo na ferida, e a gente já olha para esses buracos o tempo todo pela pressão estética e tudo mais. Torço para que Nanci possa se encontrar, se valorizar, se aceitar e encontrar alguém que a trate dessa mesma forma”.

Tocando em feridas

Como atriz o que sente ao interpretar essa cenas? 

“Não é fácil encarar esses medos velhos e tão conhecidos por todas as mulheres, que recebem o tempo todo uma ideia de perfeição inexistente, mas, ao mesmo tempo, é um privilégio poder amplificar minha voz e tocar na ferida e mostrar novas possibilidades”.

Empoderamento

Quais conselhos daria para um amiga na mesma situação? 

“Vou dizer umas palavras que postei esses dias usando a #soulindaporquemsou essas palavras são um conselho e tanto: Eu imagino que você, assim como eu sempre ouviu que seu corpo não é suficiente, que é preciso mais: mudar o peso, cabelo, roupas, unhas, sobrancelhas… Que você não é capaz de ser, no amor, na profissão, na vida. Eu sempre ouvi tudo isso, e houve tempo que me importei, tentei ser outra, agradar mais, sorrir mais, ser menos, cada vez menos. Eu imagino que isso já aconteceu ou acontece com você, é tanto tudo nos dizendo que ainda não está bom. Hoje, eu vim aqui para dizer que: Está bom assim! Você é mais do que suficiente! Você é incrível! E é só isso que importa mesmo! Não é fácil, é todo dia ser tudo que esse tanto não quer que a gente seja. Mas a gente é!”

Inseguranças

Numa época de empoderamento, Nanci precisa da aprovação da avó para namorar. De onde vem a insegurança de Nanci? 

“A insegurança da Nanci, para mim, passa pela não aceitação do seu corpo, pelas dúvidas e sonhos profissionais ainda não realizados. E a necessidade de aprovação da avó para o seu relacionamento, vem da desconfiança de sua família em relação ao caráter do rapaz”.

Autoestima

Você se sente segura com a sua beleza? Já passou por alguma situação que te deixou mal? Superou? Dá conselhos? 

“Hoje me sinto segura da minha beleza e gosto muito de trabalhar com um termo: autoestima flutuante. Tem dias que a gente acorda se achando a mais maravilhosa de todas, tem dias que não, e isso é normal. O importante é manter a saúde mental, se cuidar, se valorizar e amar o seu corpo. Já emagreci 30 kg achando que me tornaria uma pessoa diferente, aquela que sempre sonhei, e a realidade não é bem assim, não me tornei nada além do que já sou e continuo sendo. Então, ame seu corpo do jeitinho que ele é, cada curva, estria, celulite, você é muito mais, muito além”.

Retorno do fãs

Como o público tem reagido? 

“O público tem adorado, me enchido de carinho, encorajamento, nas ruas e nas redes. Rola uma identificação imediata com as questões da Nanci, recebo muitas perguntas e respondo elas em vídeos no meu canal”.

Gostaria que comentasse essa sua afirmação. Por que abordou o tema?

“Recebo muitas perguntas e essa foi uma delas: ‘Rafa, quero muito ser atriz, mas, por ser gordinha sempre achei que só ia perder meu tempo. Isso é real?’ Decidi responder por que gosto de incentivar sonhos e ainda mais de imaginar um mundo onde as pessoas gordas sejam protagonistas, estejam em maior número nas produções e que a presença delas seja mais naturalizada na mídia e em todos os lugares. Devo admitir que o meu corpo, do jeitinho que ele é, foi decisivo para a minha seleção nas personagens que vivi na TV, na maioria das personagens, já era uma característica necessária. E quando não era, foi um diferencial de destaque que me garantiu o espaço”.

Bem-estar

Como cuida da sua saúde?

“Gosto de cuidar de mim e nutrir meu corpo, sem pressão estética, me alimento de forma balanceada a maior parte do tempo e me permito umas escapadas de vez em quando. Alimento meu corpo e minha alma com amor e aceitação, cuido da minha saúde e pratico exercícios físicos por prazer, como pilates e caminhadas ao ar livre. Gosto de massagens e cuidados para a pele também”.

Não seja essa pessoa!

Quais conselhos odeia quando alguém se refere ao seu estilo de vida?

“Seu rosto é tão bonito, porque não emagrece? / Você é uma gorda que se amostra, se fosse magra faria o mesmo? / Pensa na sua saúde. (geralmente, vem de pessoas que pouco se importam com a saúde.) / Já pensou em fazer dieta? Vi uma blogueira que…”

Representatividade

De fato falta diversidade na TV?

“Tem um termo que curto muito que é representatividade, que significa representar os interesses de determinados grupos ou pessoas. E é isso que sinto sobre pessoas gordas na TV, fomos durante tanto tempo privadas ou estereotipadas, que dá gosto de ver o crescimento que temos tido nos últimos tempos! E que cresça cada vez mais esse espaço, não só para pessoas gordas, como para todas as outras pessoas que foram/são estereotipadas na mídia e na sociedade. Por mais oportunidades para pessoas negras, orientais, LGBTs, portadores de necessidades especiais… por uma mídia mais real, humana e diversa”.

Aliás, o que o público pode encontrar no seu canal?

“No Fala Rafa! falo sobre aceitação, autoestima, vida de atriz, bastidores, dou dicas para quem quer ser ator/atriz também. Para comemorar um ano do canal vamos trazer muitas novidades no formato e nos temas também. Incluir beleza, relacionamento e muito mais!”

Literatura

Por fim, quais são seus novos projetos com teatro, cinema, livros?

“Sim! Escrevi um livro infanto-juvenil que chama A História Que Nunca Foi Contada que narra a trajetória de uma historinha desde a imaginação até a materialização, estou negociando com as editoras para lançar o livro em 2019! No teatro, participo da peça Se Existe Ainda Não Encontrei de Nick Payne, direção Daniel Alvim, com Helena Ranaldi, Gustavo Tresttine e Luciano Gatti, que volta e meia faz novas apresentações e temporadas”.

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