Maria Casadevall analisa sua personagem em Os Dias Eram Assim: “Perdeu o limite”

Publicado há 3 anos
Por João Paulo Reis
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Maria Casadevall está fazendo sucesso com sua personagem Rimena em Os Dias Eram Assim. Na história, a médica chilena saiu de seu país para acompanhar o amado e encontrou carinho nos braços do cunhado Gustavo (Gabriel Leone). Em conversa com a atriz, ela contou de sua relação com a personagem e como ela a ajuda a fazer uma análise de si mesma.

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A Rimena está meio confusa em relação ao sentimento dela. Falta amor próprio ali. Como você trabalha essas nuances da personagem?

Difícil estabelecer esse limite, porque eu acho que faz parte de uma situação onde você fica um pouco cega. Perde referências, como é o caso da Rimena. Principalmente, naquele momento antes dela ir para o Chile, encontrar a mãe e resgatar alguns valores que, para ela, eram muito importantes, mas ela foi perdendo. Eu acho muito bonito essa coisa de que, quanto mais você se distancia da sua terra, das suas origens, por mais que aqui também seja o país dela, ela estava longe da mãe, a família do marido virou a família dela. Então, você vai perdendo as referências e precisa de muita força. Como diz Caetano, é preciso estar atento e forte para não se deixar levar pela conjuntura. E foi isso o que aconteceu naquele momento. Eu acho muito que tem uma coisa da latinidade da Rimena e, por isso, eu acho que as mulheres acabam se identificando com ela. Então, eu sempre procuro resgatar essa latinidade dela, de fazer as coisas por impulso, de ter o amor à flor da pele. A mãe dela é uma mulher muito sensual também. No começo da série, onde era a família no Chile, era um trio muito latino, uma família muito passional, tudo muito à flor da pele. Então, eu sempre tento resgatar que ela é fruto dessa família, dessa origem, que ela tem essa latinidade impressa no DNA dela.

Quem nunca cometeu um excesso como o dela? Até as mulheres empoderadas sofrem. Mas a Rimena nos faz pensar: Até que ponto vale a pena?

Outro dia, me perguntaram que conselho eu, Maria, daria para a Rimena. Eu diria a ela para se libertar a cada dia das expectativas que ela mesma criou, de uma vida junto com o Renato, do que seria o casamento deles. Naqueles dez anos viajando em missões, ela cria uma expectativa sobre aquilo e, na volta ao Brasil – que foi uma coisa meio inesperada – ela acha que ele até pode reencontrar a Alice, mas ela confiava e confia muito no taco dela. Então, ela achou que eles iam conseguir superar tudo isso juntos. Acho que ela ficou um pouco escrava das expectativas dela. Eu, Maria, acho que vale a pena até o ponto em que não está te machucando demais. E vale a pena até onde você respeita o espaço do outro, o que eu acho uma das regras mais básicas em qualquer relacionamento. Porque como eu, Maria, não permito que invadam o meu espaço de maneira violenta – não no sentido real – mas no sentido de forte e de entrar sem me pedir licença. Então, eu procuro nunca invadir o espaço do outro. Estou sempre atenta. Será que o meu amor está indo além? Essa medida nunca é fácil, mas eu vou até onde eu consiga me proteger. Fora isso, me recolho.

Como você vê a Rimena agora?

Eu acho que ela perdeu o limite total, de onde estava machucando ela mesma. Ela simplesmente foi. Tanto que eu acho que o ultimato que ela dá ao Renato de que ele vá viver alguma coisa com a Alice, mas que eles permaneçam casados tem a ver com essa expectativa e de não querer abrir mão do sonho que ela criou, com essa família, com esse trio que ela viveu no Chile: ela, o pai e a mãe. Ela quer repetir isso com o Renato e o pequeno Valentim. Porque é um trio muito coeso: ela ama muito aquela cria e ama muito o Renato e fica escrava dessas expectativas. E nisso, ela perdeu totalmente a medida. Mas, é mostrar que uma mulher que é empoderada, é forte, tem o seu lado humano e tem as suas fragilidades. E tem um momento em que ela expõe isso de forma aberta, ela diz que está disposta, que está sofrendo. Eu acho um tremendo ato de coragem.

