Claudia Di Moura comenta relação de Zefa com a família Athayde em Segundo Sol: “Ela é um utensílio da casa”

Publicado há 2 anos
Por Greicehelen Santana
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Em Segundo Sol, Claudia Di Moura está vivendo Zefa. Uma mulher que desde jovem trabalha na casa do empresário Severo Athayde (Odilon Wagner), com quem manteve um caso amoroso durante anos e teve dois filhos – Edgar (Caco Ciocler) e Roberval (Fabrício Boliveira).

Esse segredo está prestes de vir à tona e promete bagunçar ainda mais a relação conturbada desses personagens. Ao Observatório da Televisão, Claudia explicou como interpreta o sentimento maternal de sua personagem pela família Athayde, que sempre a trata com indiferença.

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Baiana, veterana nos teatros e estilista por opção, a atriz também falou sobre a vida pessoal, a carreira e o preconceito que viveu na infância. “Eu vou me emocionar sempre com essa história”, confessou em lágrimas. Confira:

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Como está sendo para você acompanhar a repercussão da novela e da Zefa?

Quando eu estive na Bahia tomei um susto. Em Salvador não se fala em assistir Segundo Sol, se fala em assistir Zefa, e é muito bonito isso. É a minha terra, o meu lugar. Eu estou muito feliz, é um presente a personagem. Eu já falei e vou continuar falando, a Zefa traz uma importância muito grande na minha vida.

Claudia di Moura fala sobre repercussão da personagem em Segundo Sol

O que você ouve do público sobre a sua personagem?

O que tem me assustado, na verdade, é que as pessoas falam muito mal do Roberval, colocam o Roberval no lugar do algoz, do vilão. E me entristece porque ele é uma vítima da escolha da mãe e do pai, da história do Severo e da Zefa.

Então eles vêm num acalanto com a Zefa, as pessoas amam o meu personagem, claro, porque está num lugar sagrado de mãe. A Zefa é muito acolhida pelas pessoas e eu fico meio sem entender porque ela também bem um lado perverso, ainda que seja uma perversidade reproduzida. Ela deixou o filho, doou.

Mesmo viúvo, o Severo não assumiu um romance com a Zefa. Qual o nível de amor entre eles dois?

Racismo. É isso. Ele é um homem branco, racista, que nunca teve coragem de assumir essa mulher que em diversos momentos diz que foi o grande amor da vida dele, de infância.

O Severo vai se redimir sobre esse amor?

Eu espero que não. Agora com essa tomada de consciência, com as informações do Roberval e as informações do Edgar, que vai trazer nessa nova fase da novela, eu acho que Zefa vai repensar, ver essa nódoa que ele deixou na vida dela.

Relação de Zefa com os filhos

Como fica a relação de Zefa, Roberval e Edgar nessa nova fase da trama?

Zefa tem agora do Roberval, que é o filho assumido, só a revolta e o poço de mágoa que esse menino virou. E o filho de armário, que é o Edgar, traz para ela um pouco de carinho, mas muita indiferença. E a gente quer ver essa reviravolta.

A família Athayde vai perder a mansão. Qual a expectativa para essa família? O que vai mudar?

Eu não espero nada dessa família. Porque essa família é expert em puxar o tapete das expectativas do público.

Em conversa com o elenco foi dito que a oligarquia baiana é realmente racista. Como baiana, você percebe esse quadro?

O racismo está aí em qualquer lugar, e lá existe também. Se olharmos para traz, ainda avistamos a escravidão. Ela é muito recente.

No início da novela, você falou que queria representar a mulher baiana de origem simples, as empregadas domésticas. Esse público tem te dado um retorno sobre a Zefa?

É engraçado isso. A grande maioria do meu público é jovem. Eu não sei se ver na Zefa o acalanto da avó, esse amor que a nossa juventude não está tendo tanto por conta das mães que trabalham, das avós que trabalham, e ficam muito voltados para as máquinas e o entretenimento. Eu não tenho uma busca dessa classe. É mais a juventude mesmo.

Início da profissão de atriz

Em uma outra conversa, você revelou que virou atriz por causa do racismo da igreja católica. O seu sonho era ser um anjo na igreja, mas não deixavam porque você é negra. Agora com as críticas positivas sobre o seu trabalho, como você vê esse momento do passado?

Eu vou me emocionar sempre com essa história. Eu queria volta muito voltar na cidade de Barro Preto, estar com essa pessoa e agradecer por essa profissão que ela me deu. Eu não sei mais falar disso sem chorar. Ela sempre me dava a poesia: ‘não se preocupe porque no fim você vai dizer a poesia’.

