“Eu acho o deslumbre algo meio cafona”, fala Suzana Pires sobre o ego no meio artístico

Publicado há um ano
Por Muka Oliveira
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Com mais de 20 anos na TV, cinema e teatro, a atriz e autora de novelas, Suzana Pires, encara mais um novo desafio na dramaturgia: interpretar a atriz Virgínia Alcântara, de Bom Sucesso.

Prestes
a se juntar com a atriz Ingrid Guimarães em cena, Suzana Pires fala com
exclusividade ao Observatório da
Televisão
sobre o seu novo papel na trama das sete, confessa que faz
terapia, revela que sofreu preconceito ao virar dramaturga e conta sobre suas
inspirações para criar suas histórias.

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Confira a entrevista:

Como tem sido ficar com este cabelo
curto?

Eu fiz para um filme, gostei muito
e resolvi ficar com ele para minha vida. Passei anos com o cabelo muito
comprido e quando fui chamada para entrar em Bom Sucesso, o cabelo tinha tudo a
ver com a personagem, então acabou ficando.

Como será sua personagem na novela?

Não estava prevista. Eu gosto muito
de novela e nos últimos três anos eu estava me dedicando apenas a escrever,
então pintou um espaço na agenda aqui na Globo para eu poder entrar em uma
novela. A Rosane [Svartman] já é uma pessoa muito próxima, uma mentora que eu
me inspiro muito, aí conversamos e eu meio que me ofereci. Disse ‘não tem nada
para eu fazer lá? Posso passar correndo atrás’ (ri muito) e eu adoro esta
novela, estou acompanhando. Acho tão legal quando nossas amigas estão fazendo
sucesso… Eu queria estar perto da Rosane, da Ingrid [Guimarães] e dois dias
depois ela e o Paulo [Halm] me disseram ‘a gente já escreveu’. Eu entro na
novela, fico um período e provavelmente volto. Farei parte do núcleo da Ingrid,
do Rafael Infante e do Lucinho [Mauro Filho]. A gente já tem um jogo de muito
tempo, então está sendo muito ótimo.

Você faz falta na televisão…

Obrigada! Eu fico muito grata
porque eu escuto muito isso. Fico muito grata pelas pessoas não se esquecerem
de mim (risos) e elas me dizem ‘eu sei que você está sem fazer novela porque
você dirige, produz, mas faz falta. As pessoas sabem que eu faço outras coisas
dentro da TV, mas fico feliz que elas sentem minha falta e ter espaço para voltar.
Também sinto muita falta.

Conte um pouco sobre a personagem.

A Virgínia Alcântara, assim como a
Silvana Nolasco, é uma atriz, mas é de um outro extremo. A Silvana é mais
celebridade enquanto que a Virgínia é mais do teatro, complexa. As duas são
mulheres que se acham estrelas, mas a Virgínia é do tipo que se acha mais
cabeça. Esse jogo ficou engraçado. É uma relação de amor e ódio entre duas
atrizes. Vai ser divertido. A gente já fez um grande sucesso juntas no cinema,
somos amigas há muitos anos, então o jogo é rápido. Até quando tem de
improvisar um pouquinho tudo é muito natural. Quando você tem um jogo com uma
colega, é como descer para o play e a brincadeira rola muito bem com uma
criança. É a mesma coisa. Quando você tem isso desenvolvido, você gosta de
brincar junto. Eu vim correndo porque eu gosto muito deles. É um astral muito
bem.

E você estava assistindo?

Sim, eu até tuitava ‘Fabíula, a
Sheron está te traindo’. Bem a cara de espectador. Até o público achava que eu
já estava na novela, mas eu estava só assistindo. Era público! A trama toca em
um tema delicado que é incentivo à leitura, tem uma mulher protagonista que é
realmente real. A Grazi está fazendo muito bem e a novela já me encantou desde
o início. É tipo férias! É sério, é suave. O dia a dia de uma autora é muito
diferente. Vir gravar é renovar os ares e voltar a criar com mais gás.

Você chegou a fazer uma preparação
da personagem?

