Jesuíta Barbosa fala sobre seu papel em Onde Nascem os Fortes: “Queria fazer um personagem com essa ‘travestilidade'”

Publicado há 3 anos
Por Bárbara Saryne
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Com uma sequência importante de grandes trabalhos, Jesuíta Barbosa terá pela frente mais um desafio na carreira. Ele será Ramirinho em Onde Nascem os Fortes, minissérie que a Globo estreia nesta segunda-feira (23), logo após O Outro Lado do Paraíso. Na trama, ele interpreta um personagem que será polêmico porque terá uma faceta oculta da família.

Em entrevista ao Observatório da Televisão, Barbosa contou que Ramirinho será uma drag queen com uma construção muito além da questão sexual ou corporal. Ela trabalha na noite e se chama Shakira. Como parte do processo de criação, o ator contou que conversou com as Travestidas de Fortaleza, por exemplo. Confira a entrevista completa, na sequência.

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Veja também: Bella Piero fala da repercussão de sua personagem em O Outro Lado do Paraíso

Como é o Ramirinho?

“O Ramirinho é um rapaz sertanejo multifacetado, que tem uma vida escondida da família e que procura se libertar de muitas barreiras impostas pelo pai. Ele quer se livrar de rótulos e quer fazer com que seu entorno também se liberte.”

Você teve um encontro com as travestidas de Fortaleza. Elas contribuíram para a construção desse personagem?

“Completamente. Eu já queria fazer um personagem com essa ‘travestilidade’, que eu pudesse me montar, e aí apareceu essa oportunidade. Eu acho, na verdade, que o José (Villamarim) me ouviu falando isso e acabou colocando isso dentro da história porque não ia existir.”

A personagem foi feita para você especificamente?

“Eu não queria dizer isso, mas sim. Estou fazendo um trabalho interessante, estou bem feliz. A Shakira é uma pessoa do interior, que já se parece comigo. Ela enfrenta problemas da família que a gente também enfrenta e tem muitas semelhanças comigo. Eu sinto propriedade de poder fazer essa personagem.”

O que você espera que ela traga?

“Eu espero que ela traga muita beleza e força juvenil de transformação, o que tem sido muito discutido com a questão de gênero. Eu não queria, de jeito nenhum, trabalhar a Shakira só em função da questão sexual. A minha vontade, junto com o Zé, era de fazer uma drag, mas não deixar a questão sexual à tona, e eu acho que a gente está conseguindo fazer isso porque ela é uma artista performática, que se apresenta no período da noite e tem números de música. A função artística de Shakira vai muito além de qualquer outra questão sexual de corpo e de família.”

Você participou da construção do figurino?

“Sim, a ideia era fazer um cover da Shakira realmente. Conversando, entendemos que poderíamos fazer algo mais artesanal, aí chegamos nesse universo da travesti dentro do sertão e dessa juventude que tem acesso às tecnologias. A gente foi para um lugar muito mais plural e livre do que seria imitar uma figura já existente. Também trouxemos o canto porque antes eu ia dublar e agora acrescentamos esse desafio, que foi ótimo.”

Para você, o que significa poder viver isso nos dias de hoje?

“Significa uma responsabilidade que a gente tem que ter enquanto formadores de opinião e artistas, a importância de não rotular. O tempo todo a gente tem que transformar isso e colocar um prefixo de ‘não’ ou de ‘diferença’ para desconstruir mesmo porque a gente tem essa ideia de gênero de quando a criança nasce, que é um menino ou uma menina, e não é isso. O gênero vai se construir com o tempo, precisa de liberdade. A questão aqui é falar de uma artista que quer ganhar essa liberdade e vai muito além do sexo.”

Você acha que em ‘A Força do Querer’ (2017), a forma como esse assunto foi tratado com a Carol Duarte e o Silvero Pereira contribuiu e pavimentou o caminho para a Shakira do sertão?

“Eu acho que existem muitas figuras aparecendo por aí. A música também está muito bem representada com Liniker, Pabllo Vittar… Acho que todas as figuras que vierem e conseguirem fazer um estudo de mesa, entendendo direitinho como é que tem que fazer aquilo, é bom, pois é perigoso, tem que tomar muito cuidado para não cair no lugar da repetição.”

Para não cair nesse lugar da repetição, que fonte você bebeu?

“É bem complexo, mas ao mesmo tempo é um lugar muito livre de rótulos. Eu fiquei muito interessado em ler sobre isso, procurei textos e foi muito importante para mim. Encontrei informações novas porque a gente precisa estudar o tempo todo, conversei com muitas drags e já fiz muito isso na minha vida (risos). Já saí montada na 13 de maio, já fui para Fortaleza, tenho essa experiência de rua. Também tenho grande admiração pelo Silvero (Pereira), que começou com as Travestidas, e a gente foi se juntando, se ajudando.”

Como vai ser a relação do personagem com o pai?

“Ele tem um pai que é o juiz do sertão, um cara violento. É uma relação difícil, mas é a relação que existe para ele. Eu acho que tem uma hora que aparece a curva do personagem. Isso acontece quando ele diz “não” e vai ocupar outro espaço, outro corpo, e esse patriarcado imposto começa a ruir. O que acontece na figura de Ramirinho não é só para Shakira, mas para quem está perto, para o pai principalmente. Ele é obrigado a entender que as coisas nem sempre são como a gente quer, que a gente é natureza e a natureza se transforma.”

Dentro de casa, esse homem severo vai encontrar o seu principal desafio?

“Aí parte da perspectiva de cada pessoa que vai assistir. Eu acho importante esse diálogo na televisão. A TV tem um lugar educativo e a gente luta para ganhar um espaço esclarecedor, que facilite a nossa vida.”

Como é trabalhar mais uma vez com o José Luiz Villamarim?

“É ótimo. Eu conheci o Zé em ‘Amores Roubados’ (2014), com Cauã Reymond e Isis Valverde, e foi ótimo, muito bom. Eu gosto do sertão, sou daqui e é bom trazer pessoas daqui do nordeste. É necessária essa representação, essa mistura. O que mais me interessa é essa desconstrução de sertão também. Aqui a gente tem uma ideia formatada do que é o sertão e o sertanejo, que é uma figura difícil de lidar. E o sertão é esse lugar que parece ser impossível de acessar e é um lugar que tem turismo, que as pessoas visitam. O sertão é um lugar que pode ser habitado, investido.”

Como tem sido a experiência com o elenco?

“A experiência é enlouquecedora e o Zé sabe disso. Aqui, geralmente não chove, e está chovendo (risos). As gravações até atrasaram, mas isso faz parte. É melhor do que ficar em casa, gravando no estúdio.”

A Shakira seria diferente se vivesse na capital?

“Eu acho que o Brasil inteiro tem um déficit nesse lugar de aceitação e respeito, mas São Paulo tem um lugar de aceitação e abertura, onde as pessoas se vestem do jeito que querem. E o sertão ainda segura esse patriarcado. É importante mostrar para eles que isso existe e é bom.”

* Entrevista feita pelo jornalista André Romano

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