“Estou mais maduro e melhor preparado”, diz Dan Stulbach sobre atuação em A Força do Querer

Publicado em 20/06/2017

Dan Stulbach vive uma ótima fase em sua carreira. Após seis anos longe das novelas, o ator retornou em A Força do Querer, e colhe os louros pelo sucesso da trama. Ele conversou com nossa reportagem para contar sobre o personagem e suas expectativas. Confira:

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Seu personagem, o Eugênio não parece feliz com a vida que leva, e acaba se envolvendo com outra mulher. Por que ele não se separa?

Ele tem um pouco da covardia de todos nós. A verdade plena as vezes é insuportável, e as pessoas se contentam com um pouco de auto-engano.

Mesmo ele não tendo coragem de romper isto, ele está completamente encantado pela Irene. Vai ficar somente nisso?

Por enquanto vai. Até onde eu sei, a Joyce (Maria Fernanda Cândido) coloca ele para fora de casa, mas não pela Irene (Debora Falabella). Ela desconfia que exista outra mulher, mas não sabe que é a Irene. A Ritinha (Isis Valverde) vai ver os dois juntos enquanto estiver trabalhando no aquário e os dois vão conversar sobre isso posteriormente, e ficará implícito esse complô. A trama do Eugênio foi muito bem desenhada, passo a passo sendo costurada, mas não sei além disso.

Na verdade o que a Joyce espera do Eugênio?

Ela não aceita que ele se transforme em outro homem diferente daquele com o qual ela se casou, que a proteja, que traga grana pra casa, seja o provedor da família. Ela não entende a pessoa que se arrisca como o Eugênio fez. Ela sempre foi feliz e resolvida, e talvez agora ela tenha uma questão grande porque as pessoas vão decepcioná-la, tanto o marido como os filhos. Fizemos uma cena bonita sobre isso, de projetar nossa felicidade nos outros e os outros não serem necessariamente aquilo que gostaríamos.

Maria Fernanda Cândido e Dan Stulbach (Divulgação/ TV Globo)
Maria Fernanda Cândido e Dan Stulbach (Divulgação/ TV Globo)

O Eugênio vive uma história que as pessoas já viveram, essa recolocação profissional de começar uma carreira praticamente do zero. As pessoas te param para conversar sobre isso?

As pessoas me pararam para falar sobre isso antes da novela na verdade, porque eu fui pra Band, pra ESPN, e tenho um programa de rádio. De alguma maneira as pessoas me perguntavam sobre essa minha coisa de arriscar. Eu sou um cara inquieto, até mais que o Eugênio, porque ele está começando a viver o sonho dele agora depois de ter passado anos numa carreira que ele não gostava, eu por outro lado fiz isso quando jovem, larguei a faculdade de engenharia e me dediquei ao sonho de ser ator, um enorme conflito na minha vida e tive outros ao longo da vida, mais recentemente alguns passos inusitados como sair da Globo, apresentar o Saia Justa ou o Programa da Fátima. Depois do Eugênio, as pessoas começaram a falar mais sobre este assunto, mas a frase que eu mais ouvia era “Cuidado com a Irene” (risos).

O sucesso da novela baixou sua inquietude de ter vários projetos?

Não. Mas o sucesso da novela me acalma porque fazer parte de algo que é sucesso é muito gostoso. Significa que a comunicação está dando certo, é uma sensação muito boa fazer uma cena e pensar na quantidade de pessoas que estão esperando aquela cena e vão se emocionar com ela. Sei que para muita gente no nosso país, a televisão é o único meio de diversão e cultura, daí o ator se sente fazendo um serviço bonito. O carinho do público é a recompensa para toda essa equipe que vem se esforçando tanto, e eu gosto muito quando as pessoas vêm falar comigo, me pedem foto, porque acredito que se você está na televisão, sendo visto por várias pessoas e ninguém vai falar com você, é um desastre (risos).

E como você enxerga este sucesso dentro da sua trajetória?

O sucesso aumenta a responsabilidade. Eu só fiz novelas das 21h e minisséries, e tive a sorte de só fazer novelas que foram muito boas. Mulheres Apaixonadas, Senhora do Destino, Fina Estampa, a série Queridos Amigos, Som e Fúria, mas acho que antes dessa novela havia uma discussão muito grande sobre o espaço da televisão hoje, diziam que não tinha mais espaço para a novela, que nunca mais teria audiência e de alguma maneira A Força do Querer está provando que a novela quando bem feita, ainda tem seu espaço.

O Eugênio e a Joyce vivem aquele momento em que o relacionamento está desgastado sem que eles percebam. Como você avalia o casamento e as relações hoje em dia?

Eu acho que as relações mudaram. O sexo mudou, o namoro mudou, a relação em si mudou. Acredito que todas as relações sempre foram possíveis, mas hoje a discussão sobre isso é muito maior e a paciência com o outro é muito menor. Existe uma volatilidade das pessoas, que faz com que tudo seja mais rápido e superficial, mas nossos desejos e carências continuam os mesmos. Ainda permanece o desejo de encontrar alguém que se ame para sempre, mas ninguém mais fica junto só para ficar. Hoje em dia se batalha menos para se permanecer junto, e às vezes rompemos antes da hora por ansiedade de estar sempre feliz, e isso às vezes é uma armadilha.

Você acha que uma traição é um desejo fugaz de ser feliz naquele momento, por acreditar que a grama do vizinho é sempre mais verde?

Isso sempre teve e sempre vai ter, mas hoje em dia existe a internet, e as traições abriram seu repertório. Os códigos entre os casais mudaram: ter a senha do celular do parceiro por exemplo é uma questão de confiança, mas e receber um nude de alguém? É ou não é uma traição? São questões de uma nova composição de sociedade. A geração mais jovem enxerga o mundo de outra forma. Eu por exemplo com 13 anos fui apaixonado por uma menina e fui dar um beijo no cinema a primeira vez, algo que na minha época era normal mas que hoje em dia eu seria um total atrasado, porque existe essa ansiedade para que as coisas aconteçam todas de uma vez. Isso me faz questionar “O que mais vai te restar da vida se você gastar tudo logo?”.

Saiu recentemente uma crítica dizendo que você e a Maria Fernanda Cândido voltaram para a TV no momento certo devido à maturidade. Como você enxerga isso?

Eu voltei melhor ator do que eu era. Mais maduro e mais preparado, não porque deixei de fazer televisão mas porque fiz coisas que me melhoraram. Por exemplo, ser apresentador me deixou mais seguro em frente às câmeras por não depender de um texto. Eu fiz teatro, fiz filmes, e sinto que a minha grande mudança é que respiro em cena com mais calma, e isso foi um pedido meu há muito tempo. Eu conheço a Fê (Maria Fernanda Cândido) há muito tempo, já a dirigi numa peça inclusive, falei com ela e com todos os atores que compõem minha família na novela “Nós somos uma família, vai muita coisa acontecer para cada um de nós”, e até hoje ficamos muito felizes quando vamos entrar em cena juntos. Eu já tinha isso pra mim antes, mas agora eu mesmo tomo frente e chamo as pessoas para estarem perto, então mudou minha maneira de lidar com o trabalho. Quando terminamos de gravar eu ainda estou bem, porque não gastei toda a minha energia em ensaios como me acontecia antes, e hoje em dia respondo melhor. Me cerquei de todas as formas para que fazer novamente uma novela fosse algo legal, tanto no preparo do texto, como no meu dia a dia, e estou fazendo uma série de coisas para ficar bem, porque já tiveram novelas em que não fiquei bem durante, então é um momento de felicidade e maturidade.

*Entrevista realizada pelo jornalista André Romano.