Mayana Neiva explica como construiu Leandra, sua personagem em O Outro Lado do Paraíso

Publicado há 3 anos
Por Greicehelen Santana
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Mayana Neiva está de volta à televisão brasileira na pele de Leandra, a prostituta e gerente do bordel Love Chic na novela O Outro Lado do Paraíso. A atriz paraibana que estava morando em Nova Iorque, chegou a atuar na Argentina e no Uruguai e em conversa com nossa reportagem contou que sem sido um fonte de ensino atuar ao lado de Laura Cardoso. Confira o bate papo:

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Fala para a gente como você está acompanhando a repercussão de O Outro Lado do Paraíso?

Eu estou muito feliz. Essa novela é muito bem cuidada, a gente faz ela como cinema. Os diretores têm uma preocupação com cada plano, com cada detalhe da caracterização. A gente está muito feliz, principalmente com essa segunda fase, que eu estou chamando de ‘New Generation’. ‘O Outro Lado do Paraíso – New Generation’, dez anos depois (risos).”

Leandra passou a ser dona do bordel, já fez negócios com a Duda (Glória Pires). Como foi essa mudança para a segunda fase para você?

O bom de fazer uma obra em aberta é que você fica sempre, como ator, em um exercício constante de abertura de outras direções possíveis. O Walcyr sempre vai desvelando uma história embaixo da outra e você tem que estar lá batendo essa bola, como um jogo mesmo de futebol. Se você está ali, tem que estar pronto para se posicionar, isso deixa a gente muito vivo. É muito estimulante para o ator viver esse tipo de personagem como a Leandra, que aparentemente é uma coisa, mas depois é outra. Ela guarda muito mistério nessa trama. A gente descobre que ela é fazendeira, tem uma fazenda de soja, então já começa a se perguntar: por que ela está ali?; Quem é essa mulher?; Ela tem uma série de outras conexões.

Como está sendo sua parceria com a Glória Pires? Como vocês estão batendo essa bola?

Está sendo incrível. A Glória é uma rainha, uma das maiores atrizes da televisão brasileira. Eu tenho que dizer que antes de você contracenar com Fernanda Montenegro, Laura Cardoso e Glória Pires, você agradece a Jesus, a Deus, porque é um estado de maravilhamento constante. A Glória em si, tem uma plenitude, uma paciência, uma generosidade, ela é aberta, ela é um sonho. Além de ser um sonho da minha vida, porque eu era criança e já via ‘Mulheres de Areia’. Eu já era fã dela desde sempre. O ser humano que o ator é, consegue dar dimensão ao personagem. Ela é um ser humano muito interessante, muito vasto, muito digno, então, ela traz muito isso para os personagens.

Como você está aqui hoje revelando tudo aqui para a gente, agora revela: quem é o sócio do bordel?

Aguardem que vai ser um choque na cara da sociedade (risos).”

Mas você já sabe quem é?

Eu sei quem é. Eu acho que com a chegada da vingança da personagem da Bianca (Clara), a poeira vai ser levantada para muitas coisas. Pronto, falei tudo.

Como é para você contracenar nesse universo de bordel? É misterioso? Porque todo mundo imagina o perfume, o cheiro do lugar, a cor…

