Igor Angelkorte fala da reação do público em relação ao seu trabalho em O Outro Lado do Paraíso: “Tá sendo lindo”

Publicado há 3 anos
Por André Romano
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Igor Angelkorte é um jovem ator que vem conquistando a cada trabalho um espaço ao sol. Com talento e determinação, o artista mostra que é um ator vocacionado. Nasceu para mostrar a sua arte para o mundo. Suas cenas ao lado de Bella Piero (Laura) em O Outro Lado do Paraíso, nas quais seu personagem (Rafael) descobriu que sua esposa era abusada sexualmente por seu padrasto (Vinícius), foi de uma entrega sem igual. Fora a sua participação no tribunal, no qual Vinícius (Flavio Tolezani) foi desmascarado pela vingativa Clara (Bianca Bin). Igor mostrou ali todo o seu potencial em cena. Foi lindo de se ver.

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Em uma conversa com nossa reportagem, o artista falou de sua parceira com Bella Piero, e relatou que as pessoas querem um Rafael para chamar de seu. “As pessoas de um modo geral escrevem querendo um Rafael na vida delas”, entrega.

Confira o papo com esse artista visceral:

Estamos vivendo em um mundo tão cruel. E o seu personagem é exemplo de que existem pessoas do bem entre nós. Como é para você interpretar um cara desse tipo?

“Acho primeiro que a gente tem que se questionar se existem pessoas do bem e pessoas do mal. Penso que essa dualidade existe em todos nós. E o caminho para ser coerente e bom é complexo e cheio de tropeços. O Rafael nesse sentido é um personagem. Ele é a representação do homem identificado com as questões feministas, que apoia a mulher de forma nova, quebrando velhos paradigmas do que é ser homem. Mas, nós homens ainda temos que correr muito atrás do Rafael. Interpretá-lo, é então um exercício de aprendizado.”

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Como foi a construção do Rafael?

“Trabalhei desde o início consciente que o protagonismo, por conta do tema, da trama (e dos nossos tempos) é da mulher. E que naturalmente isso deveria se traduzir na minha postura e parceria com a Bella Piero no trabalho. Assim, para estar sensível e atento às questões urgentes das mulheres, convidei uma amiga, atriz e artista que admiro muito, Raíssa Venâncio, para estudar as cenas comigo. Desde então, nossa preparação tem ido além de pensar as intenções do texto. Pra começar os estudos, por exemplo, nós gostamos de ler alguns autores: um conto da Clarice Lispector, uma poesia da Rupi Kapur, ou então um poeta forte, delicado e desconstruído como Manuel de Barros, entre outras e outros. Só depois nos consideramos abertos para pensar nos textos da novela.”

Como está sendo o retorno nas ruas?

“Tá sendo lindo. Me sinto participando de algo que faz sentido de dizer. Como contribuindo para o pensamento coletivo num momento que precisamos repensar uma porção de coisas. Outro dia uma moça me contou que estava vendo a cena em que eles conseguem transar, e que cutucou o marido e disse: ‘isso aí que é amor, aprende’. As pessoas têm me falado muito sobre como é inspirador ver a parceria do Rafael com a Laura, com toda a história do abuso que ela sofreu. Nesse contexto, falar de amor de maneira tão delicada me parece revolucionário.”

Você imaginava que o casal Rafael e Laura fosse fazer esse sucesso tremendo?

“Não mesmo. E é difícil pensar que faço parte desse ‘sucesso tremendo’ como colocado na pergunta. Procuro não acreditar muito nisso, olhar desconfiado. A ideia de sucesso e fracasso andam de mãos dadas e uma hora estamos aqui e outro lá, e por isso, procuro fazer meu trabalho sem levar isso tudo à sério. Assim, quando começo um trabalho, procuro pensar em outras coisas.”

Você foi muito elogiado pela entrega nas cenas do tribunal. Como foi para você participar de uma cena que parou o Brasil?

“Gravamos as cenas durante dois dias seguidos, e muitas atrizes e atores tiveram momentos extremamente desafiadores nessa sequência. Estar ali assistindo tão de perto o trabalho de entrega dos colegas já era por si só muito emocionante, e tinha o acréscimo da importância do tema, que nos pedia imensa responsabilidade e disponibilidade artística. Procurei ficar muito concentrado nesses dias, mal conversava nos intervalos, busquei apenas falar sobre o que tínhamos a fazer. Fico feliz com o resultado que conseguimos.”

O Walcyr Carrasco foi bem corajoso em retratar um assunto tão polêmico. Ele jogou luz em algo que destrói milhares de famílias. Como está sendo a troca com a Bella Piero?