O envolvimento com o Gustavo… Ela está envolvida mesmo?

Tem um momento, na hora em que ela está com o Gustavo que ela diz: ‘eu sei o que estou fazendo e você também sabe’. Tem uma coisa que eu percebo muito desde o começo: ela e o Renato são complementares, no sentido de que tem muita coisa nela que o Renato não tem e vice-versa. Eu acho que, naquela primeira aproximação dos dois no Chile, é isso. Ela pensa: eu posso ensinar muito para ele e ele pode ensinar muito para mim. Quando ela dá de cara com o Gustavo, existe uma coisa de identificação de alma, que eu vi desde o começo. Antes, quando não tinha nenhuma história de envolvimento dos dois, eu senti que eles são gente bicho. Eu acho que o Gustavo é isso. É um homem em formação e eles têm essa natureza que é muito parecida. E eu acho sim que, a princípio, estão em lugares diferentes deste sentimento. Ele tem um encantamento por ela desde o início e que foi virando uma paixão muito grande. Ela, essa identificação e essa admiração pela posição política dele, pelo artista que ele é. E eu acho que, no primeiro momento, surge como um tesão muito grande, que eu acho que ela já tinha e reprimiu desde o começo, porque era uma coisa inviável. E, naquele momento, da primeira transa, por uma carência. Mas, eu acredito muito que o amor possa nascer de qualquer fonte. E eu acho possível que nasça um amor de um encontro que é tão desencontrado.

De que maneira a Rimena te bate? Como você lidaria na situação dela?

De qual maneira ela me espanca, né? (risos). O meu encontro com ela tem sido muito importante para mim. Ela me ensina e me mostra que não existe ser humano super herói. Que a gente pode ser forte e ter que lidar com as nossas carências todos os dias. E que sim, um amor pode tirar o nosso rumo e tudo bem. Contanto que a gente lute para se encontrar. Eu acho que ela percebe, no momento em que ela já ultrapassou limites, que aquilo não está fazendo bem. E ela luta para resgatar e essa ida para o Chile é muito isso. E ela é metafórica, eu acho. Acho que todo mundo, de tempos em tempos, tem que fazer essa volta ao Chile. Eu me lembro de algumas passagens de ‘Mulheres que Correm com os Lobos’, que diz muito sobre isso, sobre a gente resgatar o nosso lugar de origem, não só enquanto lugar, mas enquanto natureza íntima nossa. Porque tudo bem a gente se perder, e a gente se perde. E eu acho bonito também se deixar levar e não criar armaduras, senão, não conseguimos nos relacionar com ninguém. Tudo bem quebrar a cara, contanto que você, de tempos em tempos, faça essa reflexão e volte para o seu lugar de origem, dentro de você. A sua casa, que é você mesma e se reencontrar com os seus valores.

Você já perdeu o rumo muitas vezes?

Já e não só por amores ou relações. Mas, várias vezes, no meu caminho vi alguma coisa que não estaria me fazendo bem e pensava: ‘tenho que dar três passos para trás, para conseguir continuar caminhando’. Eu estou com 30 agora e, aos 24, passei por uma depressão seríssima e ela foi um pouco isso. Eu precisei retornar às minhas origens para poder renascer outra vez. É uma morte simbólica.

O que aconteceu?

Foi uma mistura de tudo. Eu estava terminando o meu curso de teatro e fui morar na França, sem nenhuma perspectiva. Fui para trabalhar e estudar francês. E fui me embotando, fui ficando distante de tudo o que é importante para mim, do fazer teatral, da pesquisa, das artes. Eu trabalhava para conseguir pagar um aluguel, para estar lá e nisso, fui me perdendo de mim mesma. Trabalhando à noite, em pubs e vi que estava muito longe do que eu realmente sou. E, de novo, não tem problema, porque foi uma experiência muito boa. Quando voltei, tive colo da minha mãe, passei por um processo de recolhimento. Foi o meu Chile.

