“O feminismo negro e o branco ainda estão em lugares diferentes”, diz Jéssica Ellen sobre o atual feminismo no Brasil

Publicado há um ano
Por Muka Oliveira
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Desde quando estreou na televisão em 2012, em Malhação, Jéssica Ellen cativa o público com sua presença marcante em cena e sua beleza.

Interpretando Lucélia novamente na segunda temporada de Filhos da Pátria, de Bruno Mazzeo, a atriz conversa com o Observatório da Televisão sobre a nova fase de sua personagem na história da família Bulhosa, fala sobre a militância negra e reflete sobre o feminismo no Brasil.

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Confira a entrevista:

Sua personagem Lucélia acaba roubando o protagonismo das cenas em Filhos da Pátria. Qual a sua visão da Lucélia?

Eu acho muio legal fazer parte da série. Eu amo fazer cenas com a Nanda (Fernanda Torres), porque é uma grande atriz. Quando eu fiz a primeira temporada eu fiquei muito insegura, porque foi era primeira vez que eu trabalhava com o humor, mas a Nanda é uma atriz tão maravilhosa, e uma colega de cena tão incrível, que às vezes eu me percebia fazendo a coisa engraçada sem perceber, só na troca, no jogo. Aprendi muito com ela e repetir a parceria me deixa muito feliz. A Lucélia muito maravilhosa, porque dentro da estrutura da família Bulhosa, ela é uma pontinha de consciência. É muito crítica e critica na sutileza dentro do espaço que ela consegue. Como atriz, acho muito legal ter uma personagem que faz todas essas curvas.

Na primeira temporada ela era uma escrava. Na segunda tem essa mudança da senzala para a casa grande. Você acha que alguma coisa mudou dos tempos da segunda temporada para os dias de hoje?

As condições infelizmente ainda são as mesmas. E a Lucélia começa a questionar isso. Tem uma cena onde a Lucélia tem uma discussão com a Maria Tereza, porque ela está começando a questionar coisas da vida como pessoa, querendo os direitos básicos que são férias, descanso, folga, e a dona Maria Tereza decide demiti-la, por ela questionar o que hoje em dia a gente vê que é normal, mas naquela época não era. Acho muito triste perceber que muita coisa não mudou, porque a gente vê que o nosso país ainda não anda. E também essa coisa de queimar o passado foi um dos maiores erros que aconteceu, sem questionar isso foi um grande erro, porque muita gente diz que não houve escravidão no Brasil, porque não tem registro. Mas não tem registro porque um retardado achou que tinha que queimar os documentos que comprovavam isso, numa tentativa de criar uma história nova. Não existe isso. Igual aconteceu com o Museu. Aquilo foi um marco triste na história do Brasil. E isso acontece demais. Queimam os arquivos, queimam as pessoas, ao invés de olhar para o que precisa mudar, ao invés de querer questionar e mudar de fato.

Outra coisa importante que a série aborda é o racismo. Você já passou por uma situação semelhante na sua vida?

Sim. Todo mundo que é preto no Brasil já passou por isso. E eu tenho questionado muito as pessoas sobre esse tema. Eu pergunto para uma pessoa branca ‘Você já foi racista em algum momento?’, porque eu acho que a gente tem que começar a pensar sobre isso também, porque senão a gente vai estar sempre olhando para o ponto de vista da vítima numa situação de violência, o que nem sempre é interessante.

Você é do Candomblé e há algumas semanas saiu uma notícia que uma mulher por intolerância quebrou a imagem de Iemanjá na praia. Como é pra você pertencer a essa religião num país majoritariamente Cristão?

