“Eternizar uma personagem e ser eternizada por ela é ótimo, mas tem encargos”, afirma Alessandra Maestrini ao relembrar Bozena, de Toma Lá da Cá

Publicado há 3 anos
Por Leandro Lel Lima
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No teatro ela é conhecida desde 1997 após ter participado do musical As Malvadas, Alessandra Maestrini canta, dança, interpreta e tem um forte apelo para a comédia.

Em cartaz no Teatro Porto Seguro, a atriz dá vida a Sarah Leighton, uma mulher com diagnóstico de autismo altamente funcional com habilidades específicas em algumas áreas como a música. Sua heroína nos mostra as dificuldades que a vida lhe impôs com muito bom humor e persistência ao lado da professora Leonor Delise, interpretada com muito talento e elegância pela atriz Mirna Rubim.

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Mas é claro que a o grande público conhece Alessandra por conta de sua participação especial em um dos mais bem sucedidos seriados de Miguel Falabella, Toma Lá Dá Cá, como a Bozena lá de Pato Branco, de 2007, da Globo.

Com atuações pontuais na TV, entre elas, Sob Nova Direção, Amazônia, Tempos Modernos, Guerra dos Sexos, Pé na Cova, Correio Feminino, Sexo e as Negas, Tempero Secreto, Maestrini também de divide entre peças, musicais, shows e filmes.

Em entrevista exclusiva ao Observatório da Televisão, a artista fala do processo de composição de Sarah, portadora da Síndrome de Asperger, da sua relação com Miguel Falabella e também da inesquecível Bozena, que na sinopse original não existia: “Eternizar uma personagem e ser eternizada por ela é ótimo, claro! Mas tem encargos, evidente”, afirma a atriz que pode ser vista na série A Cara do Pai, aos domingos, às 14h na Globo.

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Confira:

Como o texto chegou até você?

É a segunda vez que este gênio que tanto admiramos, que tanto nos inspira e este amigo que tanto amo me apronta uma bênção dessas! A primeira vez que Miguel escreveu algo para mim, mal nos conhecíamos. Foi a Bozena “Lá de Pato Branco”, de Toma Lá Dá Cá, que todos conhecem. Ele ficou encantado com meu trabalho na peça “Mamãe Não Pode Saber”, de João Falcão, que eu protagonizava ao lado de Lázaro Ramos, Drica Moraes e Vladimir Brichta e, por conta disto, criou um personagem que não existia ainda no seriado, só para me integrar ao elenco.

Desta vez, mais de uma década de amizade e me conhecendo mais também, artisticamente e profissionalmente, este homem LUZ escreveu uma peça inteira comigo em mente. Pergunta se estou babando de amores e de alegria?

Mirna Rubim, além de ser uma das solistas de maior destaque do meio operístico nacional é a preparadora vocal mais requisitada do país no meio artístico. Um ícone da técnica vocal que prepara boa parte dos protagonistas e elencos tanto dos Musicais de grande porte quanto do mercado da Ópera.

Miguel estava sendo preparado por ela para algum musical (não lembro qual exatamente), chegou cedo, e me pegou terminando uma aula e cantando o vocalise à capela que inicia a Ária dos Sinos, de Lakmé. Ficou absolutamente inconformado de que o público só me conhecesse “fazendo palhaçada na TV” e disse que iria escrever uma peça para esta voz e esta cantora de ópera que “não pode ficar escondida do púbico”.

Ano passado, ele me assistiu fazendo “Yentl em Concerto” e assistiu à Mirna na peça “Paradinha Cerebral”. Pronto! Ele teve a certeza de qual seria o enredo: escreveu para nós duas um espetáculo justamente da relação “professor aluno” (a Arte imita a Vida), através de uma trajetória tão cheia de humor quanto de delicadeza e profundidade. É, realmente, um deleite absoluto!

Quais foram os seus maiores desafios por conta da montagem?

Até conhecer pessoalmente a Julia Balducci (cineasta portadora da síndrome de Asperger a quem consultei durante os ensaios e que veio nos assistir antes da estreia também) e “senti-la” de pertinho para, assim, “adivinhá-la por dentro”, eu me perdia nas infinitas possibilidades de composição da personagem. Porque eu não me satisfaço com caricaturas. Dizer que alguém tem uma característica da qual vamos falar, não significa que esta pessoa se restringe a isto. E o manancial de personalidades tão absolutamente diferentes uma da outra que encontrei no Youtube nas minhas pesquisas sobre autismo e portadores da Síndrome de Asperger, deixou muito claro para mim que ela poderia ser… Como eu bem entendesse, digamos assim. Até porque, há inúmeros portadores da Síndrome de Asperger que passam batido no nosso cotidiano. Muitas vezes, sendo apenas taxados de “esquisitos”. Sou basicamente sinestésica, meu aprendizado pessoal se dá através da empatia e das emoções; não sou essencialmente teórica. Então, quando pude sentir e enxergar alguém dentro do espectro da minha personagem, pude finalmente compreender e “saborear” algumas de suas qualidades, medos, anseios, graças, delicadezas, charmes e portais de transparência, para que o público possa saborear e compreender a personagem e a história que Miguel criou, que possa mergulhar neste tema conosco e sair encharcado de empatia e conexão também. Miguel escreveu esta peça não só para mim, mas por paixão inefável pelo tema. Pesquisou incansavelmente a respeito. E eu quis honrar isto também.

Tem recebido retorno do público por conta do tema abordado e da inclusão, mais do que necessária?

Estamos em plena consonância com a comunidade autista, assim como a empatia divertida, emocionante e transformadora do público leigo tem sido inegável.

“Gente como eu precisa de duas coisas na vida” – diz Sarah, a personagem de Maestrini para a Leonor, Mirna, ao se apresentar – “De um trabalho e de alguém que lhe estenda a mão”. O quanto essa afirmação de Sarah representa os milhares de autistas e até mesmo pessoas que estão passando por dificuldades como a própria Leonor?

Passei a enxergar autistas mais como guerreiros que como vítimas. Passei a enxergar melhor suas qualidades tb.

Esta frase representa todos nós. Típicos e atípicos, não é verdade?

Ouvi de um espectador: ‘Nossa, como a Bozena é talentosa!’. Frases do tipo ainda te surpreende? Quando o público te vê em cena é assim mesmo um “espanto” por conta da sua voz, performance…? Ficar “marcada” pela Bozena é bom ou ruim?

Eternizar uma personagem e ser eternizada por ela é ótimo, claro! Mas tem encargos, evidente.

Sabemos que sua agenda é cheia por conta de shows e peças, mas e a TV? 

O Brasil está entre os 10 países mais ignorantes do mundo. Não surpreende que a cultura teatral atinja tão poucos. Me alegra muito poder trazer meu público de TV a se apaixonar pela ópera, como tem acontecido, e pela boa música em geral. Isto tem acontecido MUITO e é das minhas maiores alegrias e objetivo assumido do Miguel ao escrever o espetáculo: democratizar o acesso à boa música. Ter o povo dizendo na saída: “eu era apaixonado por ópera e não sabia” é o máximo! …Ou não é? Atualmente, estou no ar aos domingos em A Cara do Pai.

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