Marcos Veras comemora volta ao humor em Verão 90: “É um playground fazer o Álamo”

Publicado há 2 anos
Por Felipe Brandão
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Alguns atores têm o hábito de criar uma zona de conforto em torno do tipo de papéis que desempenham nas produções de TV. Mas esse, definitivamente, não é o caso de Marcos Veras. Lançado como humorista no Zorra Total, em 2009, o ator fez questão de se aventurar pelo drama – em títulos como a novela Pega Pega (2018) e o filme O Filho Eterno (2017) – e agora retornar ao gênero que o consagrou com o papel de Álamo em Verão 90, atual folhetim das 19h da Globo.

Um feliz reencontro, na visão do próprio intérprete. “É um playground fazer o Álamo. O campo do humor é um campo muito rico. Então mesmo que você faça vários trabalhos cômicos, um seguido do outro, dá pra não se repetir. Sempre busco diversificar meus trabalhos”, revelou o ator, em um longo bate-papo com o Observatório da Televisão. Confira!

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Leia mais: Marina Moschen comenta situação de preconceito em Verão 90: “Hoje em dia não tem tanto espaço para esse tipo de preconceito”

Tal para qual

Como é contracenar com uma humorista do calibre da Fabiana Karla, sua parceira de cena em Verão 90?

Trabalhar com a Fabiana é um facilitador. Somos amigos há muito tempo, e ela é uma parceira incrível! Quando eu soube que ela seria meu par, já me senti no lucro. A gente já tem uma química, que só se reforçou nesse trabalho.

A personagem da Fabiana na novela, Madá, tem a capacidade de prever o futuro. Você acredita nesse tipo de dom sobrenatural?

Acho que acredito mais em intuição do que em previsão. Nunca tive nenhum contato direto com alguma vidente que me falasse: ‘você vai fazer uma cena com a Fabiana Karla na novela’. Nunca tive qualquer contato direto com esse universo. Mas, vindo da Fabiana Karla, eu acredito em tudo! (risos)

Mocinho ou vilão?

Como está sendo fazer esse personagem? O Álamo parece muito correto, mas…

Se parece correto, é porque está dúbio. A melhor coisa para um personagem é ser dúbio. O grande barato do Álamo, a meu ver, é que ele não é nem vilão, nem mocinho. Ele é um cara tomado pelo poder, pelo dinheiro, ambicioso pra caramba… Ele já foi de família rica, perdeu tudo, porque os pais dele eram bem picaretas… E agora ele quer retomar o que perdeu. Até que se prove o contrário, ele é do bem. Só que, como na vida real, às vezes a pessoa ganha tanto dinheiro, tanto poder, que acaba se revelando egoísta, leviano. O Álamo para mim é um personagem exatamente como você definiu: parece bonzinho.

Você se inspirou em alguém real do seu dia a dia para compor o Álamo?

Não exatamente em uma pessoa, mas… Nos anos 90, como é pós-ditadura, houve um comportamento de muita gente que se tornou rica, por conta até mesmo do confisco de dinheiro promovido pelo Collor. A grande maioria, aliás, se deu mal, mas teve uma parcela da população que se deu bem. Que conseguiu de alguma maneira tirar o dinheiro antes e investir em alguma coisa. É o caso do Álamo: ele pegou o dinheiro antes, conseguiu um trabalho antes do confisco e virou um cara milionário. Então, eu me baseei mais no comportamento dos anos 90 no meio da crise, em como o brasileiro se vira no meio da crise, e em como a crise não atinge todos. Atinge, aliás, a classe pobre. Quem é rico continua rico. Nos anos 90, tinha muita gente que trabalhava com moda, começou a trazer roupa de Balli e criar grandes marcas aqui no Rio de Janeiro. Eu me baseei nesses grandes empresários dos anos 90 que lançaram a moda surfwear.

‘Noventista’ de carteirinha

Como foi para você vivenciar os anos 90, que são o período retratado na novela?

Eu vivi as três fases nos anos 90. Fui criança em 90, 91, quando tinha 10, 11 anos. Nessa época eu jogava muita bola, assistia àqueles desenhos, He-Man, Tom e Jerry, Pica-Pau… Assisti até a She-Ra! (risos) Em 95, tinha 15 anos, era adolescente. Em 99, já estava iniciando a vida adulta, fazendo escola de teatro… Sou cria da zona portuária do Rio de Janeiro e, nessa época, se não me engano, o funk carioca estava no auge. Eu adorava ser DJ! Eu escutava o rádio e queria reproduzir em casa o que eu via. Aos poucos fui aprendendo, comecei a fazer festinhas com os amigos, nas quais eu tocava. Na época era uma profissão de status. Porque o DJ era quem pegava as gatinhas, comandava a festa… Foi um período e tanto!

