Lara Tremouroux define importância de viver personagem com lúpus na TV: “Diluir o desconhecimento”

Publicado há 3 anos
Por João Paulo Reis
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Em Onde Nascem Os Fortes, supersérie que estreia na Globo em abril,  Lara Tremouroux viverá Aurora, uma jovem superprotegida pelos pais, Pedro Gouveia (Alexandre Nero) e  Rosinete (Debora Bloch). Portadora de lúpus, doença incurável e autoimune, é a princesinha da família, embora deseje apenas ser tratada como uma garota normal de sua idade. A atriz que já atuou anteriormente ao lado de Alexandre Nero na série cômica Filhos da Pátria conversou com nossa reportagem e falou sobre a nova experiência, e sua preparação para viver uma personagem tão complexa:

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Em Onde Nascem os Fortes você vai interpretar novamente a filha do Alexandre Nero, assim como em Filhos da Pátria. Como é essa parceria?

É muito legal para mim poder gravar de novo com ele. Tanto em Filhos da Pátria, como em Onde Nascem Os Fortes, o personagem do Nero tem dificuldade em se relacionar com a esposa, mas é com a filha em que ele mostra mais afeto. Está sendo muito bom, gosto muito do Nero e é sempre divertido trabalhar com ele.

Como você se preparou para esta personagem que tem uma doença complicada?

O Villamarin (diretor) me chamou para este trabalho há um tempo, o que me possibilitou ler muito e ver filmes para construir a personagem. Sobre a doença, é uma doença que muito mais gente tem do que imaginamos, como Lady Gaga, Selena Gomez, e pessoas que fui descobrindo depois que tinham Lúpus. Fui em hospitais conversar com meninas que tinham a doença, ouvi relatos delas, e foi superforte, porque como existe muita desinformação sobre, as pessoas acham que é algo contagioso, e isso gera preconceito. Teve uma menina que me contou que ouviu pessoas dizerem: “Não senta do lado dela no ônibus”. Acho ótimo que possamos falar sobre o lúpus na TV para diluir esse desconhecimento sobre a doença.

Como é a caracterização para a personagem?

Maravilhosa porque não faço quase nada (risos). Não faço maquiagem, que eu amo, é tudo bem ao natural, não coloco nem rímel. A gente só faz as manchas dos lúpus, e como é uma doença que vai e volta, às vezes a personagem aparece com as manchas na pele. A maquiadora faz e fica maravilhoso, muito real.

E fora a doença, como é a história da personagem? Porque sabemos que ela vai ter um envolvimento amoroso também.

Graças a Deus. Eu acho que é legal porque uma das coisas que marcou muito quando conversei com as meninas que têm lúpus, é que elas disseram que as pessoas que estão em torno delas acabam tratando-as como se elas fossem de vidro. E a minha personagem também é assim, mas é bom vê-la experimentando outras coisas, porque quando ela está bem, ela pode viver uma vida normal.

Ela tem essa coisa de ser superprotegida pela família e vai se envolver com o Plínio, personagem do Enrique Diaz. Esse amor acontece porque ele a tira dessa redoma?

Eu acho que tem um lado que para ela, além da pessoa dele, é o que ele representa para ela. A leva para passear, a trata de igual para igual, o que é muito valioso e a encanta. Ela não quer ninguém sentindo pena. Às vezes quando estou caracterizada, vou para a praça de alimentação, eu bem vejo as pessoas olhando para mim com cara de pena. As meninas com quem conversei também reclamaram disso, afinal é muito chato alguém ficar te diminuindo assim.

Você também já teve na vida real esse período de ser superprotegida pelos pais?

Hoje em dia não mais, mas minha mãe é bem mãezona. Teve uma época que eu saía para festas, voltava tarde, ela ficava super preocupada. Acho que conseguimos no diálogo acertar isso, graças a Deus.

Então você já passou por isso de se sentir como a personagem…

Exatamente, e é o que digo. Ela é uma menina boa, doce mas ali dentro tem uma revolta guardada porque ninguém aguenta o tempo inteiro todo mundo em torno.

Quando visitamos hospitais do câncer por exemplo, nos orientam a não sentir pena dos pacientes. Você se pegou em algum momento com pena das meninas com as quais conversou?

Eu acho que isso é muito delicado porque por mais que eu concorde e entenda que não temos que sentir pena, às vezes batia alguma coisa, não sei se pena porque eu via muita força e muita potência nelas. Mas dói você ouvir a pessoa contando que estava bem durante um tempão, foi na praia, pegou um pouquinho de sol, e toda a doença voltou. Não é pena, mas uma empatia.

Esse seu cabelo ruivo cacheado nos lembra muito a Merida da Disney. Você precisou fazer algo para cuidar dele durante as gravações?

Meu cabelo é castanho claro. Quando eu era mais nova, tinha o sonho de ser ruiva, aí pintei, e para Filhos da Pátria, precisei pintar de preto. Como é uma menina que mora no Sertão, não preciso fazer nada, nem ter nenhum cuidado especial. Inclusive não posso nem hidratar, porque pelo aspecto do local da trama, é até bom o cabelo aparecer mais ressecado. Uso shampoo normal, e dou uma pintadinha na raiz para retocar.

