“Leão Lobo me fez chorar”, revela Ellen Oléria, do programa LGBT Estação Plural

Publicado há 3 anos
Por Leandro Lel Lima
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Vencedora da primeira edição do The Voice, reality show da Globo, a cantora Ellen Oléria também se destaca em outras atividades artísticas como atriz no espetáculo L, O Musical, e apresentadora do programa Estação Plural, que aborda assuntos relacionados à diversidade pela TV Brasil.

Em entrevista ao Observatório da Televisão, Ellen relembra momentos marcantes do reality da Globo, fala da importância de se posicionar como mulher em uma sociedade machista e sexista, revela quais músicas mais marcaram a sua trajetória e que podem ser conferidas na peça – que celebra o amor lésbico com uma trilha sonora de canções femininas que marcaram a MPB – e, é claro, do Estação Plural, atração elogiada por público e crítica que realiza entrevistas com personalidades ligadas ao universo LGBT.

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Levada ao ar às quartas na faixa das 22h15, a atração, que em março comemora dois anos no ar, conta também com a apresentação de Fernando Oliveira, o Fefito do vespertino Mulheres da Gazeta, e da cantora Mel Gonçalvez, integrante da Banda Uó: “Somos o primeiro programa com essa perspectiva e formato”, celebra a artista que afirma ter chorado quando conheceu a história do jornalista e apresentador do Fofocalizando, do SBT, Leão Lobo: “Me fez chorar”, revela.

Confira:

O quanto é desafiador ser uma artista mulher e negra no Brasil?

É desafiador viver! Para todo mundo é. Para algumas pessoas mais, para outras menos, mas não dá para medir nossa dor, nosso desespero, nossa agonia, nossa felicidade. Somos muitas e muitos.

Ser artista é um ofício de sonhos. Talvez, por isso mesmo custe tão caro. Custa muito amor, dedicação, resiliência e suor para segurar a onda fazendo o que fazemos, muitas vezes sem reconhecimento da nossa gente (que aprendeu a supervalorizar tudo o que vem de fora e abandonar a produção da sua terra), muitas vezes lutando para construir um caminho sustentável (resistindo aos grandes maquinários que dominam os meios de reprodutibilidade e o imaginário popular). Mas, como ser artista é falar do nosso tempo, contra nosso tempo, em favor do nosso tempo, a gente permanece no ofício, entendendo a força da missão, do chamado para contarmos nossas histórias da melhor maneira possível.

Ser mulher é saber que sou parte de uma identidade poderosa que sobrevive a um país e a um mundo patriarcal e de extermínio das minhas. A gente é forte! Somos o poder!

Dizer que sou negra é dizer que faço parte de uma linhagem que sobreviveu e sobrevive a um dos maiores genocídios da humanidade. Ser preta é ser cabulosa, vida loka. Saber que pertenço a uma linhagem de rainhas e reis que se conectam com o planeta como guardiães e representações vivas das forças da natureza.

Ser artista mulher e negra é o que eu sei ser, ou o que venho aprendendo. Como ainda tenho muitas perguntas sem respostas fico desejosa de poder compartilhar esses olhares na minha produção na esperança de contribuir de algum modo com nosso lugar.

Você está totalmente ligada aos direitos humanos através da música e da TV. Como tem sido o retorno do público e crítica?

Muito positivo! Em ambas as frentes, na TV e na música.

O Estação Plural sempre me encanta por reunir gente tão diferente em torno do tema “diversidades”. Muitas cabecinhas brancas, muitas mulheres e homens trans. Muita gente jovem que se sente representada.

Aí, me lembro que, falar do que está acontecendo no mundo a partir da minha ótica, é um privilégio e uma grande responsabilidade também. Então, fico muito feliz de ouvir pessoas como a mina que conheci hoje, a Morena, dizendo que minha música e minha fala a fortalecem. Ela, que, pela primeira vez, conseguiu um trabalho com carteira assinada e se sente mais próxima da aplicabilidade do conceito de cidadania.