Teve algum personagem de outra novela em quem você tenha buscado inspiração para fazer o Álamo?

Tenho muitas referências como comediante e ator. A gente sempre pega um pouquinho desses ídolos e coloca um pitada deles no personagem. Eu consigo enxergar no jeito malandro e meio acelerado do Álamo um pouco do que colocou o Pedro Cardoso no Agostinho [de A Grande Família]. Eu tento ter sempre em mente essa performance do Pedro para trazer um pouco de picardia ao Álamo, como também aquele certo nervosismo comum a ambos personagens.

Surfista, eu?

Seu personagem em Verão 90 gosta de surfar. Você já tinha esse costume de pegar onda? Ou começou por causa da novela?

Eu pegava onda – sem prancha mesmo, de peito, coisa de moleque – nos anos 90, de uma maneira bem amadora. Aí agora pra novela eu fiz dois meses de aula [de surfe] e me apaixonei pela modalidade! Qualquer esporte no mar é algo realmente revigorante. Algo que te exige e ao mesmo tempo também te dá muita energia. Vou levar pra vida!

Como foi essa aprendizagem do surfe? Você caiu muito, tomou muitos caldos?

Existe todo um processo. Primeiro você aprende alguns truques ali na areia mesmo, antes de ir pro mar. Eu já tinha fazendo por conta algumas aulas, então quando fui fazer a preparação pra novela em específico, eu já estava subindo [na prancha] e pegando as coisas mais rapidamente. Cheguei até a receber alguns elogios do professor. “Você já surfava?”, ele me perguntou. “Não. Eu sou cara de pau!” (risos) Eu fui bem nas primeiras aulas. Claro que você cai, são ondas menores que você pega… Mas até que levo jeito.

Ator, acima de tudo

Você vem do humor. Alguns personagens mais recentes, porém, te levaram para um lado mais dramático, e agora você tem em mãos o Álamo, que também tem um forte lado cômico. Essa diversificação é uma busca sua enquanto ator?

O campo do humor é um campo muito rico. Então mesmo que você faça vários trabalhos cômicos, um seguido do outro, dá pra não se repetir. Mas eu de fato sempre busco diversificar meus trabalhos, não me repetir. A última novela que fiz, Pega Pega, não era um personagem cômico. Era um policial sério, romântico, apaixonado. E agora eu volto pro meu habitat – porque eu amo fazer humor! Acho muito difícil, mas ao mesmo tempo é o gênero que me lançou no mercado! É um playground fazer o Álamo. Porque [o humor] é um negócio que eu gosto e que me traz reconhecimento perante o público. Como eu fiz muita comédia, ele cria essa memória comigo em relação ao humor.

Spoilers

Mais adiante na trama, o Álamo vai se separar da Madá, que por sua vez vai se envolver com o Raimundo (Flávio Tolezani). Como o seu personagem vai reagir diante do surgimento desse rival? Ele vai se esforçar em reconquistar a ex-esposa?

O Álamo está começando a colher os resultados da ambição que sempre teve. Nesse momento, só quer saber de ganhar dinheiro. Nos capítulos que estão no ar, ele ainda não se tornou esse grande empresário. A ideia é que ele se torne um grande empresário e isso tome conta dele a ponto de prejudicar o casamento com a Madá. Mas o Álamo ama a Madá! Acredito que, mesmo diante dessa crise, mesmo agora preferindo o trabalho, o dinheiro e o poder, em algum momento ele vai tentar reconquistá-la. Se vai conseguir… Só lendo o Daniel Castro pra saber! (risos)

Você se considera tão ambicioso quanto o seu personagem?

Me considero, sim, ambicioso. Mas a ambição pode ser positiva ou negativa, né? Minha ambição, no caso, é não me repetir nos meus trabalhos, fazer trabalhos diversos. Viver da minha profissão até os 100 anos. Ambição todo mundo tem que ter. O que ruim é quando a ambição vira ganância. Me considero um cara ambicioso positivamente.

Desafios do humor

Como profissional do humor, como você vê o panorama atual do gênero, em meio a essa época de restrições e patrulhamento do politicamente correto?

