Luellem de Castro sobre espaço dado aos negros na TV: “A nossa luta é pela igualdade”

Publicado há 3 anos
Por Bárbara Saryne
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Em entrevista ao Observatório da Televisão, Luellem de Castro fala sobre Talíssia, sua personagem em Malhação – Vidas Brasileiras e da batalha de atores negros por espaço na TV. Confira:

Joana Borges, a Verena de Malhação, revela receber mensagens de jovens que já sofreram assédio

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Como está sendo a repercussão do seu trabalho?

“Está sendo incrível, eu tenho recebido muitas mensagens maravilhosas de meninas que estão se sentindo representadas, felizes de me ver fazendo o que eu estou fazendo. Tem até uma galera pesquisando as minhas músicas, criança falando comigo. É muito legal receber carinho.”

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O que mudou do teatro para a televisão?

“Em relação à vaidade, orgulho do meu trabalho, nada mudou. Eu faço os dois trabalhos com muito carinho e vontade. O que muda é o reconhecimento das pessoas nas ruas. Tecnicamente também mudou bastante. Quem está muito acostumado com o teatro, quando chega na televisão dá uma mexida na cabeça, é bem diferente.”

E a sua família, como está lidando com tudo isso?

“A minha família acha o máximo, assiste à novela sempre, torce. Meu pai sempre gostou de ‘Malhação’ e agora está toda hora me mandando mensagens para saber o que vai acontecer (risos). Minha família fica preocupada com os personagens, é divertidíssimo.”

Como é que está a expectativa para a entrada da trama da sua personagem?

“Eu estou bem ansiosa porque a história da Verena (Joana Borges) foi muito forte e importante. A da Talíssia também vai falar coisas importantes e eu espero que a gente mantenha esse nível de potência profissional.”

E você é do candomblé, assim como a sua personagem…

“Exatamente. Eu iniciei no candomblé na época dos testes de ‘Malhação’. Eu sempre tive contato, amigos que frequentavam. Mas o candomblé se tornou minha religião na época dos testes mesmo, e a Talíssia acabou sendo um presente porque eu vou falar sobre o que eu estou vivendo mais intensamente.”

Isso facilitou para você em algum momento?

“Com certeza, agora eu consigo ter mais argumentos, não é uma coisa que eu preciso estudar para saber, é algo que já está presente na minha vida.”

Você tem alguma restrição alimentar ou é só na novela?

“Dentro do candomblé existem algumas coisinhas. A gente chama de ‘quizila’, que é quando uma pessoa já tem um santo e o santo dela não deixa ela comer algumas coisas. Isso existe e eu não tenho ainda, estou iniciando. A gente está estudando muito, tudo está sendo feito com muito carinho e atenção para não inventar nada porque é um assunto muito importante e a gente precisa falar dele como ele é.”

Você corta o seu cabelo ou não pode?

“Não, o que acontece no candomblé é que você raspa a cabeça quando inicia. Faz isso uma vez e só raspa de novo depois de sete anos.”

As entidades já falaram alguma coisa que deu certo na sua vida?

“Ah, sim. A gente trabalha com isso, é o que a gente acredita, é a nossa fé. Eu já ouvi várias coisas sobre a vida como um todo.”

Você já ouviu algum comentário intolerante em relação ao candomblé?

“Já. A intolerância com as religiões de matrizes africanas acontecem desde sempre, independentemente de você ser da religião ou não. O fato de você ser negro, estar num lugar e alguém começar a falar sobre isso, você já sabe que é para você a piada. Eu já ouvi várias vezes na escola, quando eu só tinha 10 anos e nem pensava em falar nisso. As pessoas, na época, já me chamavam de macumbeira, bruxa, feiticeira ou qualquer coisa associada.”

Qual é a sua reação ao ouvir esses comentários?

“Hoje em dia, eu nem ouço mais. Dentro do candomblé a gente ganha muita força para lidar com isso porque o candomblé é muito família, então muita gente dá apoio, fala que está tudo bem. Esse tipo de coisa entra por um ouvido e sai pelo outro. O que eu posso fazer para convencer e dialogar com a pessoa, eu faço. Quando não funciona com o diálogo, eu simplesmente nem converso.”

Você chegou a conversar com alguma menina que já sofreu agressão por isso?

“Eu não conversei com nenhuma menina que já tenha sofrido agressão por isso, mas a Talíssia mistura vários ambientes que eu já vi na vida. Ainda que tenha sido por outros motivos, eu já tive amigas agredidas. Eu tenho muitas amigas que têm filho, eu tenho muitos amigos no candomblé, então tudo isso se junta à minha vivência”

Como é que a Talíssia vai lidar com tudo isso? Você concorda com o comportamento dela?

“Eu concordo, acho a Talíssia muito forte. Ela lida com valentia e com doçura, a Talíssia é muito sábia. Ela é um retrato interessante dos nossos adolescentes de hoje. Com a internet, a gente consegue ter muito mais informação para se sentir mais seguro para falar. Eu acho que a Talíssia mostra que nós fazemos parte de uma geração que está aí para definir coisas.”

O que você diria para as pessoas que praticam intolerância religiosa?