Ela tem todo um lance com a sanfona não é mesmo? Você toca?

Tem. Eu não tocava e é um instrumento muito difícil e muito complexo. Meu pai trabalhou na série Amores Roubados, também dirigida pelo José Luiz Villamarin, e ele interpretava um sanfoneiro. Quando a sanfona chegou para mim, era a mesma que ele tinha usado, tinha até o nome do personagem dele. Fiz algumas aulas com um sanfoneiro incrível, mas é uma loucura, um grande exercício de coordenação motora. Às vezes você está fazendo uma coisa de um lado, e para juntar com o outro lado é muito complicado. Sempre achei um instrumento lindo, e foi uma boa desculpa para aprender um pouco.

Sua personagem acaba vivendo à frente do tempo dela. Você também vive à frente do seu tempo. Quando teve oportunidade você assumiu sua homossexualidade numa boa, e como é a sua troca com o público?

Eu sinto uma troca boa, o preconceito existe claro, mas ao mesmo tempo sempre pensei que se a gente ganha essa visibilidade enquanto artista, precisamos usar, e falar sobre coisas que a gente acredita. Eu ando de mãos dadas com minha namorada e não vou ficar me escondendo, até porque algum dia vão ver também (risos). É uma coisa natural, e é importante para mim colocar isso, porque faz parte da minha vida e não vale a pena ficar escondendo.

Alguém já foi nas suas Directs falar que conseguiu se assumir por sua causa?

Isso ainda não. Fico muito feliz quando dizem para mim que estou fazendo o certo, mas ao mesmo tempo, muita gente já veio dizer “Ah, você não deveria postar esse tipo de coisa, porque senão ninguém vai te chamar para fazer papel romântico”. Ah gente, se deixarem de me chamar por causa disso, eu é que não quero trabalhar com essa pessoa. Representatividade é uma coisa muito bacana, você ver alguém e falar “Caramba, aquela pessoa ali também sente o que eu sinto, também é o que sou”. Se reconhecer é muito importante em várias esferas. Por exemplo, é importante ter mais negros na televisão para as pessoas se sentirem reconhecidas ali. É muito gostoso poder sentir que fiz alguma diferença.

Você se sente feminista?

Sim. Sem a menor sombra de dúvida, e deveríamos todas ser. Acho que às vezes o machismo está muito enraizado, e sem querer generalizar, em alguns lugares do interior isso é muito forte, como no Sertão em que se passa a supersérie. E na história, existem muitas mulheres guerreiras, e acho importante mostrar essa potência. Eu sou super feminista, sem medo de dizer, com muito orgulho.

Você passou de uma comédia, que era Filhos da Pátria, para um drama. Como tem sido?

É muito gostoso. Amo muito o que eu faço e isso para mim é como brincar de Pique Pega. Eu nunca imaginava fazer comédia, isso foi o que me surpreendeu mais. Sou supersensível, chorona, então fazer o drama pra mim tem sido mais confortável, e tem sido gostoso explorar esse outro lado, de poder se colocar.

Quando você falou para o seu pai que você iria usar em cena a mesma sanfona que ele usou em Amores Roubados, ele ficou emocionado?

Super. Meu pai é muito parceiro. Ele é meu melhor amigo. Me lembro que quando ele fez Amores Roubados, eu pensei: “Nossa, esse para mim seria o trabalho dos sonhos”. Admiro o Villamarim há muito tempo. Gravar com ele, fazer parte dessa equipe e viajar junto foi muito importante. Eu amei Cabaceiras, na Paraíba, onde aconteceram as primeiras gravações. Adoro esse tipo de lugar que não tem nada para fazer, acho lindo, e para mim foi incrível. Estamos muito conectados mesmo.

O que você gosta de fazer nas suas horas vagas?

Tenho dois lados. Amo ficar em casa vendo Netflix com a namorada, essa coisa super caseira, mas também amo sair, sou eclética, gosto de axé, funk, gosto de beber…

Você e sua mãe são atrizes, e seu pai é ator. Como é morar numa casa só de artistas?

Delicioso. Desde que nasci já queria ser atriz, mesmo com muita gente dizendo: “Você vai mudar de ideia”. E não mudei porque cresci nos palcos e nos camarins, e a convivência em casa é muito bacana porque eles me ajudam, passamos até os textos juntos.

Você está nos dando essa entrevista. Você procura a matéria para ver se já saiu, ou geralmente as pessoas te avisam?

Depende. Muitas vezes é assim. As pessoas me avisam que determinada matéria saiu.

Como foi para você quando a primeira matéria sobre você saiu?

Muito bom porque a primeira matéria foi justamente uma que falei sobre estar com minha namorada. Eu dizia para mim mesma que quando chegasse o momento de usar a minha voz, eu iria usar. Pensava: “Lara, não fica tímida, não trava”, e para mim foi muito gratificante porque não saiu com nada distorcido. Foi perfeito.

Quando as gravações da supersérie terminarem você pretende continuar com esse cabelo ruivo?

Eu sou apegada, gosto desse cabelo ruivo, mas enquanto atriz a gente está sempre camaleão. Se precisar mudar, mudamos de novo.

* Entrevista feita pelo jornalista André Romano

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