Rafael Cardoso fala sobre inteligência de Renato, de O Outro Lado do Paraíso: “Ele vai minando aos pouquinhos e fazendo um terrorismo”

Publicado há 3 anos
Por João Paulo Reis
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Vilão na principal novela da televisão brasileira, Rafael Cardoso nunca esteve tão em evidência como agora. O ator, que faz o Renato, de O Outro Lado do Paraíso, novela das 21h, da Globo, ganhou mais destaque nos últimos capítulos, quando a máscara do seu papel caiu e ele se revelou do mal para quase todos os outros personagens e o público.

Em entrevista ao Observatório da Televisão, Cardoso falou sobre os caminhos do personagem ao longo da novela, como ele construiu Renato, a repercussão alcançada e, ainda, contou um pouco de como a trama poderá se desenrolar a partir de agora.

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Também no bate-papo, ele falou da ligação dele com a natureza, relembrou sua infância em Porto Alegre e sua chegada ao Rio de Janeiro, com o começo da carreira de ator. Confira.

Você já sabia que o Renato seria um vilão?

A gente já tinha uma ideia que ele poderia se tornar um vilão, e ficamos segurando isso para não vazar. O Walcyr Carrasco é um mestre em entender as possibilidades da trama, e existia essa possibilidade no início, num dado momento não seria mais, e depois voltou.

Como você se preparou para fazer esse vilão?

Lá no início quando surgiu essa possibilidade do Renato não ser tão bonzinho, eu optei por uma construção deixando sempre possibilidade de mudança, uma certa ambiguidade, uma coisa meio nebulosa. Eu gostei porque o pessoal sempre me dizia “tem alguma coisa estranha nele”. Eu tentava fazer toda a cena de um jeito, e no final da cena eu mudava um pouco, tentando deixa-lo assim obscuro. Eu sou muito chato, ficava revisando as cenas depois e me analisando, porque queria deixar esse personagem assim.

E a repercussão dessa nova fase do personagem como tem sido?

Maravilhosa. É uma mudança total. Ouço coisas em todos os lugares, em casa com a família, até em lugares que vou, como no supermercado, onde fico batendo papo com as meninas do caixa, e elas adoram odiar o Renato.

Para o ator interpretar um vilão é mais interessante, não é?

Eu acho que tudo vale. É muito gostosa a possibilidade do vilão porque ficamos mais abertos a nos soltar mais, e poder até improvisar. Não ficamos tão fechadinhos na coisa do protagonista. Temos que achar motivação em tudo o que fazemos, estamos abertos para qualquer coisa e ficamos cavucando motivação em cada um deles.

E como será a novela daqui para frente?

Daqui é um novo embate. O casal Clara e Patrick contra o casal Fabiana e Renato, um ponto novo, fora as vinganças da Clara. As vinganças foram para trás, e creio que esse novo punch da novela vai até o final.

O Renato já deu provas de que só se importa com o dinheiro. O que você acha que o levou a ser assim?

Sempre quis apenas o dinheiro. Acho que a ganância o fez assim. Vivemos numa sociedade que vemos psicopatas em vários níveis, e não só aqueles que matam, mas pessoas que olham apenas para seu umbigo, não se importam com a realidade do outro, de criar uma realidade de tudo de errado que ele faz, tem uma coerência, e isso é um grau de psicopatia. Ele é bem desse ponto, mas vemos vários.

Você chegou no Rio de Janeiro com 19 anos e hoje é respeitadíssimo como ator. O que você falaria para aquele Rafael de anos atrás, que morava na Vila Ipê em Porto Alegre?

A vila Ipê é uma comunidade, uma casinha colada na outra, de 30 metros quadrados, tudo apertadinho, me criei lá com a molecada, jogando bola na rua, mas todas as pessoas de lá tinham uma índole muito boa, sempre batalhavam. Se o tio de alguém ia construir uma, íamos lá e ajudávamos para ganhar um dinheirinho. Nunca tive medo do trabalho, mas sinto que ainda estou no início. Estou com 32 anos, e vejo esses exemplos que temos aqui como o Lima Duarte, Fernanda Montenegro, Laura Cardoso. Me considero um vencedor, mas tenho muito a fazer ainda, e não penso só em mim, mas em outras pessoas como meus filhos, família.

