Fernanda Montenegro diz o que pensa sobre Mercedes, de O Outro Lado do Paraíso: “Personagem difícil”

Publicado há 3 anos
Por André Romano
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Fernanda Montenegro será Mercedes em O Outro Lado do Paraíso. A veterana que foi estrela de um quadro do Fantástico ao lado de Otávio Muller, conversou com nossa reportagem sobre a personagem, a novela, e demais projetos. Confira:

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Como está sendo interpretar essa mulher muito a frente de seu tempo?

É muito a frente de seu tempo porque ela é muito antiga no seu sentimento. Quando eu digo antigo, não é velho. É antigo. São sentimentos primitivos puros. É muito difícil, importante. Eu espero dá conta.

Você é muito requisitada na publicidade. Sua voz está em vários comerciais. Isso deixa você lisonjeada com essa procura?

A gente não sabe disso. A gente faz isso. Se acham isso, ótimo. Se não achasse, isso não ia impedir de eu continuar na minha vida. Pois eu sou uma vocacionada. Se gostam, eu acho ótimo. Que bom, então o esforço chega às pessoas.

Quando você leu os primeiros capítulos dessa trama, a história conquistou logo você?

Eu acho o seguinte, eu já passei do tempo de ser atraída, sabe? O eterno fazer pelos 70 anos de vida pública que eu tenho, são 70 anos, nessa jornada. Eu não estou colocando os 3 anos do período de adolescência. É complicado a gente falar da gente. A gente se sente atraída pela personagem, porque é um material-trabalho, uma vocação, um oficio. A gente sempre sabe que é difícil, tem que encontrar o caminho. Interpretá-lo. É um trabalho em conjunto, nunca é um ator sozinho. Na novela não é um monólogo. Nessa novela tem 60 atores. Vamos dizer que é um atrativo, meio apavorante, mas sempre sedutor.

Ainda dá aquele friozinho na barriga antes de entrar em cena?

Total! Todo dia dá. Todo santo dia.

Você é mística em sua vida pessoal?

Olha, é aquela coisa de Santo Agostinho, ‘se você duvida, já acredita’. Essa frase é tão bonita. Quem não pede algum socorro, em hora de desespero? ‘Meu Deus’, até o Ateu vai dizer na hora do desespero.

Você está nas redes sociais?

Eu não tenho tempo. Eu tenho um Facebook, mas eu não fico ali. Eu ainda não cheguei nessa tecnologia. Total falta de tempo. Eu não deixo de ler um livro, uma pagina, para ficar vendo o que estão dizendo de mim, ou do mundo. Eu gosto de pegar o jornal, ler o jornal, que é algo muito arcaico hoje em dia.

Como foi a preparação para compor essa personagem? Emagreceu alguns quilos

Não, eu sou magra de natureza. Aliás, eu estou até gorda. Pois eu já fui mais magra na vida, menos 10 quilos. Por ai, você imagina como eu era.

Você já acostumou com essas madeixas?

Essas madeixas são minhas mesmo. Ainda não acostumei com elas. Foram muitos anos pintando, né? Eu acho confortável. Deixar o cabelo certinho, branco. É repousante! Porque pintar o cabelo toda semana é um horror. Uma hora a tinta não pega na raiz. Hoje estou com ele natural. Viu como tem vantagem a velhice? É natural, como era em criança.

Walcyr Carrasco falou que é um grande realização ter você em uma trama dele. Como você recebe esse carinho?

Primeiro lugar, eu agradeço a ele em confiar uma personagem tão difícil a mim. Não sei se eu estou correspondendo o que ele imagina que eu possa fazer no papel. É uma personagem bem difícil. Isso ai, entra figurino, o cabelo, o jogo com o colega. Enfim.

Estamos em uma safra maravilhosa de boas novelas no ar. Na trama de Gloria Peres, ela aborda o universo trans. E, a personagem é bem aceita. Entretanto, você interpretou uma lésbica em ‘Babilônia’, e foi extremamente rejeitada pelo público. O que você acha disso?

É verdade que estamos em um ótimo momento em relação às novelas. Eu acho que o público sempre aceita o jovem gay. Mas duas senhorinhas, de oitenta e tantos anos, possam ter um caso, e ainda trocam um ligeiro beijo na boca, isso foi um escândalo maluco, inexplicável, assustador. A gente pensa que o mundo caminha, não. Ao preconceito não mostrar isso na idade mais velha. Vamos deixar na mocidade. Até os 40 anos é suportável. Depois disso, pelo amor de Deus! Nem beijo na boca, mesmo o casal estando casado há 70 anos, não me faça esse desaforo.

Estamos passando por uma crise moral em relação a tudo, né? Até a arte está nesse radar..

Misturam impropriedade, com liberdade de expressão. Como existe no mundo inteiro, uma conceituação em torno de uma impropriedade. Mas isso não pode ser por uma vida inteira. A um desserviço, na verdade, a serviço de um poder politico, estranhamente poderoso, isso está tendo um crescimento assustador. Um mundo absolutamente racionado, que só vale o seu conceito. Um conceito que por acaso traga alguma alternância. No fundo, no fundo, deverá ser morto.

Você acha que a sociedade está careta?

O careta tem todo direito de ser careta. Cada um tem o direito de pensar, e ser o que quiser. Mas o fato de distinguir o contrário diante de um fato, de um fenômeno, ou de uma postura humana, isso é amedrontador.

Sua filha está fazendo um sucesso fora do país com o livro dela. Você fica orgulhosa?

Eu acho que para os pais, ver os seus filhos se realizando plenamente, não tem bem maior. Estou falando da minha casa. Do meu marido comigo, do meu homem comigo. Não disputamos poder com filho. Acho que não tenha nenhuma pendenga nesse campo. Para os pais quando os filhos se realizam, isso já é um tormento de uma metade de uma vida, que não existe!

Seu falecido esposo foi homenageado em uma praça na zona sul do Rio de Janeiro, que ganhou o nome dele. Como você recebeu esse carinho?

Eu passo lá, e meus olhos se enchem de lágrimas. Sempre! É uma praça muito bonita, muito cuidada, e, sinto que os moradores em volta, gostam da praça. Eu acho que o nome do Fernando trouxe uma espécie de ‘carnificação’ de um convívio sadio ali.

Ele é totalmente presente em sua vida, né?

Totalmente, né? São 60 anos, desse negócio.

A senhora lutou bastante para chegar até aqui. Como você vê o teatro hoje em dia?

Hoje o teatro acabou. O teatro que eu conheci desde minha infância até 10 anos atrás, isso acabou. Não há mais companhias, autores representativos, etc. Mas a resistência é mais gloriosa, do que nos períodos de gloria, compreende? O que acontece hoje é um teatro de catacumbas, se é necessário sobreviver um monólogo, se faz um monólogo. Essa luta dos artistas de hoje em dia de levar sua arte, é de uma coisa sadia e resistente. É de se aplaudir de pé.

*Entrevista feita pela jornalista Núcia Ferreira. 

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