É muito diferente. Eu nunca tinha feito uma prostituta e pesquisei bastante. Sempre que eu faço um personagem, eu faço várias pesquisas, indo do cinema aos documentários.  Eu fui buscar Giulietta Masina, Fellini, fui nas referências do ‘Cidade Baixa’, do Sérgio Machado, referências de cinema. Vi o documentário sobre a Gabriela Leite. Depois você vai para a vida falar com as pessoas, conhecer, e aí é que a coisa toma uma outra dimensão. Você vai conhecer as pessoas que vivem aquelas histórias e vai entender por que elas entram naquele mundo. E aí depois você, como pessoa, traz a sua verdade para aquilo, é sempre um outro processo. No final de tudo isso, eu também fui para o aspecto político, que era uma coisa que eu queria ver, então comecei a estudar. A gente, na nossa moral, é distante do personagem, mas eu conversei com mulheres que foram para fora do Brasil para pagar dívida de jogo, que entraram na prostituição pela família, por razões que você jamais vai saber na hora que vê uma prostituta. Tem um rastro de humanidade muito profundo ali atrás. Eu comecei a pesquisar uma mulher que se chama Pye Larsdotter, uma sueca, que tem uma ONG de defesa aos direitos das prostitutas e ela deu uma declaração que mexeu muito comigo. Ela falou que a prostituição é a última fronteira do feminismo. E eu, como mulher, fiquei chocada com aquilo. Claro, nós como mulheres gostaríamos de defender essas mulheres e que elas, de alguma maneira, não tivessem lá, talvez um desejo idealizado de proteger. Só que ao mesmo tempo que a gente tenta proteger, a gente torna a violência contra elas invisíveis. Elas falam: ‘como a nossa profissão não é legalizada, qualquer crime cometido contra nós, é um crime que não existe’. Isso me movimentou humanamente em muitas questões. Viver uma prostituta é muito intenso, além de ser uma prostituta de um Brasil profundo, uma mulher que não é malhada, bronzeada. Não, ela é uma mulher que fazia um programa por R$ 30, R$ 40. É uma vida muito difícil e são outras questões humanas que eu acho que estão em jogo, e a gente percebe nas pesquisas do personagem. Já está dito no figurino, no cenário, que ela é uma prostituta, mas no fundo ela é uma mulher que tem suas questões. O meu interesse como ser humano, além de contemplar todas essas questões, é entender quais são os conflitos dessa mulher.

Você ficou muito tempo longe da TV e o brasileiro fica com saudade desse seu carisma, dessa sua beleza Pin-up. Agora voltou com um arcabouço cultural, veio uma nova Mayana. Parece que você estudou e fez muitos cursos nesse período fora do Brasil. Conta para a gente como está sendo essa nova fase..

Foi um período muito bom para mim. Na verdade, eu já tinha me formado nos Estados Unidos. A primeira vez que eu fiz teatro, foi na Universidade de San Francisco (Califórnia), quando eu tinha 16 anos, por acaso em um intercambio. Então, a relação com os Estados Unidos já existia dentro de mim. Eu queria voltar a estudar numa faculdade, eu queria me entregar em uma pesquisa, principalmente de atuação para cinema e vídeo que, muitas vezes, no Brasil, você aprende fazendo, mas que são poucas as escolas que têm estudo sobre isso. Nova York para mim foi muito bom porque eu estudei num coletivo de cinema chamado Apartment 929, de um cara chamado Clark Middleton, que é um professor incrível. A gente escrevia, dirigia e atuava as próprias cenas, tinha tempo de pesquisar. Eu fiquei em cartaz com duas peças, uma se chamava ‘Cowboy Mouth’, de Sam Shepard, e a outra foi ‘Cucaracha’, em uma tradução que eu fiz do Jô Bilac, que é um dramaturgo brasileiro. Eu também tenho esse projeto de levar dramaturgos brasileiros junto com esse coletivo, em Manhattan, que fala sobre o teatro do mundo inteiro. Eu fiz uma série na Argentina que chamava ‘Encerrados’, sobre o tráfico de pessoas, muito legal. Era um diretor que eu tinha feito um filme chamado ‘Infância Clandestina’, que também estreou em Cannes na semana da crítica. Ele é um cara que discute coisas humanas, bem interessantes, que é o Benjamín Avila. Depois eu fiz a série ‘El hipnotizador’, que estreou agora na América Latina e nos Estados Unidos. Fiz também a série ‘Rotas do ódio’, na Universal Channel. Então, eu acho que se explorar em outra língua foi uma outra universidade, como é uma universidade contracenar com a Laura Cardoso. Trabalhar na Argentina, no Uruguai, onde morei três meses para fazer uma série, trocar com atores internacionais foi uma honra, trás um respiro do mundo. E eu volto nesse momento para fazer uma novela com muito amor pelo meu país, com muito desejo de voltar ao Brasil. Com essa coisa também que só a novela traz, que é a comunicação direta com povo. Eu acho que esse tempo fora me deu uma maturidade, trouxe uma bagagem, uma interlocução com o mundo.

Você passou um total de 4 anos e meio lá fora. E pelo o que você falou, você viveu um pouco do que viveu a personagem da Emma Stone, em La La Land. Como é voltar ao Brasil convidada pelo Walcyr e pelo Maurinho, e ser abraçada pelo povo brasileiro e pela crítica?