“O Walcyr acertou em cheio ao destampar essa caixa lacrada da violência contra a mulher e o abuso sexual infantil em nosso país. Claro, esses temas são discutidos há décadas por muita gente séria, mas assim, através de uma novela, que milhões de famílias brasileiras assistem ao mesmo tempo, foi muito poderoso e novo. Retratar como essa violência interfere profundamente na formação afetiva, sexual e social de uma mulher foi fundamental. Precisamos falar sobre isso cada vez mais. Nesse sentido, eu e Bella conversávamos muito também, e eu aprendo muito com ela, é lindo ver como se apropriou e foi porta-voz desse tema.”

As pessoas escrevem para você para falar que já teve um Rafael na vida delas?

“As pessoas de um modo geral escrevem querendo um Rafael na vida delas (risos). Mas, também já recebi mensagens bonitas sobre mulheres que foram abusadas e que na vida adulta encontraram parceiros homens muito amorosos e que contribuíram em seus processos de recuperação.”

Como surgiu a arte em sua vida? Qual a sua formação?

“Eu não tive ninguém na família ou próximo que fosse artista, e talvez por isso não cresci considerando seguir esse caminho. Ele me veio como um atravessamento. Estava no começo do curso de direito e me sentindo vazio de propósito. Tinha 18 anos, e na época procurei um curso livre de teatro, onde comecei a me aproximar das artes. Minha mãe foi muito importante também, pois apoiou minha decisão e pode investir nessa primeira formação. Isso foi um privilégio, sem esse apoio eu com certeza teria muitas dificuldades. Me formei pelo curso profissionalizante da CAL, no Rio. Foram mais de três anos de muito estudo e descoberta. Por isso, sei que a gente tem que ter políticas públicas de apoio ao estudo das artes. Muitas escolas de arte do estado estão sucateadas e isso é tirar o acesso de muita gente que não vai poder pagar uma escola privada.”

Como está sendo contracenar com grandes nomes da nossa dramaturgia?

“Outro dia gravei uma cena que o Rafael era convidado do casamento da Mercedes e do Josafá, personagens da Fernanda Montenegro e Lima Duarte, e com a Laura Cardoso abençoando os noivos. Eu não tinha muita fala e pude ficar ali de espectador deles. O tempo inteiro pensava como era especial e uma oportunidade vê-los tão de perto atuando. É bonito ver que eles tratam nós jovens de maneira horizontal, são artesãos do ofício, interessados na troca, é lindo vê-los continuamente aprendendo e se desafiando. A Fernanda, por exemplo, participou das semanas de preparação da novela, aulas de corpo, voz e interpretação. Nada mais curioso, maravilhoso e estranho que ser ‘colega de classe’ de uma atriz com a história da Fernanda. Tento aproveitar esses momentos bastante consciente do tamanho da oportunidade de troca.”

O que tira você do sério? Qual o Brasil que você deseja para as novas gerações?

“Me entristece a polarização que estamos vivendo. No Brasil crescemos ouvindo que política não se discute. Isso é uma besteira. Cada vez mais precisamos falar de política, mas nós não sabemos fazer isso sem brigar. Não temos o treino necessário para nos ouvir e respeitar as opiniões divergentes. Desejo que as próximas gerações consigam encontrar um espaço de diálogo crítico e respeitoso.”

Como está o Brasil de Igor Angelkorte (visto por você)?

“Essa é uma pergunta bastante complexa. Particularmente estou muito alarmado, por isso, converso, penso e leio sobre política todos os dias. Penso que a saída para o buraco em que nos metemos seja a longo prazo, passando sobretudo por investimento em educação e condições sociais básicas. Mas, parecemos pouco dispostos a pensar sobre isso. Acabei de participar da direção e escrita do filme ‘Fernando’, sobre a vida de um professor. Tento fazer minha parte, tanto no meu trabalho quanto indo às ruas me manifestar. Sei o quanto é grave o crescimento da força militar nesse cenário, o quanto é grave a perseguição às lideranças de esquerda, como na execução da Marielle Franco, e penso que independente do que acreditamos politicamente precisamos defender urgentemente os direitos humanos e a nossa frágil democracia.”

O que podemos esperar dos próximos capítulos envolvendo o seu personagem?

“Sem dúvida, o principal da nossa história, o ponto ápice dos conflitos, se deu com as cenas do julgamento, e ainda depois com as cenas de amor do Rafael e da Laura no Jalapão. Agora, estou como os espectadores, esperando as próximas surpresas do Walcyr para a nossa trama.”

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