Você acha que por mais que ele tenha essa psicopatia, ele é realmente apaixonado pela Clara?

Acho que ele não é apaixonado por ninguém, gosta é dele mesmo. Nunca foi apaixonado pela Clara.

Lemos na internet que a Fabiana vai perder o processo movido contra a Clara. E depois disso, o Renato vai fazer o quê?

Ele vai arrumar uma treta aí, ele vai fazer alguma coisa com certeza. Ele vai querer ganhar dinheiro independente de ser o da Clara. O problema é que a Clara feriu o brio dele, e o humilhou perante a galera de Palmas, não que ele se importe muito com as pessoas da cidade, mas ele vai por isso tentar derrubá-la.

Você acha que ele e a Fabiana continuam juntos mesmo depois de perderem o processo?

Não sei. Se for bom para ele, ele fica.

Eu acho o seu personagem muito parecido com o personagem do Jake Gyllenhaal no filme O Abutre, que é um psicopata observador, que costuma fazer um jogo mais mental…

Esse filme foi uma das minhas referências. O Renato é assim, ele vai minando ali aos pouquinhos e fazendo um terrorismo, e é extremamente inteligente.

Na coletiva de lançamento da novela, eu te perguntei se ele era na verdade um vilão, e você jurou que não era. Você não tinha certeza?

Quase (risos).

Você acha que o Renato é um dos maiores desafios da sua carreira?

Acredito que sim, mas estou falando isso porque é o meu atual, talvez o próximo possa ser mais. Acredito que todo trabalho que vamos fazer devemos torná-lo nosso maior desafio senão nos desmotiva. Aliás, estou falando por mim, que é como trabalho. E como faço muita coisa, preciso estar motivado em tudo o que faço. Busco sempre achar naquele personagem algo que me desafia, e para mim o Renato são três personagens em um só. Ele decidiu que queria ser rico, conheceu o pai da Clara, se transformou num tipo de Médico Sem Fronteiras, conheceu a Clara, virou subdiretor do hospital, e não sei nem se ele é isso mesmo, ou criou essa persona para conquistar a Fabiana, por essa complexidade, é um grande desafio.

Vivemos na era da tecnologia, e numa entrevista recente você falou que não usa Whatsapp. Como você consegue?

Hoje por exemplo nem peguei no meu celular. Meu carro quebrou e atrasei 20 minutos para chegar na Globo, e o pessoal estava me ligando, porque nem peguei no celular. Sei que deveria ter avisado que iria atrasar um pouco, mas acredito que as coisas urgentes que posso remediar rápido, eu ligo, então não preciso de encheção de saco de Whatsapp.

Você sempre foi assim?

Sempre. Eu gosto de tecnologia, mas tecnologia funcional para a vida, e Whatsapp não é. Rede social eu não tinha, aí criei o Instagram porque entendi que é uma ferramenta. Das redes sociais é a que dá mais visibilidade, e como tenho negócios, meu trabalho como ator ajuda a divulgar os outros trabalhos. Pensei “estou sendo burro”, hoje tenho 2 milhões de seguidores, mas poderia ter mais se eu movimentasse mais.

Quais são seus outros trabalhos?

Tenho três restaurantes, uma fábrica de suco, e uma fazenda de orgânicos.

Como você otimiza seu tempo?

Tenho uma equipe, mas as pessoas que trabalham comigo têm Whatsapp (risos). Eu que não tenho paciência, prefiro ficar com minha filha.

Você disse que o Brasil está cheio de psicopatas. Tem medo de criar os filhos aqui? Pensa em morar fora?

Penso realmente. Tenho planos de sair, mas não sei para onde. Tenho minha fazenda na região serrana do Rio, e tenho algumas terras lá na região de São José dos Ausentes, no Rio Grande do Sul, e eu vou primeiro me afastar para a fazenda para depois ir para fora. Estamos analisando todas as possibilidades.