É uma grande honra estar de volta. Eu sinto que o meu percurso fora do Brasil foi de muito sucesso em diversas naturezas: sucesso na dificuldade, sucesso no sucesso, sucesso em aprender, sucesso em renascer, sucesso em si colocar no risco. Eu acho que só no risco a gente aprende, a glória só vem depois do risco. Ficar em cartaz em Nova York para mim foi incrível, e voltar com uma novela do Maurinho, que é um diretor que eu admiro profundamente pelas escolhas cênicas, de botar o dedo na ferida, e do Walcyr, que é um autor incrível, que sabe criar personagens, histórias que mexem com o Brasil. É uma habilidade de escrever personagens que provocam e mudam muito interessante que o Walcyr tem. Para mim é uma grande honra.

Você já queria retornar ao Brasil ou foi especificamente para a novela?

Eu vim especificamente para a novela, mas talvez tenha uma volta aí. Eu tenho projeto ainda lá em Nova York, uma peça que já está captada. A gente está onde o nosso trabalho está, essa que é a verdade. Do ano passado para cá, eu morei três meses no Uruguai, dois meses em São Paulo, quatro meses em Nova York. Gravei na Inglaterra. Enfim!

Em Nova York tem muito brasileiro. Teve algum brasileiro que assistiu seu espetáculo e foi falar com você? Como você reagiu a isso?

Apareceu uma menina brasileira que me reconheceu da novela, e ela falava assim: ‘eu estava achando que estava lhe confundindo com alguém’. Porque não tinha uma referência do Brasil, era um texto inglês passando lá. E ela era uma atriz que tinha ido estudar. Era Marina o nome dela, ela foi tão fofa. É lindo você receber o amor das pessoas, nas ruas também pelos brasileiros que me viam pela Globo internacional. Os brasileiros se relacionam muito com o Brasil através das novelas lá, eu fiquei impressionada.

O que mais toca você ao fazer a personagem Leandra? É você pensar no feminismo? É você pensar na mulher em si? Pensar na prostituta? Você consegue explicar esse turbilhão de sentimentos que passa na sua cabeça?

O que eu mais amo na minha profissão é isso, ser outras coisas que o seu nome e sobrenome não seriam, e entender verdades a partir de dentro. Eu fiz um filme chamado ‘Para a Minha Amada Morta’, onde eu fazia uma evangélica. E eu saí em todas as igrejas evangélicas, fiz uma pesquisa enorme para fazer essa mulher que era totalmente diferente de mim. Mas quando eu conheci algumas mulheres, que fiquei íntima delas, eu comecei a descobrir o universo interior delas e como, de alguma maneira, alguma coisa de mim tinha nelas. Isso é o que toca na gente. Eu não entendo muito o ego no ator, porque constantemente a gente se destrói, se desfaz para encontrar outras verdades, e isso aumenta a minha capacidade de existir. No fundo gera compaixão pelas pessoas. É uma profissão que me aproxima de outros seres humanos que têm outras realidades e que, talvez, eu como nome e sobrenome não alcançaria.

Mas qual foi o aprendizado específico que a personagem dessa novela trouxe para você?

Não julgar ninguém. E que existe alegria, que existe potência, que existe amor. Nas primeiras cenas, eu sempre me referia a minha personagem como prostituta. Na primeira cena com a Fernanda Montenegro (Mercedes), eu dizia que ela não queria o dinheiro porque ele estava sujo, porque eu ganhei ele com o meu corpo. Eu quis trabalhar os opostos, já tinha dito que eu era uma prostituta, então eu tinha que trazer o sonho dessa mulher, o que ela tinha de bonito. Para mim, a descoberta é sempre humana, de não julgar, de ser feliz e, principalmente nessa segunda fase, de me divertir. Descobrir a dor e a delícia dessa mulher.

Tiveram faixas etárias nas pesquisas? Você conversou com aquela que se prostitui para pagar a faculdade? Com aquela senhora que foi colocada para fora de casa e virou prostituta?

Na nossa vida protegida. De quem foi educado, de quem estudou, de quem é inteligente, a gente não tem ideia do que é isso. Eu conversei com uma mulher que fazia programa por R$ 20 em Recife, às vezes para comparar crack. A gente glamouriza a prostituição e meu medo também era esse. Claro, eu queria me divertir porque também é entretenimento e também tem que ter leveza, mas por isso eu trouxe a dor dela no começo. Para mim, dentro da minha pesquisa, era o que eu sentia conversando com essas mulheres. Tinha uma mulher de 60 anos, que se prostituindo por R$ 15, a vida inteira, sem nenhuma maquiagem, sem nenhum glamour, no barzinho. A realidade da prostituição é uma coisa muito profunda e que tem que ter muita propriedade para falar. No meu caso, não era uma Bruna Surfistinha, uma menina de classe média. Nossas histórias se passavam no Tocantins, num Brasil profundo, com aquela temática, com aquela terra, com as pessoas daquele lugar. Não era Avenida Atlântica, não era Bruna Surfistinha, e eu fui nisso.