Você vive o luto?

Muito. Eu sou Leão, com Escorpião e vem uma Lua em Câncer. Eu preciso de dias chorando, preciso me arrastar no chão, preciso disso, choro, grito. Se eu não passo por isso, é como se eu tivesse me embotado.

Que final você quer para a Rimena?

Eu acho que ela tem que ser feliz. E a gente tem que desvincular um pouco essa coisa da felicidade dela estar em ficar com um ou com o outro. Quero que ela seja feliz enquanto mulher, autônoma, médica, bem resolvida, com o filho que ela ama. Se fizer bem para ela estar com o Gustavo, que eu acho que é uma pessoa que tem muito a ver com ela, ótimo. Se não for, que ela volte para o Chile, fique no Brasil, mas que ela esteja em paz.

Você descartou o Renato?

Tem um momento em que ela diz sim. Tem uma cena em que ela diz para ele que se sente como se estivesse correndo uma maratona, atrás do amor dele, mas que, naquele momento, estaria livre. Alice não diz mais respeito a ela, o passado dele também não. Ela está livre e esse processo é muito bonito.

Você é racional nas suas relações?

Nem um pouco. Mas, eu tenho o hábito de refletir bastante. Primeiro, as coisas acontecem e depois, eu reflito sobre elas. Acho que é uma maneira de colocar a minha tempestade em ordem.

Como está lidando com os 30 anos?

Maravilhoso. Foi uma travessia de portais. Eu tenho uma amiga que tem 46 anos, e estava falando com ela. Por que muda alguma coisa, e muda mesmo. Parece que a gente entra em um lugar onde existem outras expectativas sobre a gente e você também se dá conta de várias coisas. As suas expectativas sobre você também se alteram. Parece que você adota um outro ponto de vista. É assim que eu estou me sentindo.

Cobrança da sociedade…

Eu acho que é se libertar desse lugar. Porque eu acho que isso é um mecanismo de dominação da nossa sociedade machista. Isso também é uma forma de oprimir. Se você compra essa cobrança, existe uma cronologia biológica. Mas, a gente tem que se libertar dessas questões. Existe um outro lugar dos 30 anos, que é esse caminhar em direção a você mesma, de se encontrar com uma outra parte de você. Olhar pra trás, não com um olhar de cobrança, mas sabendo que toda essa história me trouxe até aqui. E a partir daqui, começa esse novo ciclo, com toda essa bagagem.

E a maternidade?

Eu tenho um respeito muito grande pelas crianças. Eu acho que eles são meio mestres. Eles têm uma ligação com o desconhecido, porque ainda não foram moldados pela sociedade. E faz muito pouco tempo que eles vieram de um lugar que a gente não conhece mais. Como ser humano e como atriz, eu acho que as crianças são os melhores professores. Eles estão muito preocupados em viver, em ser. E a gente quando cresce, vai desaprendendo a ser. Eu olho para eles e ele são.

Te dá vontade de se tornar mãe?

Não. Eu nunca tive a capacidade de fazer planos a longo prazo e nunca tive essa ideia romântica da vocação materna. Já passei por fases de “acho que não é para mim, então não”. Hoje, eu penso que “se acontecer, será muito bem-vindo”. Mas, eu não planejo, não sonho. É como o casamento. Mas, o casamento, na verdade, enquanto cerimônia e instituição, acho que não. Mas, já morei junto, tive namoros longos. Essas experiências são sempre maravilhosas.

Você fica bem sozinha?

Sim. Apaixonada eu estou sempre! Pela vida, pelas pessoas, pelos meus amigos, por homens, por tudo. Estou sempre muito apaixonada. A paixão, eu preciso dela. Mas, a solidão me atrai muito. Eu gosto muito de estar sozinha.

Saiu uma noticia que você estaria namorando o Renato Góes. É verdade?

Estou muito feliz. Não falo sobre a minha vida pessoal.

*Entrevista realizada pela jornalista Núcia Ferreira

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