“É mais do que necessário falar de sexo na TV”, defende Regina Navarro Lins, do Amor & Sexo

Publicado há 3 anos
Por Leandro Lel Lima
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Falar de sexo na TV rende e muito, mas falar sobre sexo sem ser vulgar e com conteúdo é para poucos. O assunto não vem sendo tratado apenas agora, com o Amor & Sexo, as novelas, entre elas, Malhação, A Força do Querer, O Outro Lado do Paraíso e Pega Pega. Desde os anos 70 a TV já desenvolvia atrações com esta finalidade.

Podemos destacar em dramaturgia e em plena ditadura militar a série Malu Mulher com Regina Duarte que discutia divórcio, orgasmo, uso da pílula anticoncepcional, aborto, virgindade, relações familiares, mulheres no mercado de trabalho, traição, entre outros temas polêmicos para a época, final dos anos 70, e até hoje também.

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Já nos anos 80 o TV Mulher contava com Marta Suplicy com suas dicas e orientações sobre sexo nas manhãs da Globo. A atração durou seis anos e foi substituída pelo Xou da Xuxa. A hoje senadora falava sobre tudo contando com a participação do público por meio de cartas.

As novelas possuem papel fundamental na discussão de temas relacionados ao sexo, mas é no jornalismo que o respaldo é maior por contar com especialistas e um tom mais “sério”. As tramas apresentam personagens que, baseados em fatos reais, possuem dilemas envolvendo questões até então proibidas e censuradas pelas autoridades e pela igreja.

Nos dias atuais, Malhação – Viva a Diferença e mais recentemente o programa de Fernanda Lima, Amor & Sexo, e a novela A Força do Querer contribuíram e muito para que o público pudesse ter além da informação outras formas de compreender as diversas transformações e sentimentos que o nosso corpo passa ao longo da vida.

Em entrevista ao Observatório da Televisão, a psicanalista e consultora Regina Navarro Lins fala sobre a importância de abordar o tema nas novelas, programas de entretenimento e no jornalismo como ela vem realizando: “Por haver machismo, cultura do estupro, violência sexual, é mais do que necessário falar de sexo na TV”.

Há mais de 45 anos anos, Regina atende em consultório, já lançou mais de doze livros, entre eles, o best seller A Cama na VarandaO Livro do AmorNovas Formas de Amar, recentemente lançado. Enquanto não retoma as gravações do Amor & Sexo, que garantiu mais uma temporada em 2018, a colunista pode ser vista no Em Pauta da Globo News.

Confira:

O quanto fazer parte do elenco do Amor & Sexo agregou à sua carreira? E como é a sua participação no processo de produção das pautas? 

Considero o programa Amor&Sexo o mais importante da TV brasileira por discutir esses temas de forma inteligente, com liberdade e sem preconceitos. Penso ser uma grande contribuição para a diminuição do moralismo que tanto limita a vida das pessoas. Já participei de cinco temporadas. Nas três primeiras, eu participei das reuniões de pauta. Agora, só participo na bancada como consultora.

E na GloboNews, como é a sua participação? E existe uma linguagem/abordagem diferente para cada atração?

Na coluna semanal do programa Em Pauta, da Globonews, escolho o tema que vou gravar. Geralmente, ele é baseado em algum acontecimento que está repercutindo na mídia. Gosto muito de fazer essa coluna, porque é mais um espaço em que contribuo para uma reflexão. O mundo será bem melhor quando as pessoas questionarem as crenças e os valores aprendidos e deixarem de apenas repetir o que ouviram desde cedo.

Em uma TV aberta e fechada, horário nobre, falar de sexo e comportamento em pleno século XXI ainda é necessário? Levando em conta o machismo, a cultura do estupro, orientação sexual e, é claro, as angustias de cada um…

Por isso mesmo, por haver machismo, cultura do estupro, violência sexual, é mais do que necessário falar de sexo na TV. As pessoas sofrem muito com seus desejos, fantasias, medos e culpas. Não tenho a menor dúvida de que todos poderiam viver de forma bem mais satisfatória do que vivem.

E as novelas e séries estão acertando na abordagem? O que mais destaca?

Infelizmente, não tenho tempo de ver novelas há muitos anos. Mas pelo que fico sabendo acredito que está sendo muito importante levar para a TV questões que são tabu na nossa sociedade.

Quais caminhos devemos buscar para enfim nos encontrarmos?

Acredito que por meio da reflexão, de ler bons livros, podemos nos livrar dos preconceitos e fazer escolhas mais livres na vida. A questão é que o novo assusta, o desconhecido gera insegurança. Então muitos, apesar da insatisfação, se agarram aos padrões de comportamento tradicionais. Para viver bem é necessário coragem!

Em seu novo livro, Novas Formas de Amar, o que os leitores poderão encontrar?

Há importantes reflexões sobre relacionamento amoroso e sexual. Muitos depoimentos de pessoas que estão tentando viver de uma nova forma o amor. Mostro qual é o maior desafio que os casais vivem hoje. Em cada período da História o amor se apresenta de uma forma. Atendo no consultório há 45 anos. De uns cinco anos para cá passei a receber casais trazendo novos conflitos, que ocorrem porque uma das partes propõe a abertura da relação — partir para um relacionamento não monogâmico — ou uma nova prática sexual. A outra parte se desespera com essa possibilidade, se sente não amada. Acredito que no futuro poucos vão querer se fechar numa relação a dois, e mais gente vai optar por relações múltiplas, com vários parceiros ao mesmo tempo.