Você acha que existe prazer nesse universo?

“Eu acho que sim, mas como atriz, a gente sempre faz escolhas. Eu acho que a minha escolha em representar é de contemplar vários lados. De falar da dor, de falar da alegria, porque entre elas tem proteção. Eu conversei com uma que a filha era prostituta e ela não deixava homem nenhum entrar em casa. Só que ela era de uma alegria e também de uma dor atrás dos olhos, que só eu que estava ali via.”

Fazer essa personagem é um trabalho social também porque existe a violência. Parece que lá na frente o Walcyr vai mostrar a violência contra as meninas do bordel. Como é para você representar esse lado?

Existem umas que é possível ver isso, agora têm outras que estão em uma praticidade há anos que separam totalmente o corpo profissional do corpo pessoal. Uma coisa é ter o corpo que precisa fazer tantos programas para tirar a feira do mês, e outra coisa é o corpo em casa, que não entra nenhum homem. Eu conversei com uma que tinha uma cama de solteiro, porque não quer nenhum homem na casa dela. Eu me sinto muito honrada, de verdade. É um grande desafio como atriz, muito diferente do meu universo.

A Leandra tem um amor. Que é o tal do sócio que vai lá no bordel uma vez por mês. Eu queria que você falasse um pouquinho sobre essa situação. Porque ele também é casado, né?

Ela tem amor e agora tem um noivo também (risos). Ela tem várias histórias. A gente descobriu nesses novos capítulos, que ela tem um noivo, que está esperando por ela em algum lugar. Eu acho que, de alguma maneira, ela foi fazer a vida ali e agora quer ser dama da sociedade.

Você acha que casar é o sonho da grande maioria das prostitutas?

Eu acho que o amor romântico é bem vendido em tudo que a gente vê (risos). Eu acho que dentro daquele limite, aquelas mulheres se mantêm, têm uma certa independência. Por mais que seja de uma maneira torta, vendendo seu corpo, elas conseguem se manter sem depender de homem nenhum. Tem uma coisa de casar por escolha, querer alguém que ame, e eu acho que a Leandra tem isso.

Como é a preocupação com o corpo? Já que essa mulher que você está representando não tem um corpo perfeito. Como você cuidou para passar essa sensualidade?

O Maurinho sugeriu que ela fosse mais gordinha. Eu também vi nas minhas pesquisas aquelas dobrinhas na lateral da calça jeans, e eu queria retratar algo mais real possível dentro daquele universo. Mas depois que ela vai ficando um pouco mais rica, dez anos se passam, ela vai ficando um pouco menos miserável. Ela vai tendo uma noção de si, de comércio, da própria vida e vai melhorando o corpo. Mas, ainda assim, eu não sou magérrima, nunca fui um corpo padrão magra. A Simone de Beauvoir fala que o homem sempre brincou com o próprio ‘pau’ com os outros amigos, mas as mulheres elas brincam com a representação desde sempre. Com dois anos, você dá uma Barbie alta, loira e magra para a sua filha que é negra e tem cabelo cacheado, e ela se vê em um reflexo que já não é ela desde criança. Portanto, a partir dessa representação da boneca, ela passa para a representação do desejo masculino com 13, 14 anos. A mulher é roubada de conhecer a si mesmo, o seu próprio corpo e a gente vive escravo de padrões de beleza desde criança. Então usar o meu corpo, deixar ele um pouquinho mais gordinho, mais magro, a serviço da história que eu quero contar é uma honra.

Você nunca foi presa em querer chegar no padrão?

A gente atriz sempre esbarra nisso, porque está trabalhando com câmera, mas eu não vou e nem quero ficar magérrima. Eu quero ser quem eu sou e estou feliz com isso. E estamos na era disso, das mulheres negras, das mulheres de qualquer corpo, sendo o que quiser ser.

*Entrevista feita pelo jornalista André Romano.

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