“O Domingão é um supermercado”, analisa Fausto Silva

Publicado há 9 meses
Por Felipe Brandão
Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Dono de um dos programas de auditório mais assistidos e mais longevos da TV brasileira, Fausto Silva não quer saber de parar. Prestes a completar 70 anos de idade e 55 de carreira, o apresentador da Globo esbanjou um otimismo e bom humor invejáveis ao falar com a imprensa na noite de ontem (domingo, 15), logo após a cerimônia de entrega dos prêmios Melhores do Ano.

A simplicidade, aliás, é outra característica que o âncora do Domingão do Faustão faz questão de manter. “Essa coisa de vaidade é a única coisa que destrói a inteligência. A vaidade destrói seja o cantor sertanejo, o cantor do pagode, o jogador de futebol, mas também o imperador, o rei, o empresário… Quando você se acha mais do que os outros, é o fim do fim!“, filosofou.

Continua depois da publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Confira a entrevista completa do rei dos domingos da Globo!

OBSERVATÓRIO DA TELEVISÃO – Faustão, como foi esse ano de 2019 pra você? O que você espera para 2020?

FAUSTO SILVA – Eu acho o seguinte: não adianta você ter saúde, ter uma certa felicidade familiar, no trabalho, se você não vê essa felicidade pra todo mundo. Só um imbecil fica achando que a felicidade tem que ser só em torno dele. Ao contrário: a gente quer ver a felicidade sendo espalhada! Quanto mais você espalhar sua felicidade, é melhor pra todo mundo. Não é questão de ser bonzinho. Se todo mundo fizer isso, você torna o mundo melhor. O que mais a gente reclama no Brasil é que as pessoas só veem os interesses pessoais, nunca os interesses coletivos. É uma imbecilidade, porque você fica aparentemente feliz, mas você olha pro seu vizinho, pras pessoas, e vê uma indignidade no jeito que acontece no Brasil a saúde pública… Eu sei que isso já vem de 40, 50 anos, e aqui é sempre voo de galinha, ‘agora o Brasil vai!’ E isso claro que abate todo mundo! Se você tiver um pouco de sensibilidade, você vai ver que tem que melhorar pra todo mundo. Quando melhora pra você e não melhora pra outro, você pensa: ‘poxa, amanhã pode acontecer comigo!’ Eu repito: não é questão de ser bonzinho, é questão de ser inteligente.

Qual o maior desafio de fazer um programa ao vivo, nessa era das redes sociais, em que qualquer um é juiz. Como é pra você ter certos cuidados em relação a isso?

Você tocou num assunto bastante grave, André, que é haver uma nova tecnologia que coloca a sua imagem e põe na sua boca o que o outro quiser! Por isso que as pessoas têm que tomar o cuidado e se proteger todo mundo. Agora, no meu caso, que já estou ‘veio’, quase parando [risos], o que é que eu tenho que fazer? Não dar bola pra isso! Nessa minha profissão, ou em qualquer outra, jornalista, taxista… Você não pode se empolga porque fulano te deu nota 10, achar que você é o melhor do mundo, pisotear as pessoas. E, se tomou nota zero, não é pra dar um tiro na cabeça! Divide tudo por dois, fica com cinco, tá bom demais! É isso o que a gente aprende com as porradas da vida. Se passar na frente de um cemitério, você vai ver que lá está cheio de gente poderosa, famosa. Gente que a cinco, seis anos atrás todo mundo puxava o saco, hoje não tira nem uma foto! Não compensa o cara seguir o caminho errado, porque a conta vem. Tem um ditado espanhol que ilustra bem isso: ‘tudo o que você faz com maldade, não traz felicidade’.

O Luciano Huck tem sinalizado em algumas entrevistas que está bem propenso a enveredar pela política nos próximos anos. Você nunca pensou em se candidatar a um cargo público?