Fiz. Essa relação de amor e ódio de
duas atrizes é algo muito anos 1950, sabe? É uma relação engraçada que não
existe mais hoje em dia. Hoje como o feminismo, como mulheres, a gente tenta
evitar esta situação de competição, mas essas duas ainda não entenderam isso.
Elas estão longe de entender o que é uma consciência atualizada (se tivessem
também não daria para fazer a piada. Rs). Assisti cenas da Jayne Mansfield que
era assim e da Joan Crawford, dos anos 1940 e 1950.

A Virgínia é uma atriz cheia de
ego, uma coisa meio anos 1950, mas como não deixar o ego estourar?

Terapia, meu amor. Eu acho
deslumbre algo meio cafona. Ninguém é melhor do que ninguém. Acho que todo
mundo está aqui vivendo coisas que nem imaginamos, então temos de ter respeito
pelas pessoas. Nunca gostei. As poucas vezes que me vi perto disso, eu já não
gostei, fiz uma piada comigo mesma para não acreditar tanto. Acho que o maior
perigo desta profissão é se perder na vaidade. Ninguém melhor. Todo mundo me
pergunta como começa um curso de teatro e eu sempre digo ‘comece com uma
terapia’.

Quantas vezes você faz terapia?

Uma vez por semana só, mas já fiz
três! Não tenho a menor vergonha de contar isso.

Você chegou a sofrer um
pré-conceito por “virar” uma dramaturga, né?

Sim, vocês me conhecem há um
tempão, sabem como eu sou, a gente tem um trabalho que nos alimentamos do
trabalho um do outro e a gente sabe o que vai acontecer! Eu não tenho treta se
um cara [jornalista] quiser escrever [críticas], tudo bem. Se tiver algo que me
acrescente, eu vou ouvir. Acho que nunca tive medo e me arrisquei. É por isso
que eu vou em frente. Para você se arriscar, você pode fracassar e ele pode te
dar uma couraça. Depois você vai conseguir chegar no coração das pessoas. Esse
é o meu objetivo como atriz e como autora. Eu tenho que estar com este canal
muito limpo e, para isso, eu não sou treteira. Vou escrever meu trabalho e se
alguém tiver uma crítica muito boa, eu vou ouvir. Se eu percebo que é uma
crítica do despeito, do humano, eu dispenso.

O Silvio de Abreu falou que você é
uma das crias dele. É como um Oscar, né?

Um Oscar pesado! (risos) Vem uma
pressão junto. O trabalho da autoria é muito complexo. Quem me ensinou a
escrever foi o Walter Negrão. Trabalhei com ele por muitos anos. Eu aprendi com
uma pessoa que praticamente inventou isso, criei minha maneira de fazer, sempre
me senti valorizada nas duas funções e nunca uma pessoa da executiva me
perguntou o que eu queria. A postura sempre organizar as prioridades e fizemos
isso juntos. Eu sempre senti que eu tinha uma empresa que me apoiava a ser o
máximo que eu pudesse.

E é mais uma mulher, né?

Ser mais uma mulher, para mim, é
ainda mais importante do que ser eu ali.

A novela é uma obra aberta. Se
rolar de sua personagem ficar, você continua?

Eu fico! Se continuar, o que pode
acontecer, não será uma personagem que grava todos os dias e isso dá um frescor
maior. Eu posso voltar a me organizar com isso. Eu precisava desses três
somente como autora.

Mas você não abre mais mão do
ofício de autora, né?

Não, impossível. Nem o mercado
abriria. Tenho um projeto, mas é algo que só a Globo pode divulgar. Ano que vem
tem um filme chamado De Perto Ela Não é Normal, que é adaptação da minha peça
para o cinema, com um elenco maravilhoso: Angélica, Heloísa Périssé, Ivete
Sangalo, Gaby Amarantos e todas vieram como atrizes, se prepararam, já tinham
visto a peça, são minhas amigas e vieram com vontade de fazer aquilo dar certo,
sabe? A Ingrid não pôde fazer, mas tem uma participação especial hilária. Vocês
vão gostar.

Neste novo projeto você está em
parceria com alguém?

