Para especialista, quando a TV retrata suicídio, o mais importante é falar de prevenção

Publicado em 05/06/2017

A banalização da violência mostrada diariamente na TV talvez já não choque mais o público por conta das cenas e dramas que, às vezes, são mostradas ao vivo. São sequências impactantes. Talvez o mais “curioso” pra tudo isso é que há uma audiência cativa.

Quando essa violência é registrada pelo entretenimento – novelas e séries – as histórias ganham outros contornos. Seja por um assassinato, ou até mesmo pelo suicídio. A TV não tem a obrigação de ser educativa, mas pode, sim, prestar um serviço com o apoio de especialistas e depoimentos reais que ajudam a compreender os caminhos da vida.

No caso do jornalismo há a “desculpa” de mostrar a vida como ela é sem contar com os desdobramentos de um caso, que na maioria das vezes não será retomado para possíveis elucidações. A presença de especialistas é rara, principalmente, nos jornais policialescos.

Na última sexta, 02/06, foi ao ar o derradeiro capítulo de Torre de Babel, pelo Canal Viva, a trama escrita originalmente em 1998 por Silvio de Abreu provocou polêmica por abordar temas tabus como o suicídio de Ângela, personagem de Claudia Raia, que se joga do alto de um prédio. Além de Torre de Babel, outras tramas da TV e também da Netflix, como 13 Reasons Why retratam o suicídio cada um a seu modo.

Em fevereiro, o Observatório da Televisão conversou com uma voluntária do CVV sobre o tema: “O suicídio mata pelo menos 1 brasileiro a cada 45 minutos. É um problema sério e pouco falado, pois é cercado de tabus. É importante falarmos abertamente sobre o assunto, sem preconceitos, seja dentro de nossos lares, no ambiente de trabalho, nas escolas, igrejas e roda de amigos”, revelou a voluntária sobre uma reportagem especial envolvendo suicídio entre celebridades.

Pensando como o tema pode ser discutido de forma responsável pela mídia, a nossa reportagem conversou com a psicóloga Christiane Vilhena, formada em comunicação e em psicologia com mestrado em Teoria Psicanalítica: “Nem o silêncio, nem o sensacionalismo abordam o assunto mais importante do suicídio que é a sua prevenção”, destaca a especialista.

Confira:

Quais os perigos em retratar o suicídio no entretenimento?

Penso que o principal perigo do suicídio, retratado no entretenimento sem o devido cuidado, reside no fato de poder funcionar como um gatilho para quem se encontra gravemente vulnerável, do ponto de vista psicológico.

Qualitativamente, penso que o suicídio seja um tema tão pernicioso quanto as mais variadas formas de violência, de vícios e de comportamentos que ferem os valores humanos, aqueles que fomos estabelecendo ao longo do desenvolvimento de nossa existência a fim de assegurar condições básicas para a vida em sociedade. Muito já se falou da banalização da violência, por exemplo. Novelas, filmes e séries exploram, de todas as maneiras possíveis, as facetas de nossas humanidades, com tudo que ela tem de pior e de melhor.

Desde que o mundo é mundo, e demos início ao complexo processo de comunicação e relacionamento, nos fazemos representar e gostamos disso. É como se essa representação permitisse um certo “afastamento” de nós mesmos e, através dela, catarticamente, expiássemos nossas mazelas. Choramos, gritamos, ficamos com medo, alimentamos, secretamente, sentimentos menos nobres. Enraivecemos e gargalhamos com o pote de pipoca em nossos colos, assistindo os retratos da vida nas telas. Temos, ali, tanto as mais belas histórias, capazes de nos servirem de exemplo e nos inspirarem, como as mais terríveis. Daí a importância da função dos educadores (pais, professores, adultos etc) durante a formação de crianças e jovens.

Não se trata de mantê-los apartados de um mundo no qual estão inseridos, mas de problematizar a realidade e suas representações, de modo a ajudá-los tanto na construção de referenciais – moral e ético – consistentes, quanto na formação do pensamento crítico. Contudo, do ponto de vista quantitativo, a coisa muda de figura. Diferentemente do flerte com situações mais arriscadas, a morte não deixa margem para reparos.

É por conta da sua radicalidade que se deve ter cuidado. Quando abordado no entretenimento, não deve alimentar ideias suicidas com a exposição detalhada e desnecessária de corpos ou dos recursos e estratégias utilizados para esse fim. O que deve ser incentivado é o debate acerca desse problema de saúde mental.

Pessoas que sofrem de depressão estão mais suscetíveis a gatilhos ao ver uma cena de suicídio?

Certamente. É bom lembrar que cada um vive a sua depressão a sua maneira, mas é fato que a depressão, por si só, já evidencia um abalo no desejável equilíbrio emocional, na saúde psíquica. Tanto mais vulnerável estará a pessoa quanto maior for a gravidade desse abalo. Sua percepção da realidade, sua capacidade de análise e discernimento estão comprometidas e isso pode contribuir para decisões radicais. A saúde, do ponto de vista psicológico, não significa ausência de problemas, mas aponta, sobretudo, para a forma como lidamos com eles. Há uma tendência muito forte em eternizarmos as situações que vivemos. Tanto no sofrimento quanto na alegria, é comum nos iludirmos com a ideia do para sempre. Em situações de dor extrema, desejar o seu fim é humano. A questão que o suicídio traz é da radicalidade do fim colocado. O suicídio é um fim definitivo para um problema, por mais grave que seja, provisório. Agora não é para sempre. Mas é justamente essa percepção que falha diante da dor. Aí reside o risco.

Christiane Vilhena é formado em psicologia e comunicação (Renato Moreth)
Christiane Vilhena é formado em psicologia e comunicação (Renato Moreth)

O que podemos tirar de positivo ao abordar um tema tão polêmico como o suicídio?

A positividade de uma possível abordagem reside no bom uso que se pode fazer dela. Como fato, como uma opção para o insuportável da dor, o suicídio deve ser discutido e trabalhado. O tabu que cerca o tema por medo do efeito contágio em nada favorece a discussão que poderia contribuir de maneira mais significativa para sua prevenção.

Qual é a melhor forma de abordar o tema no entretenimento e na mídia?

Com a seriedade que o tema demanda, dada a radicalidade de seu ato. Nem o silêncio, nem o sensacionalismo abordam o assunto mais importante do suicídio que é a sua prevenção. Deve-se mostrar a dimensão humana e como um problema de saúde mental.