Mas pretende dar uma pausa na carreira para isso?

Não. Dá para conciliar de boa. Venho fazer um trabalho ou outro e volto.

Estamos numa novela que retrata mulheres fortes. Que lugar tem esse tema em sua vida? Você costuma falar sobre isso?

Direto. Temos um grupo de estudo e tem várias meninas amigas que falam sobre empoderamento nesse momento de retorno da terra, gaia, trazendo essa sabedoria que ficou para trás. Radicalismo acho um porre, assim como o machismo, creio que tem de haver um equilíbrio. Se não tiver equilíbrio vira fervor, e perde força.

Agora que pensamos mais nisso, você já teve alguma atitude que depois pensou “Poxa, fui machista e não percebi”?

A gente tem isso direto, tanto homens como mulheres, mas acho maravilhosa a discussão e minha mulher participa muito desse movimento assim como Bibi (Bianca Bin). A mulher é muito mais sábia que o homem, e tem a sabedoria de conseguir lidar isso da melhor forma. Quando os homens perdem o poder, ficam bravinhos, a mulher lida diferente. Tento criar uma filha feminista, e daqui alguns meses um filho que não seja machista. Acredito que as crianças nasçam prontas, a gente é que vai estragando elas.

Renato (Rafael Cardoso) em O Outro Lado do Paraíso (Divulgação/ TV Globo)

Qual o cuidado você teve para fazer um vilão que não caísse no caricato? Porque quando vi as novas fotos de divulgação do personagem, você fazendo cara de malvado, pensei “O Rafael não é assim na novela”.

Eu pensei que era muito mais interessante na construção desse personagem mesmo ele sendo um cara fechado, fazê-lo um cara amoroso. O que assusta mais, um cara que grita e briga, ou um que está sempre rindo para você e em algum momento pode te golpear por trás? Pensei nisso, e tentei subverter isso. Ele é meticuloso, dá um ponto aqui para colher ali.

E seu visual que agora está mais clean?

Mais clean? Estou o Doctor Rey (risos). Sem aquela barba grande me deu até uma leveza para fazer o personagem.

Você prefere assim?

Quando não estou trabalhando, fico quase mendigo. Na verdade, gosto mesmo de ficar careca, que é o que me dá menos trabalho. Careca, barba grande porque aí não tem que arrumar cabelo nem fazer a barba (risos).

Você vai fazer isso assim que terminar a novela?

Não, porque já estou escalado para outro trabalho, mas ainda não posso contar nada, só que terei apenas um mês de férias.

O Renato só pensa em dinheiro como você disse. E qual a importância do dinheiro para você?

Dinheiro para mim é ferramenta. Eu otimizo meu tempo para fazer o que gosto, e gerar renda com isso, não só para mim, mas para outras pessoas. Faço o que acredito e me motiva, mas não fico com dinheiro guardado no banco. Comprei uma terra de preservação, tem a comunidade indígena que queremos ajudá-la a fazer algumas coisas. Infelizmente vivemos num mundo capitalista e não podemos ficar na utopia de “Ah, não me importo com dinheiro”, mas se você fica doente, precisa comprar remédio para comer, comprar roupa, pagar aluguel, e para ficar confortável pensei em criar ferramentas. Meu pai era microempresário, e eu via ele fazendo as coisas e dizia “Pô, pai, você está centralizando, passa a delegar mais”, e isso ficou no sangue.

Você sempre foi muito carinhoso com todos os jornalistas. Você passou a entender mais o nosso trabalho depois da convivência com a sua sogra?

Vocês são carinhosos comigo, e eu não tenho motivos para não ser com vocês. Eu admiro muito o trabalho de vocês, inclusive acho que vocês têm mais credibilidade do que nós atores. Estou há 11 anos com a Mari, e a Sônia é uma pessoa e uma profissional incrível, a considero minha mãe também.

*Entrevista feita pelo jornalista André Romano.

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