Fico muito feliz e acredito, nessa hora, faz sentido. Estamos interferindo diretamente num imaginário coletivo através de nossas atuações, individuais e coletivas. Aproveitar o eco que geramos nas ondas do rádio, da internet, da TV é bem importante pra essa transformação social também.

Para falar da crítica, bom… ela sempre recebeu bem meu trabalho. No mais recente disco  fui indicada ao prêmio de melhor cantora pelo álbum “Afrofuturista”, um disco que apesar de ser mais experimental também chegou muito bem até os ouvidos pensantes. O lançamento no Japão também foi sucesso de público! Então, entre música e TV, estamos num bom caminho. Sempre preparadas para aprender e fazer ainda melhor. Vamos nessa!

Como surgiu o convite para participar do Estação Plural? Como são definidas as pautas do Estação Plural? Você opina, dá sugestões?

Fui convidada para participar do Estação Plural depois que a gerente de criação da EBC, na época, Simone Melamed, me ouviu cantar e falar. Nos encontramos na EBC num dia de entrevista num dos programas da casa. Nós conversamos um pouco e ela entrou em contato depois para saber do meu interesse no projeto. Fiquei feliz demais com a aprovação do meu nome para ser uma das apresentadoras. O Estação Plural é um programa revolucionário! trazer para o primeiro plano figuras tão ausentes da comunicação com dignidade e respeito é formidável.

Sobre as pautas: todo mundo pode opinar nas pautas. Você pode! (risos)

Isso é uma das coisas muito bacanas de termos uma TV pública. A EBC tem uma equipe pronta para ouvir a gente. É só escrever pra equipe do Estação Plural. A gente levanta as sugestões, trabalha a viabilidade de receber profissionais da área para falar sobre o tema. Tudo com muito carinho e dedicação.

Qual edição te marcou mais e por quê?

Curti vários programas! Foi lindo receber a Conceição Evaristo, o Drauzio Varela, amei conhecer o Ney Matogrosso, a Djamila Ribeiro. O Leão Lobo me fez chorar. O João Silvério Trevisan, a saudosa Rogéria, a Bárbara foi de uma delicadeza desmedida conosco, a Marcia Tiburi e a Karina Buhr. O Rincón e o Rashid, jovens talentos. Adorei conhecer a Rita Cadillac e a Nicole Puzzi! Ai… Cada programa é uma surpresa! Realmente somos muitas e muitos. Inúmeros universos.

Quais lembranças você guarda do The Voice?

Muita ansiedade, muita celebração, boas amizades, o prazer de ser escolhida pelo público como vencedora da primeira edição. Um capítulo bem bonito na minha trajetória como artista.

Programas como o Estação Plural e o Amor & Sexo contribuem para a educação e o respeito entre as pessoas. Por ser uma TV pública e com um orçamento mais imitado, em comparação ao Grupo Globo, o que o Estação tem de diferencial?

Primeiro, somos o primeiro programa com essa perspectiva e formato.

Segundo, somos (em nossas diversidades contra-hegemônicas) o centro. Anfitriãs e anfitrião lésbica, trans e gay. Não o objeto de discurso e desejo, não a imagem e a voz a convite.

Como tem acompanhado as movimentações políticas que não param de nos surpreender? Em algum momento isso respinga no programa? 

Tudo respinga no programa. Se não em sua estrutura, nas ideias em voga. As movimentações políticas jamais cessarão. Nossa possibilidade é nos instrumentalizar discursivamente da melhor maneira possível e ocupar os espaços.

Por que é importante mostrar os mais diferentes estilos e ressaltar a cultura africana em um país tão diverso como o nosso?

Não sei se necessariamente a cultura africana, mas falar da cultura afro-brasileira é falar do Brasil e sua gente. Um povo tem que saber de onde veio. Quem não sabe isso não tem noção de onde pode chegar. Memória é propulsora de consciência.

O que passa na sua TV?

