Gabrielle Joie revela que personagem trans de Bom Sucesso não será sofrida: “Vamos abordar a vida dela como menina”

Publicado há um ano
Por Greicehelen Santana
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Substituindo a irreverente Verão 90, Bom Sucesso ocupará o posto de novela das sete da Globo no próximo dia 29 de julho. Escrita por Rosane Svartman e Paulo Halm, a trama marcará a estreia de Gabrielle Joie na teledramaturgia.

Com 21 anos, a atriz interpretará Michelly, uma adolescente de 15 anos extremamente divertida que compartilha uma questão em comum com ela: a transexualidade. A personagem terá sua história construída em torno do descobrimento da sexualidade e da transição.

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Em conversa com o Observatório da Televisão, Gabrielle contou que, apesar do tema, a jovem não será retratada de maneira sofrida. “A história da Michelly é interessante porque não vamos falar sobre a dor da transexualidade e os sofrimentos“, afirmou.

A atriz também comentou sobre o preconceito familiar, durante o seu processo pessoal de transição, e assuntos como: mudança de nome, paquera, estilo e sociedade. Confira a seguir:

A personagem

Quem é Michelly na novela Bom
Sucesso?

Ela é uma adolescente de 15
anos, que está no Ensino Médio, muito solar, danada até demais e ainda está
nesta fase do descobrimento da sexualidade e da transição. É muito galanteadora.
Por enquanto, o assunto não é sobre a jornada da transição dela, mas a vida e a
personalidade dela. É uma garota muito agitada, animada, que está sempre com os
amigos. Mas ela não é muito fofa. Já li uma parte em que a Michelly confronta a
Gabriela (Giovanna Coimbra), assim que a amiga diz o nome de batismo
dela
.”

A trama vai retratar situações
desconfortáveis por conta do nome social da personagem? Como você disse, a
Gabriela comete esse erro.

Aí é um jogo de intimidade.
Ela é sobrinha da Paloma (Grazi Massafera) e melhor amiga da Gabriela,
estão sempre juntas e a linguagem do subúrbio é sem ressentimentos. É uma
piadinha… Não é algo que a Michelly guarde ressentimentos. Elas são íntimas.
Minha personagem sofre com transtornos dentro e fora da escola dela com relação
à transexualidade, mas acho que o foco não será este
.”

Semelhança com a personagem

O que você tem de parecido com
a Michelly?

É uma menina alegre,
estabanada como eu e nossa trajetória foi diferente: ela nasceu no Rio de
Janeiro e eu em Brasília. Aqui no Rio ainda é um assunto novo e as pessoas
ainda estão deglutindo sobre transexualidade. É o país que mais mata travestis.
Para chegar em um lugar para contar nossa história tem de ser muito íntegro
.”

Brasília é mais mente aberta?

Não é mente aberta, mas as pessoas não julgam. Também não digo que o carioca seja o contrário, mas o ambiente é diferente. O preconceito existe em qualquer lugar. Estar em uma novela é um prazer para mostrar que a gente existe. Estamos falando com a família, que assiste novela, quando todo mundo senta para relaxar. Além de ver que a gente existe, ocupamos o espaço e estamos trabalhando. As pessoas precisam ver que somos pessoas normais.”

Atriz Gabrielle Joie vive uma adolescente trans em Bom Sucesso (Foto: João Cotta/Globo)

Preconceito familiar

Como você enfrentou o
preconceito dentro de casa?

No início meus pais não
entenderam. Por isso eu digo que a gente é muito perseverante porque quando
queremos, vamos lá e fazemos a transição. Se hormoniza, perde família, amigos e
quer fazer isso porque quer mostrar quem sente por dentro. Depois que eu conquistei
minha independência e um lugar sozinha, foi mais fácil este processo de
aceitação da minha família. De todo modo, foi muito tempo sem falar com eles,
ouvindo coisas desagradáveis e deixei eles enxergarem sozinhos
.”

Você passou pela cirurgia de
redesignação sexual?