Na cidade, as pessoas perguntavam se eu já tinha dito a poesia e saiam correndo para me ver. As pessoas choravam e se emocionavam muito. Ali nasceu uma atriz dramática. Eu tive outros anjos que me ampararam e me trouxeram para esse lugar que estou.

A Zefa é uma mulher incolor com as roupas, mas você é completamente colorida. Como administra essas duas personalidades diferentes?

Pois é! A Zefa é uma colcha de retalhos. Eu tenho pegado de várias mulheres que pontuaram a minha vida, mãe, avó, outros personagens, e costurei essa mulher que de incolor não tem nada. A Zefa é contida. Espero que ela “solte a franga” lá adiante.  Eu sou estilista, além de ser atriz. Foi o meu plano B para sobreviver, porque no nosso país sobreviver de arte ainda é um sonho.

Nunca estudei moda, assim como nunca estudei teatro e cinema. Eu sou autodidata em tudo que faço. Eu me virava para vestir, sempre fui diferente. Já vendi roupa na porta do Teatro Castro Alves e quando eu chegava as pessoas falavam que iam comprar na hora.

Outros talentos

Você desenha os modelos das roupas?

Eu só crio, não desenho. Não tenho nenhuma habilidade com as mãos. Se eu tivesse seria até demais. Como eu tivesse filhas, elas viraram minhas bonequinhas, minhas modelos. Eu aprendi a ver a roupa como uma indumentária de elevar a autoestima. Sou africana pela cor do pano quando eu cheguei aqui é isso. É preciso mostrar a minha africanidade, eu estou presente, eu estou aqui. Eu cheguei e cheguei bem, estou bem vestida.

Eu lembro de uma citação do Chico Xavier em que ele dizia que sempre andava penteadinho e com óculos, todo bonitinho, porque não temos o direito de sairmos por aí agredindo as outras pessoas com a nossa feiura. Eu achei genial! Esse cara é incrível! Então, eu sei batom estou sem boca. Eu gosto disso, de balangandãs.

Você ainda atua como estilista ou engavetou esse plano B?

Eu mexi por muito tempo na cena alternativa de Salvador da música e as mulheres que não tem medo de ousar. Depois eu partir para for man, criei uma coleção para homens. Hoje eu trabalho com transgênero, não tenho gênero. Não está engavetado. Vou lançar a minha coleção de verão com um desfile no Vidigal (Rio de Janeiro). Foi uma proposta da Roberta Rodrigues, que vai estar com a gente no desfile.

Representatividade

Você é muito pé no chão e já afirmou que não gosta de ser colocada em um pedestal? Por quê? É mais fácil ser derrubada de lá?

Eu acho que se você souber chegar, ninguém te derruba. Você só chega no lugar que é seu. Se tiver de ser, o pódio de chegada vai ser seu e você vai estourar champanhe com quem quer. A questão de ter pé no chão é uma coisa que preciso falar agora, que é a questão da representatividade. Eu não quero ser porta-voz do preto, não quero esse título. Acho que todos nós pretos temos que ter voz.

Estou cansada de falar de representatividade porque está na hora de acabar. Não queremos mais ser representado, queremos fazer. A voz do preto é potente. Só precisamos de escuta, que podemos trocar também por oportunidade. Não adianta chegar nesse pedestal e servir porta-voz. Eu não quero! Eu quero ficar aqui embaixo na pipoca.

Você é uma pessoa muito positiva, alegre. O que te tira o sério?

O egoísmo, a fome. A fome me tira muito do sério. Eu acho que nasci com as mãos estendidas para o amor. A gente conhece uma conexão quando é de verdade.

Família Ahayde

A Zefa valoriza bastante a união familiar. Você acredita que o amor ainda pode unir a família Athayde?

A ideia que Zefa tem de família é muito complexa. Zefa acredita que aquela família é dela, mas ela não pertence à família. Ela pertente a casa. Ela é um utensílio da casa. É uma mulher que nunca sentou na mesa. Nós fizemos uma cena recente em que a Manu (Luisa Arraes) exige que ela sente no sofá e foi um ritual. O diretor abriu aspas e disse: ‘é ritualístico essa mulher sentar nesse sofá’.

Ela quer juntar, mas eu sei que ela tem essa força e potência. Ela acredita nisso e vai conseguir. Eu acho que a redenção vem dela, vem da união dessa força. Ela acredita naquela família que não acredita nela.

As “Zefas do Brasil” de abordam nas ruas? O que falam para você?

São ótimas! São mulheres desaforadas, de fibra. Mulheres que trabalham, labutam. Eu tenho recebido o carinho dessas Zefas, dessas mães, dessas avós, dessas guerreiras. A gestação de Zefa é na cabeça. Ela acredita que aquela família é dela, mas não é uterina.