Estou sozinha. É um período de
desenvolvimento, de entender como é a minha voz, qual é minha pegada… Quando
o Negrão ficou doente em Sol Nascente, fui eu que toquei com o Julio, então
agora é o exercício da minha voz como autora. Se ficar bom, ótimo, se ficar ruim
a gente volta e escreve de novo… É uma carreira de longo prazo e eu ainda sou
muito nova.

Você não tem medo de se arriscar?

Não. Às vezes eu ouço ‘como essa
mulher não tem medo de fazer isso? Como ela consegue’. Eu realmente me arrisco
e não tenho medo disso. Se eu errar, posso pagar um micão. Eu dou minha cara a
tapa, mas o farei depois de ter estudado muito.

Sol Nascente foi sua cara a tapa,
teve um probleminha e você teve muito sucesso, inclusive em Portugal.

Sim, fez muito sucesso lá. Tive
muita sorte ali porque tinha como diretor o Leonardo Nogueira, marido da
Giovanna [Antonelli], que é muito meu amigo, então era um grupo que todo mundo
queria desse muito certo, diante de um problema que era muito sério. O Negrão
ficou doente e o meu pai também adoeceu na mesma semana. Foi um período muito
louco. Tive de lidar com tudo isso. Então ali foi uma prova para mim de que
tudo poderia dar errado, mas eu poderia fazer dar certo. Assumi o meu lado
vulnerável, fiquei sem meus dois pais: um era o meu mestre e o outro era meu
pai com quem eu me dou muito bem. De repente um caiu para um lado e o outro
caiu do outro. Hoje os dois estão ótimos, mas foi um desafio. Em nenhum momento
eu fingi que estava tudo bem. Eu estava em carne viva, mas gostei que passou, a
novela se recuperou, os dois ficaram bem e tudo ficou bem.

É mais difícil ser uma atriz
dramaturga, com muitos amigos atores?

Não… Não rola pedido de vagas. A
gente está dentro de uma empresa e existem várias instâncias para um elenco ser
aprovado, a empresa que manda. Posso dar um palpite, indicar alguém, mas é um
processo. Como eu conheço muito bem o set, sou uma pessoa dali, na hora de
escrever isso facilita tanto para o diretor quanto para o elenco. Eu tenho uma
vivência nisso aqui. Quando eu vinha ao set de Sol Nascente, eu sabia qual era
a angústia. Nenhuma autor pergunta isso ao autor então gera uma angústia. Você
se torna uma ponte dos dois lados. Você tem um domínio melhor do tabuleiro e do
que é fazer televisão. E assim a banda toca. Estou louca para uma outra atriz
que escreva novela. Não é legal estar neste lugar sozinha.

Tem alguém que escreve também?

A Heloísa Périssé também escreve,
mas não novela. A gente já conversou sobre isso. Tem muitas atrizes que
escrevem, eu as incentivo e elas fazem o mesmo. Neste dia a dia da trama aberta
não… Minha vida rumou para este lado.

Quem vem primeiro: a atriz ou
autora?

Acho que a autora.

A Globo está começando as novelas
com 60 capítulos de frente. Existe uma angústia para escrever tudo…

E depois mudar? Eu já fiz isso. Não
dá angústia… É outra coisa. É sentar e escrever! Eu tenho uma equipe.

De onde vêm suas inspirações?

De tudo! De gente e de entender o
mundo. A minha formação é de entender fenômenos. É isso que eu faço. A gente
tem de entender o que está acontecendo, para onde está indo, para criar os
personagens.

Você gosta de andar de metrô?

Adoro! Tem dias que eu dou uma
causada, as pessoas me amam e em outros as pessoas ficam me ilhando de rabo de
olho. É maravilhoso! Eu não deixo de ir ao mercado, fazer feira, pegar metrô…
Esses dias fui ao nordeste, conversei com todo mundo: desde o vendedor de rede
ao dono de hotel. Tem de estar perto de gente. É bom para criar repertório.

Viajar também ajuda, né?

Sim, inclusive um filme eu gravei
em Cuiabá, no Mato Grosso do Sul. Então para o ano que vem tem dois filmes: De
Perto Ela Não é Normal e Eva, rodado em Cuiabá, que é um drama. Neste eu
trabalho como atriz.

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