Não e nem quero fazer isso.
Eu sinto que é parte do meu corpo, não me faz menos mulher e não vejo como algo
masculino. É o meu corpo. Eu me sinto uma mulher! Eu sou uma mulher transexual.
Até o silicone, eu reluto para colocar e prefiro deixar como está
.”

Quando você se deu conta de
que era uma mulher transexual? Qual foi a sua reação?

Desde pequena que eu sabia sobre a transexualidade. Sabia que seguiria esta trajetória e ergui a cabeça sabendo o que queria. Sabia que levaria porradas na cara e todos os obstáculos que enfrentaria, que são três vezes maiores do que as pessoas cisgênero. Não digo nem que seja pior, mas é uma trajetória com outros obstáculos. Eu sabia que isso ia acontecer, e passei perrengues inclusive na minha profissão. Sempre discuto com minhas amigas que temos de ter muita perseverança em nossa carreira. A Glamour Garcia e eu podemos contar nossa história. É muito gratificante e sinto um prazer enorme de contar para pessoas que não conhecem o assunto o que ele significa. A história da Michelly é interessante porque não vamos falar sobre a dor da transexualidade e os sofrimentos, mas vamos abordar a vida dela como menina.” 

Atriz Gabrielle Joie (Foto: Reprodução/ Arquivo Pessoal)

Mudando de nome

O processo para as pessoas
passar a te chamar de Gabrielle foi complicado?

Inclusive, a história da
personagem gira em torno disso: ela se entende como mulher, se vê dessa forma,
quer ser tratada assim e não entende o porquê os outros não processaram isso se
ela mesma se sente desse jeito. Tem uma cena que gravei em que a Michelly entra
em um banheiro feminino e isso causa uma reviravolta. Foi difícil gravar por
ouvir todas aquelas ofensas. É importante ter um trabalho de ator para não
levar aquilo para a vida pessoal. Mas confesso que mexeu comigo. Eu sinto que,
a partir do momento que nasceu a Gabrielle, ela sempre esteve aqui. Quando
penso em mim quando criança, me vejo como menina e sempre foi ela quem existiu
.”

Como você analisa essa
resistência das pessoas em entender sobre transexualidade?

A Michelly não aprendeu muito
do que eu já aprendi. E uma delas é que nem sempre as pessoas serão como a
gente espera que é. A partir do momento que ela faz a transição, já quer ser
tratada como uma mulher e não entende o porquê as pessoas não a tratam no
feminino. Ela precisa viver isso urgente! Hoje vejo que é um processo gradual,
estou há cinco anos no processo de transição e tenho percebido que a nossa
liberdade é algo íntimo e pessoal. É algo que a gente não percebe aos 16 anos
.”

Paquera e sociedade

Quando você encontra com um
crush, revela de imediato que é uma mulher transexual?

Não vejo esta necessidade
porque já vira um assunto. Ninguém começa dizendo o que tem no meio das pernas.
Não há esta necessidade. Prefiro evitar este tipo de rótulo porque é mais
humano. A conexão fica mais genuína
.”

Como você lida com a falta de
empatia das pessoas?

Quando a gente persevera
neste caminho, a gente vive os obstáculos e se machuca em muitos momentos. Acho
um tamanho desrespeito, sem me ler como um ser humano e me tratar de uma forma
desumana. É bom para me deixar mais forte e posso ensinar para outras pessoas
.”

Estilo

Quando você achou o seu
estilo? Para você deve ter sido um processo além do comum, né?

Eu sempre fui muito ligada à arte. Eu atuava, cantava e dançava, então acho que isso me facilitou porque vi uma performance na minha transição. Sinto que a mulher que sou era aquela que eu tinha nos meus sonhos de 10 anos de idade. Eu me lapidei desde criança.

Atriz Gabrielle Joie também trabalha como modelo (Foto: Reprodução/ Arquivo Pessoal)

Como você define seu estilo?

Acho que sou destemida,
divertida, autêntica. É alguém que gosta de sair.”

Qual é sua peça de roupa
favorita?

Eu ando muito de vestido porque é muito delicado, feminino e sexy.”

*Entrevista feita pelo jornalista André Romano.

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