Adoro animes! Curto muito séries. E sou um tanto cinéfila, apesar de não ter tido muito tempo de curtir esses prazeres atualmente. Mas pode me convidar para ir pro cinema em casa que eu topo! (risos)

E o que passa na sua TV ou não passa está caminhando para a valorização da mulher, negra e lésbica?

Sempre. A começar pelo meu próprio prazer. E se o filme falhar nisso, eu estarei ainda mais preparada, elaborando argumentos e discutindo o que pode nos servir dentro daquele discurso, enredo, ficção.

Se sente incomoda com as notícias que falam mais do seu estado físico, manequim, do que o seu trabalho e a contribuição dele para a valorização da mulher e outras questões de empoderamento?

O que incomoda é o fato de saber que ainda demoramos um tanto para desmantelar esse maquinário sexista limitado que nos transforma em carne, para o consumo de quem quer que seja. Insinuando, inclusive, que a máquina é gerida por nós mesmas.

Continuo escrevendo, cantando e estudando para que eu possa falar sobre meu corpo, sem que isso seja mais relevante que tudo que sou.  Inclusive, para poder ser essa que se revela em meu corpo.

Você está em cartaz ao lado da cantora, escritora e atriz Elisa Lucinda. Como surgiu o convite para a peça, L – O Musical? Como foram os ensaios? Quais músicas mais te emocionam durante a peça e a vida, que faça parte do repertório? 

O convite veio num momento especial. Acredito que me sentir realizada no trabalho atraiu esse desafio de voltar ao palco como atriz.

Sérgio Maggio, nosso diretor, pensou em mim e me abriu a possibilidade de dividir o palco com atrizes incríveis! Em um ambiente acolhedor que elas todas são responsáveis por estabelecer, pude voltar depois de mais de uma década sem atuar.

Ficamos dois meses estudando o texto, concebendo as personagens, ensaiando. Estivemos em cartaz em Brasília e no Rio de Janeiro, dois meses em cada cidade. Agora em 2018 ficamos até final de fevereiro. Depois vamos pra Belo Horizonte. Curto muito várias canções do espetáculo. Mas de fato, metade, da Adriana Calcanhotto interpretada por Gabriela Correa é muito bonita e me lembra muitos momentos da minha vida.

Curto demais cantar retratos e canções, sucesso na voz da Sandra (de Sá). Adoro cantá-la com Elisa e Renata Celidonio. Curto muito o dueto com Luiza Guimarães, “Eu só quero te namorar”, de Leci Brandão. E gosto muito de entrar no palco com Tainá (Baldez) para cantar “Pés no Chão” sucesso de Rita Lee que ficou lindo na voz de Marcia Castro. Adoro quando cantamos “Sim eu sou um deles e gosto muito, muito de sê-lo. porque faço coleção de lacinhos cor-de-rosa e também do sapatão”. Adoro! (risos).

Novos projetos? 

Este ano começamos muito bem com o projeto autoral. Devo compartilhar algo logo depois do Carnaval. Mas é claro! Como resultado das pesquisas do ano passado, esse ano temos muito passeio pelo jazz.

Inclusive! Apresento, ao lado da nova-iorquina Alma Thomas e da grande Leny Andrade o show “Influência do Jazz” agora em março no Sesc Pompéia, em São Paulo, dias 08 e 09 de março. O show passeia pela história do encontro entre o jazz e a música brasileira. vai ser bem bonito! Salomão Soares, o pianista que nos representou na edição mais recente do famoso Festival de Montreux, vai assinar a direção musical desse espetáculo.

Falando em espetáculo, o teatro depois que voltou pra minha vida, espero não deixá-lo escapar mais. (risos). Estamos escrevendo, o jovem brasiliense, o dramaturgo Jonathan Andrade, uma trama. Estamos curtindo nosso encontro.

O Estação Plural segue na terceira temporada com convidadas e convidados super especiais também. Então temos muito trabalho pela frente!

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