Amar é tão complicado assim ou a mídia e a sociedade é que nos ditam as regras deixando o sentimento arcaico e confuso?

O amor romântico, pelo qual todos anseiam, traz a ideia de fusão – duas pessoas vão se transformar numa só, nada mais lhes faltando. Ocorre que a busca da individualidade caracteriza a época em que vivemos. Cada um quer saber quais são suas possibilidades na vida, desenvolver seu potencial. O amor romântico propõe o oposto disso; prega que os dois se transformam num só, havendo complementação total entre eles. Preservar a própria individualidade começa a ser fundamental, e a ideia básica de fusão do amor romântico deixa de ser atraente porque vai no caminho inverso aos anseios contemporâneos. Esse tipo de amor está saindo de cena, levando com ele a sua principal característica: a exigência de exclusividade. Por isso, está se abrindo um espaço para novas formas de amar.

Em O Livro do Amor, volume I e II, você traça paralelos entre as mais diferentes sociedades e seus costumes e o quanto o sexo e amor são aceitos ou não levando em conta o contexto social, religioso e econômico. Em Novas Formas de Amar, qual é a principal “lição”?

Penso ser a de que o amor pode ser vivido de muitas formas diferentes e nem por isso deixa de ser amor.

Em cidades litorâneas como o RJ, principalmente, andar com trajes de banho pela cidade é algo tão comum, mas além de ter a praia, os cariocas têm o carnaval, entre outros eventos, transmitidos pela TV e também espalhados pelo restante do País, percebo que há certo conservadorismo em relação ao que passa na TV como cenas de beijo, sexo, entre outros. Como isso se explica? Na rua e nos eventos “OK”, já na TV, não…

Os conservadores estão sempre de plantão.  O que acontece na TV fica registrado; é mais fácil denunciar. Os moralistas e preconceituosos estão sempre de plantão. Quando o telefone surgiu no início do século 20, muitos gritaram, dizendo ser uma imoralidade. Afirmavam ser uma indecência uma moça estar recostada e a voz do homem entrar pelo seu ouvido. Será que eles conseguiriam imagina o que é a internet? (risos)

A bissexualidade está mais forte do que nunca, ou é modismo?

Não acredito que seja modismo não. A mentalidade patriarcal, que definiu com tanto rigor o masculino e o feminino, está perdendo as suas bases. É cada vez mais difícil encontrar diferenças entre anseios e comportamentos de homens e mulheres. Todos desejam ser o todo, não ter que reprimir aspectos de sua personalidade para corresponder às expectativas de atitudes consideradas masculinas ou femininas. Acredito que a dissolução da fronteira entre masculino e feminino possibilite uma sociedade de parceria, longe do modelo de dominação de uma parte da humanidade sobre a outra, que existiu nos últimos milênios. É possível também que as pessoas venham a escolher seus parceiros amorosos e sexuais pelas características de personalidade, e não mais por serem homens ou mulheres.

É possível ter uma religião e ainda assim ter uma vida sexual livre e plena?

Acho difícil. No Ocidente a cultura cristã é calcada no pecado e na culpa. O prazer, principalmente o sexual, nunca foi visto com bons olhos. A virtude sempre foi o sofrimento. Afinal, controlar o prazer das pessoas é controlar as pessoas. Para Freud, o sofrimento humano tem três origens: a força superior da natureza, a fragilidade dos nossos corpos e a inadequação das normas que regulam as relações mútuas dos indivíduos na família, no Estado e na sociedade. A doutrina de que há no sexo algo pecaminoso é totalmente inadequada, causando sofrimentos que se iniciam na infância e continuam pela vida afora.

As novelas ainda utilizam a velha receita: amor romântico, o príncipe encantado, etc. Levando em conta que este, além do cinema, é o produto cultural mais consumido pelos brasileiros, ele não vai contra os sentimentos e desejos de uma grande parcela da sociedade que busca se sentir livre? 

Claro. Mas as histórias infantis estão se transformando. É só comparar o conto de Cinderela com o desenho animado Valente. A primeira passa para as crianças que uma mulher só pode ser salva da miséria por meio de um homem. E isso se ela ajustar a sua imagem às exigências dele (caber no sapatinho). Além disso, a história de Cinderela não passa a ideia de que a mulher deve desenvolver suas capacidades e talentos. Mérida, a heroína de Valente, se recusa a ter o comportamento exigido pela mãe para encontrar um príncipe. Ela ganha os campeonatos de arco e flecha e deseja viver em liberdade. Essa história mostra como a mentalidade está mudando.

Pretende transformar suas obras em série, filmes ou peças? 

A Cama na Varanda já virou peça de teatro, escrita por meu marido, Flávio Braga, que é escritor de ficção, roteirista e dramaturgo. Deve estrear no ano que vem. O Livro do Amor será um musical que conta o amor da pré-história até a atualidade, passando por todos os períodos. Penso que o livro Novas Formas de Amar daria uma excelente peça ou série para TV.

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