Lima Duarte desabafa: “O público que é o nosso patrão”

Publicado há 3 anos
Por André Romano
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Lima Duarte, que está dando um show de interpretação no papel do misterioso Josafá, de O Outro Lado do Paraíso, conversou com nossa reportagem e revelou detalhes de sua carreira exitosa. Confira o papo:

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Josafá é um homem simples que guarda grandes segredos, né?

Dizem que onde ele pisa está cheio de esmeraldas, mas ele não procura isso. Ele ama o longe, a fortuna dele está distante. Uma distância não só geográfica, mas mitológica. Busca o seu primeiro amor, que nutriu pela Mercedes (Fernanda Montenegro), não aquela paixão imediata, a do desejo, que acaba culminando em sexo. Os dois querem encontrar, um no outro, o sentimento que ficou no passado.

Seria essa simplicidade que o torna tão encantador?

Simples? Ele é o do campo, mas o acho muito sofisticado. De uma delicadeza ímpar. Sim, é um matuto. Também acho Hamlet [personagem criado por William Shakespeare] um caboclo.

Você é bem caboclo, né?

Até tenho uma casa na Urca [no Rio de Janeiro], mas quantas vezes depois de gravar o dia inteiro não fui direto para o meu sítio no interior de São Paulo.  Também sou um solitário.  Vivo sozinho e só penso em meus personagens. Meus filhos, netos, estão todos na Austrália.  Agora que descobri o celular, fico aqui vendo as fotos deles. É isso.

Como foi reencontrar Fernanda Montenegro em um folhetim?

Pois é! Já fizemos tanta coisas boa juntos. E ainda mais coisas mais ou menos e, meu Deus, quanta coisa ruim também (risos). Quando estamos em cena, gosto de fazer bonito. Não por mim, por ela. Ah, sem falar na Laura Cardoso. Uma velha amiga. Fazendo as contas, juntando as idades e os nove fora. Posso dizer que são quase 300 anos de amor.

Algum folhetim, em especial, marcou a parceria de vocês?

Em Belíssima (2005), tínhamos até uma filha que ela teve coragem de jogar fora. Tô até agora procurando aí nos lixões se acho uma pista da Cláudia Abreu [que viveu o papel em questão, Vitória] (risos). E também estivemos juntos em Rainha da Sucata (1990), ela era minha vizinha, a Salomé. Uma grande amiga que, quando bati as botas, resolveu se jogar na sepultura e então todo mundo descobriu que ela me amava.

Sente-se reconhecido por estar em uma novela das nove tão bem acompanhado?

Não ligo para isso, todo horário é nobre se eu fizer um trabalho de qualidade. Já fiz o quê, uma dezena de novela das oito? Não importa. O que espero é que as pessoas se divirtam comigo porque, em última instância, são elas o patrão que nos paga.

São grandes personagens, né?

As pessoas lembram deles, mas lembram até demais (risos). Alguns do Sinhozinho Malta, de Roque Santeiro. Outros do Afonso Lambertini, de Da Cor do Pecado. O povo quer saber se continuo querendo melão, acredita? [frase repetida à exaustão por Dom Lázaro em Meu Bem, Meu Mal, de 1990]. É isso!

Por que esse carinho todo das pessoas com o senhor?

A televisão envelheceu comigo, assim como o público. Somos cúmplices. Aqui, na Globo, estou há 48 anos. Você era criança e me via por aí. E pior. Garanto que sua mãe foi jovem e me achava bonitão (risos).  Acaba sendo útil, sabia? As pessoas olham para mim e pensam: ‘lá vem desse cara fazer mais bobagem’. Gosto quando se divertem, dão risada comigo. Enfim!

Sente falta dos companheiros de toda a uma vida na telinha?

Tenho meus momentos. Um dia precisei ficar gravando o dia inteiro porque iam derrubar aquele cenário, já que não precisariam mais. Entre uma cena e outra, esperando para gravar, olhei aquelas paredes, uma televisão velha ali perdi e também me pegando olhando para minha vida. Era 18 de setembro, justamente o mesmo dia em que, em 1950, foi ao ar a primeira transmissão de televisão brasileira. E eu estava lá.

Muita gente querida já se foi?

Só sobrou eu aqui, vivo, enfrentando mais um personagem. Lembro de Hebe Camargo, Vida Alves, Walter Foster. Assisti ao início e, agora, vejo o fim da televisão. Quero dizer, ela já não é mais a mesma coisa, né? As tais das mídias sociais, junto com esses tais de Globo Play, Netflix acabaram com ela. Agora, presenciamos o começo da internet e, para isso, não contem comigo (risos). Já tenho 87 anos.

Não está nas redes sociais?

Quer saber? São a latrina do mundo. Um monte de besteira sobre mim, sobre a vida, sobre os sentimentos. Até me deram esse celular aqui, mas as fotos que meus filhos e netos me mandam bastam. É isso.

Mas ainda dá uma espiadinha na TV de casa?

Não vi A Força do Querer, que foi um sucesso. Fiz Caminho das Índias, também da Gloria Perez, e acho que já entendi mais ou menos como que é (risos). Gosto mesmo é de ver um bom filme, o noticiário e, claro, o São Paulo Futebol Clube!

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