Matéria-prima não vai faltar nunca pra fazer humor, principalmente no Brasil. Mas a forma de se fazer humor mudou – e que bom que mudou! Porque o mundo mudou, a sociedade mudou, e o humor tem que acompanhar. Não dá pra se continuar fazendo o mesmo humor feito nos anos 90, os mesmos personagens, os mesmos tipos de piada… Não se faz mais, por exemplo, piada pejorativa com gay, com negro, com anão. A gente consegue fazer algo melhor, e vem fazendo. O humor, a bem da verdade, sempre foi patrulhado. Talvez hoje esteja um pouquinho mais. Eu sou da época em que fazer piada com político era uma unanimidade. Hoje não. “Como você está fazendo piada com ‘meu’ político?” Criaram-se políticos de estimação, coisa que eu, particularmente, acho grave. Grave, ingênuo e bobo. Porque sempre se brincou com o presidente, com o deputado… De Jô Soares pra cá, sempre houve esse tipo de humor!

Hoje em dia é muito comum os artistas fazerem uso das redes sociais, até como uma ferramenta de interação com o público. Você também é adepto desses canais?

Eu adoro as redes sociais! Uso todas, acho importantíssimo… É um canal direto com os fãs, com as pessoas que te acompanham, com artigos e leituras pra você se manter informado. Hoje em dia, apesar das fake news e tudo o mais, a internet traz mais coisas positivas do que negativas. As negativas servem pra você jogar pra escanteio e também pra apurar o seu olhar. Eu aprendo muito com as redes sociais, e as uso bastante porque entendo que virou uma espécie de revista eletrônica pessoal de cada artista.

Nas ondas da internet

Falando em redes sociais, você tem medo de deixar seguir alguém e virar notícia por isso? Ou pior: pegar alguém, ser fotografado e essas imagens viralizarem nas redes sociais?

Hoje tem isso, né? (risos) Agora, com o celular, todo mundo virou jornalista, repórter… Mas quer saber? A minha vida pessoal é tão desinteressante. (risos) A minha vida profissional gera muito mais cliques, pode apostar. Já dei alguns unfollows por aí, não posso citar nomes, mas já dei sim… (risos)

Você montou anos atrás o seu próprio espetáculo, Falando a Veras, e ele acabou te projetando. Qual a importância de você ter essa versatilidade, como ator, produtor e diretor, para investir na própria carreira?

O Falando a Veras foi um divisor de águas pra mim. É um stand-up comedy que eu fiz durante 10 anos, no auge desse gênero no Brasil, e me apresentou pra muita gente. Fiquei em cartaz durante muito tempo no Rio e em São Paulo e viajei o Brasil com esse espetáculo. Vim parar no Zorra Total em 2009 graças ao sucesso do Falando a Veras. É muito legal fazer uma novela, ser convidado para atuar em um filme, mas acho que o ator precisa ter uma certa independência de produzir, escrever suas próprias coisas. Isso te dá autonomia como artista. E eu busco essa autonomia. Faço uma novela, faço um filme, já pensando na próxima peça de teatro que vou fazer, de maneira autoral. É o que eu sempre busco.

Para rir e refletir

Nesta semana, vai ocorrer a edição 2019 do Prêmio de Humor do Fábio Porchat. Desse um ano para cá, quais você sente que foram os maiores ganhos – e os maiores desafios – para o campo da comédia no Brasil?

O humor conseguiu trazer um novo tipo de olhar para a sociedade. Se você avaliar o Tá no Ar e o Zorra, a matéria prima deles é sempre de ironia sobre o universo do poder. Não tem mais humor em cima do negro, em cima do gay, em cima das minorias. O que, aliás, é até discutível, porque os negros hoje são maioria! Zorra, Tá no Ar e Porta dos Fundos são exemplos modernos de que é possível fazer humor sem ofender ninguém. Só fazendo rir, refletir, provocar… Acho que o humor segue com essa função de provocar não somente o riso, mas também a reflexão. O Choque de Cultura, que é um humor que surgiu na internet e veio agora para a televisão, traz também um outro tipo de comédia, acoplado ao cinema, o que também é um barato! Tem muita gente que não conhece sequer o filme de que está falado, mas passa a conhecer através do humor. Ou seja, é o humor trazendo informação.

Você namora a também atriz Rosanne Mulholland. Como é a relação de vocês no sentido de trocar experiências e figurinhas profissionais? Vocês têm novos projetos juntos?

Como a gente tem a mesma profissão, é inevitável conversar sobre os nossos trabalhos. Chegamos a fazer um filme juntos [Tudo Acaba em Festa, lançado em 2018]. Vemos muitas séries, muitos filmes, vamos ao teatro, ao cinema… A arte, a dramaturgia está sempre pulsando na gente. Ela está muito feliz por fazer uma novela aqui [na Globo, no caso, Malhação: Toda Forma de Amar]. Por enquanto não temos novos projetos juntos, mas, no futuro, quem sabe? Trabalharia tranquilamente com ela.

*Entrevista realizada pelo jornalista André Romano

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