Jéssica Ellen fala sobre sua personagem em Filhos da Pátria: “Ela é a parte íntegra”

Publicado há 3 anos
Por João Paulo Reis
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Depois de brilhar como Rose em Justiça, Jéssica Ellen dará vida a Lucélia na série Filhos da Pátria, que estreia em Setembro na Globo. A atriz que interpreta uma escrava que tenta juntar dinheiro para comprar sua liberdade, conversou com o Observatório da Televisão sobre a série:

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A sua personagem parece ser a única completamente honesta…

Ela dá certo. Ela é a parte íntegra da coisa. É importante que ela seja assim porque existem mitos que os escravos eram preguiçosos quando na verdade eles viviam em condições desumanas, sem água, sem comida, sem uma vida digna e ainda assim deviam pagar por algo que deveria ser direito, que é a liberdade.

Como você se inspirou?

As pessoas têm me perguntado sobre isso porque a Lucélia, mesmo escravizada tem um corpo, uma disponibilidade física, se impõe de uma forma presencial. A presença dela já tem um impacto. Eu, antes de ser atriz, já era bailarina, então em toda composição de personagem o corpo me ajuda muito por ser o meu instrumento, diferente do músico que toca algo, meu corpo, meu cabelo, e minha voz compõem a personagem. Bebi muito da fonte de candomblé que é a minha religião e me ajudou a colocar coisas particulares, por exemplo tem uma cena que ela faz cocadas para começar a vender. No processo do cozimento usei uma cantiga em iorubá que remete a “Vamos todos jantar”, um convite à ceia. Usei de forma intuitiva dentro do set.

Me chamou atenção em sua personagem ela ser explorada a vida inteira, ou seja, é alguém que tem motivos para se revoltar, e é a única a agir com integridade. Como você vê isso?

Eu não acho que seja tão maniqueísta, que por ela ser escrava deveria se corromper. Eu acho que a série questiona isso. O Geraldo (Alexandre Nero) por exemplo é um personagem que quando escolhe se corromper, ele sofre com isso. A série tenta tirar a culpa do outro, somos corruptos, e devemos tentar identificar de que forma a gente se corrompe no dia a dia. Coisas que são pequenas, mas que são corrupções. Todos os negros que foram trazidos para o Brasil, praticamente não têm história, eu mesma não sei qual a minha descendência, se eu vim da Nigéria, Angola ou Sul da África. Tenho amigas que sabem que vieram de Portugal ou Itália, mas não tenho isso, porque nós negros não tivemos isso. Eu me vi sem grandes dados para construir essa personagem, inclusive metade das coisas que aprendi para fazer a série, aprendi aqui, e não na escola, porque minha aula de história foi muito simples, superficial, e até hoje vejo reflexos da escravidão na minha vida.

Que tipo de reflexo?

Não sei qual minha ancestralidade, ou como era esse Brasil. A gente não sabe a história do nosso país. Eu sinto que como se eu tivesse me descolonizando agora. O nome que eu carrego Jéssica Ellen Dias da Costa, é um nome que foi de um possível Senhorzinho dono da minha família e não um nome em iorubá, ou em Banto. Minhas amigas têm o nome francês das famílias delas, e eu não tenho. É muito bom poder debater isso na televisão aberta que é o que comunica a grande massa, que às vezes nem tem consciência disso.

Sua personagem fica juntando dinheiro para comprar a alforria. Você tem a sensação que até hoje você precisa comprar essa alforria?

Claro, se não fosse assim eu não teria percebido que eu deveria ter tido educação de qualidade assim como meus amigos tiveram. Eu vejo que não tive acesso a informações, coisas básicas. Eu e Lara (Tremoroux) por exemplo, às vezes estamos conversando e ela diz “Isso eu aprendi na escola” e me mostra uma matéria  que eu nem ouvi falar. Eu sou da favela da Rocinha, estudei em colégio público a vida inteira. É uma outra realidade que quando chega, choca. Até hoje a gente ainda tem dificuldade de identificar racistas e corruptos na história do Brasil E a gente só consegue resolver um problema quando identifica ele. Sim, somos racistas. O que podemos fazer para desconstruir?

Você acha que estamos conseguindo?

Não sei. Eu consigo identificar resquícios de racismo em mim, que uma amiga que tem privilégios brancos também vai identificar. Essa desconstrução que temos que fazer, não vai ser de hoje para amanhã. Falar sobre isso de forma aberta já é muito legal. E não tem receita de bolo. Através do candomblé sinto que tenho recuperado minha ancestralidade, e como é uma busca muito pessoal, a minha está sendo através da religião e do trabalho.

*Entrevista realizada pela jornalista Núcia Ferreira

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