Jamais! Primeiro porque pra fazer um discurso, com esse meu tamanho, ia cair o palanque! [risos] Mas não é por isso não… Eu acho o seguinte: todo mundo que tem vontade, que tem habilidade pra isso, tem boas intenções, eu acho que tem que fazer mesmo. Eu não faço porque não é minha praia. Eu tenho que fazer aquilo que eu sei fazer – apresentar programa, abrir espaço pras pessoas falarem da vida de cada um, pra que as pessoas falem de política, de economia…

Como é pra você apresentar um programa que recebe, semanalmente, as maiores estrelas do casting da Globo?

Eu acho que, sem falsa modéstia, a equipe toda tem muita consciência de que o nosso trabalho se deve ao público. Então, a gente primeiro tem que respeitar o público. Claro que a gente já errou muito, a vida é assim… Primeiro nós temos a autocrítica e o dilema da dúvida. ‘Será que isso vai dar certo, ou não?’… E mais: renovação o tempo todo, e tratar os diferentes de forma diferente. Não é que você vai tratar todo mundo igual. Você tem que tratar algumas pessoas, que têm uma história ‘xis’, com certa deferência. As pessoas muitas vezes reclamam: ‘o apresentador corta às vezes o entrevistado pra dar ritmo’. Mas hoje, no Melhores do Ano, você vê, a galera falou o que quis! Tanto que a gente até passou do horário. Nós temos um relacionamento muito bom com o Ali Kamel [diretor geral de jornalismo da Rede Globo], e ele entende, é um programa ao vivo, todo mundo na emoção… Não dá pra controlar, é difícil.

Fausto, o segredo do seu sucesso é não se levar a sério?

Exatamente isso! Claro que eu sei dos meus valores, eu tenho experiência, trabalhei muitos anos em rádio… No ano que vem eu vou fazer 55 anos de profissão e 70 de idade. Então, se eu não tivesse um pouquinho de juízo, iam mandar internar esse doido! É o mínimo! Essa coisa de vaidade é a única coisa que destrói a inteligência. A vaidade destrói seja o cantor sertanejo, o cantor do pagode, o jogador de futebol, mas também o imperador, o rei, o empresário… Quando você se acha mais do que os outros, é o fim do fim!

Você faz questão de reservar alguns espaços do programa para incentivar a cultura, a leitura, as artes. Você faz questão de manter esse diferencial para o Domingão?

Você é um dos primeiros caras que me fazem essa pergunta. Por exemplo, nós pusemos no telão, durante oito anos, todos os monstros sagrados da pintura – Picasso, VanGogh… Agora mesmo, com a questão do incentivo à leitura, são doses homeopáticas. Mas nós sabemos a dificuldade que o brasileiro tem [em cultivar o hábito de ler]. E isso, desde o educador Paulo Freire, que assistia ao programa e curtiu quando eu comecei isso. Meu pai sempre estimulou muito a leitura em casa. O Mário Sérgio Cortella nos ajuda nisso. O Domingão é um programa de auditório, mas ele tem alguns diferenciais. Esse é um deles, e acho que é fundamental você mostrar isso.

O que você tem preparado para o Domingão em 2020? Quais as novidades que vêm por aí?

A novidade é sempre essa. Pra começo de janeiro, temos o quadro do Quem Chega Lá?, de humor. Depois tem um quadro de dança em fevereiro. O programa é um supermercado! Os diretores têm noção de que, pra você ter um programa pra todas as idades, todas as classes, com uma audiência bem diversificada, você tem que ter essa receita. Você renova o tempo todo. Não é fácil, porque você tem quer atração com famoso, atração com anônimo, atração que às vezes vêm de fora, como é o caso das Videocassetadas. É a grande dificuldade da gente.

Você está preparando alguma coisa especial pros seus 70 anos?

Estou: esquecer que tem 70 anos e achar que tem menos! [risos]

(entrevista realizada pelo jornalista André Romano)

Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Carregar mais