Eu sou do Candomblé porque é a religião que os meus ancestrais fundaram. Ponto. Essa coisa de ser um país majoritariamente Cristão só mostra para mim o quanto ainda somos um país colonizado. Quando eu me iniciei, eu vivi experiências tão profundas que um dos meus pensamentos foi ‘Meu Deus, eu estou me descolonizando’. A gente não tem um olhar generoso sobre o que foi deixado e foi trazido pelos negros escravizados que vieram da África, a gente tem a imagem de Jesus catequizado, e eu acho Jesus maravilhoso. Ele foi um grande líder espiritual. Só que as pessoas pegaram o discurso dele, pra reverterem num discurso de ódio. No Candomblé a gente não se identifica com um monte de figuras católicas, não tem nem diabo, não existe isso, eu sei o que é porque vivemos num país católico, mas ao mesmo tempo se eu vejo uma figura que dizem que é o diabo, aquilo não me traz nenhum tipo de afeto. E eu sou uma pessoa espiritualizada desde muito nova. Eu tenho uma relação muito forte com a meditação, com a Índia, então acho que eu me trabalhar espiritualmente eu estou me trabalhando como pessoa, como artista, como profissional, então para mim não é uma coisa muito separada da outra. Eu acredito que quanto mais eu me trabalho como pessoa, melhor eu entrego meu trabalho para a empresa onde eu sou funcionária e para o meu público. E eu também acho que estamos vivendo num momento de muita intolerância, as pessoas acham que para conviver você tem que acreditar no que elas acreditam, pensar do jeito que elas pensam, e isso é um grande erro, um grande equívoco. A gente tem que aprender e entender como sociedade. É como incluir o diferente, sem que aquilo te tire do teu eixo. Eu convivo com um monte de católicos, vários evangélicos, mas quando o assunto é Candomblé, as pessoas saem. Tem um preconceito que está enraizado, desde quando o nosso país foi colonizado. A gente é colônia e entendeu que tudo que é preto tem que negar. Isso é uma grande hipocrisia, porque daí chega o carnaval de Salvador, o carnaval do Rio, as pessoas querem consumir aquilo, querem consumir as comidas, as feijoadas que se vendem nas rodas de samba. Se você entender a história da feijoada, era o que tínhamos, os restos. Tem uma cena do Matheus que ele fala que o Brasil tem uma democracia muito jovem… E é mesmo! A gente acha que conquistou tudo e vem o mundo e diz o contrário. Daí a gente percebe que tá tudo errado.

Seu visual está lindo! O que você faz para cuidar do seu cabelo?

Eu sou muito tranquila, eu boto uns óleos, uns cremes. Eu sou uma pessoa muito natural na vida. Eu penso na pele, se tá muito sol, eu boto um protetor. Mas não sou neurótica com essas coisas não. Eu acho que o que a gente come, reflete na nossa pele. Eu me alimento bem, eu bebo água, levo uma vida saudável, faço exercícios, e acho que isso reflete no corpo, no nosso modo de vida.

O que você acha do feminismo nos dias atuais?

Eu acho incrível! Eu sou super feminista, e ao mesmo tempo muito feminina. A maquiagem e essa coisa de montação, eu fui muito resistente por muito tempo, mas passei a entender como uma brincadeira. Boto um cabelo, dou um close e tiro fotos, mas quando chego em casa, lavo minha louça e varro meu chão (risos). O feminismo para mim é uma das discussões mais atuais e urgentes, porque não tem como viver numa sociedade igualitária, se não questionarmos por que a mulher é tratada de um jeito e o homem de outro. E se a gente entrar no feminismo negro, a gente vai ver que tem muito mais profundidade e coisas que a gente não tem acesso e nem noção. Porque infelizmente são coisas diferentes. A Catarina é uma personagem super feminista, e está questionando porque ela está recebendo menos que um homem, enquanto a Lucélia está querendo só ter umas férias.

Explique o feminismo negro.

O feminismo negro e o feminismo branco ainda estão em lugares diferentes. E não porque a gente não quer e sim porque as demandas são outras. Eu acho que enquanto a gente não olhar para a população preta, a gente não vai conseguir segurar a mão de todo mundo. Essa coisa de ninguém solta a mão de ninguém, amor ninguém nunca segurou a minha. Que mão é essa que estamos falando? Que feminismo é esse que estamos falando? É só ver onde estão as pessoas pretas e onde estão as pessoas brancas. Quem é alvo todos os dias, quem são os corpos caindo dos morro? Uma criança de oito anos morreu e isso tem menos impacto do que uma criança num bairro nobre. Se for no Leblon, acabou o Brasil. O país fica parado. E isso reflete a situação do país, porque no inconsciente coletivo, a morte preta está acostumada. Você se acostumou com esse olhar e precisamos falar sobre isso. E isso é muito violento. E falar sobre isso infelizmente ainda não é prioridade para um país onde 54% da população é preta.

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