“Eu diria que estudar é legal, conseguir ler…o que acontece muito é a falta de conhecimento. Isso é herança histórica, proibiram esse conhecimento e o que a gente não conhece a gente teme, o que a gente teme a gente apaga. Eu acho que é interessante ouvir, olhar, ver o que é. Existem várias festas abertas ao público, sempre tem uma pessoa disposta a conversar, não precisa ser um líder. Eu acho que quando a gente quer o bem do outro, a gente quer o bem da gente também.”

A Talíssia foi mãe muito cedo. Como é, no seu primeiro trabalho, já lidar com o desafio de ser mãe?

“É complicado (risos). É muito complicado porque eu sempre lidei muito bem com crianças, primos menores. Eu também já dei aula de teatro para crianças, então eu sempre me dei bem. Mas no primeiro trabalho dentro da televisão é completamente diferente porque o tempo é outro. Até o tempo que você tem para conquistar essa criança e fazer amizade é outro. É diferente, foi um baque. Eu esperava ficar aqui tranquila e isso é mais um dado, é outra coisa que tenho que lidar. No geral, estou feliz, energia de criança é uma coisa maravilhosa e a Maria Alice é uma coisa maravilhosa, fofa, linda.”

Você conhece muitas meninas que ficaram grávidas na adolescência?

“Eu tenho um grupo de amigas do ensino fundamental e eu e mais outra somos as únicas que ainda não têm filho. Tem duas que tem dois. Isso é muito comum e acontece o tempo inteiro, é bem real. Por isso eu fiquei tão feliz de poder falar isso de um jeito tão delicado, tão bonito. A Talíssia deixa de fazer coisas por causa da filha dela. Ela não pode participar das festinhas porque ter filho exige responsabilidade. A gente não está romantizando o que é ser mãe adolescente, mas também não estamos jogando para baixo e dizendo que a vida acabou porque isso não é real. Todas as minhas amigas estão vivas, trabalhando, terminando as suas coisas. A gente precisa falar para os adolescentes que isso deve ser evitado porque é um impacto gigante, mas se já aconteceu a vida continua e a gente é capaz de fazer coisas grandiosas.”

Você já cantava antes de “Malhação”?

“Eu comecei a cantar no teatro e sempre foi cênico. A maior surpresa para mim, foi quando eu fui para o palco e criei banda. Isso foi mais surpreendente que trabalhar com isso na TV porque eu já fazia dessa forma.”

Você fica orgulhosa quando pensa que está representando muitas meninas negras?

“Eu acho que a gente está ocupando e abrindo espaços que antes pareciam impossíveis. Mas eu também acho que estamos a passos lerdos e isso não é uma questão nossa. Existe um mundo de atores negros, cantores, modelos, um mundo de profissionais negros que só estão esperando ser chamados porque a gente precisa ser convidado para fazer algo na TV. Cansados de esperar esses convites, existe cada vez mais movimentos de pretos que fazem seus próprios projetos e é incrível, mas o fato é que a gente quer estar junto de todo mundo. A nossa luta é pela igualdade, então eu fico muito feliz de fazer parte disso com a Talíssia, que fala firme sobre o que é ser preto, o que é a vida na favela e no candomblé. Acredito que ainda temos um grande caminho pela frente porque ainda somos poucos.”

Como foi o processo de testes, foi muito difícil?

“Não, quando eu cheguei percebi que a preparadora era uma mulher negra, poderosíssima, que me deixou muito acolhida e isso fez toda a diferença.”

Quais são os cuidados que você precisa ter com o cabelo?

“Ah, meu cabelo é bem de boa. Eu lavo com shampoo e deixo secar naturalmente, não pode dormir com ele molhado e nem usar secador para não ficar com cheiro ruim. Eu uso desde pequena, a primeira vez que eu coloquei tranças desse tipo eu tinha 7 anos.”

Você tem um sonho para compartilhar com a gente?

“Eu acho que tenho metas e essas metas vão se transformando. É claro que estar aqui na ‘Malhação’ falando sobre esses assuntos está sendo a realização de uma meta, mas tenho várias outras.”

Você é vaidosa, vai para a academia?

“Não (risos). Eu acho que a academia é importante para a saúde, até mesmo para a saúde emocional porque libera endorfina e a gente fica bem, desestressa, e eu acho bacana isso. Mas não tenho vaidade de ter um corpo assim… acho que a gente precisa rever essas vaidades. O que é um corpo interessante? Eu acho que tem um monte de corpo interessante e diferente. A gente não precisa ter o mesmo corpo que todo mundo tem para se sentir bonita e interessante.”

Você mudou sua rotina depois que a novela foi ao ar? Deixou de andar de ônibus?

“Infelizmente, sim. Primeiro porque eu não vou mais para os mesmos lugares e eu só vou da minha casa para a Globo e da Globo para casa. Geralmente estou cansada e o ônibus é um transporte que demora, é difícil. Depois que eu me mudei e vim morar na Barra da Tijuca, eu passei a andar mais de metrô. Então mudei um pouco, mas também não está rolando um grande assédio que não me deixa sair na rua (risos).”

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