Vida pessoal

Quem é a Claudia Di Moura?

Sabe que eu também não sei. Eu nasci da simplicidade de um casal, de uma mãe amorosa e de um pai intelectual. Eles tinham uma diferença de idade de 16 anos. Então, galera não se acanhe porque é possível. Meu pai era mais jovem que minha mãe 16 anos, e eles se apaixonaram perdidamente. Meu pai era um tira de polícia, mas ele era um tira poético. E eu sou essa mistura. Nasci desse casal e trago comigo um traço de amor e de fé.

Acho que tudo que fiz até aqui, eu venci através do amor e da fé. O amor pelo os meus amigos, o amor pelo o meu próximo. Eu acho que tenho comigo um talento que, às vezes, me assusta. Eu tenho talento para achar talentos. Por isso eu digo que atraio esse tipo gente que me interessa, gente que vai continuar me formando.

Claudia como mãe

Você disse que é filha de uma mãe amorosa. Essa característica também está em você como mãe?

Ah, eu sou mais filha do que mãe. Minhas filhas são maravilhosas, eu que sou a por@# louca da família. Eu tenho uma história muito bonita. Adotei a minha primeira filha com 15 anos de idade. Meu pai era delegado, então na cidade tudo podia. Naquela época, estamos falando de uma outra época.

Hoje, Deise (38 anos) é Doutora em Geografia, dá aula em uma universidade de Vitória da Conquista. Depois veio Yasmim (28 anos), que é uma filha adotiva também, que faz Nutrição e tem uma empresa fitness. E Vitória (23 anos), que é minha filha biológica, está terminando Psicologia e é bicampeã baiana de fisiculturismo.

Se não fossem essas meninas, não sei onde eu estaria e se estaria aqui com vocês. Porque elas são realmente o meu Norte, Sul, Leste e Oeste. Somos amigas, cúmplices. Às vezes elas são minhas mães, eu viro complemente filha delas. Criei dizendo: ‘não julgue e não minta’. Está tudo certo lá em casa.

Sonhos

Você já reencontrou alguém do passado que disse que você não realizaria seus sonhos?

Eu até comentei com meu assessor de impressa e ele me deu o termo disso, mas eu esqueci. Eu já cheguei como protagonista. É um peso para mim, não é uma virtude, mas eu já cheguei com uma responsabilidade muito grande. Não lembro de ter feito um outro personagem que não fosse protagonista. Eu nunca ouvi alguém me dizer: ‘você não vai’. Muito pelo contrário, desde menina eu ouvia: ‘essa menina é diferente. Essa menina é assombrosa’. Eu cresci assim.

Talvez isso tenha me levado para aquele lugar da disciplina, que eu não podia perder, que eu tinha que reforçar. Eu comecei a cercar das coisas que podia anexar ao que as pessoas me indicavam. Tive alguns prêmios em que fui indicada e que não ganhei, e eu sabia que estava sendo injustiçada. Mas ganhei outros tantos. O prêmio não é tão importante para a gente, só está dizendo um pouco do que fizemos.

Experiência em primeira novela

Segundo Sol é a sua primeira novela. Como está sendo essa experiência?

Eu sempre fui de teatro. O negócio é bom. É desafiador por conta do volume de texto, da velocidade que são as coisas e da linguagem, mas eu estou gostando muito de fazer. É muito interessante e desafiador. É uma obra aberta, aí chegam os adendos, seu personagem vai para outras zonas, passeia em outros lugares que você não tinha se preparado, não tinha imaginado que ele podia chegar. Tem sido bem divertido e eu estou aproveitando. Estou muito gratificada.

Você tem algum ritual antes de entrar em cena e para a própria vida?

Eu não tenho mais dúvidas, eu sou a filha caçula de Deus. Deus passa muito a mão na minha cabeça. A minha conexão é muito direta com ele. Todas as vezes que eu entro em cena no teatro ou na TV, eu peço para ele fazer a cena. Eu sei que não estou fazendo. Às vezes até eu me encanto com o que estou fazendo. É muito espiritual. Essa relação, essa força e essa verdade não são minhas. Eu sei que não é.

Referência

Como é ser referência para tantos jovens atores?

Eu não sei. Gostei esse lugar com muita humildade e verdade. Eu sempre soube escolher o que fazer, nunca tive medo de dizer não. Lá em Salvador, as pessoas me conhecem como uma atriz empreendedora. Eu sou compositora do meu trabalho. Eu componho o meu trabalho, a minha partitura e convido a minha equipe. Sempre foi assim, talvez por medo de povoar os seus sonhos, os sonhos do outro.

Claro que eu já fiz trabalhos com outros diretores, já me envolvi em projetos de outras pessoas. Mas, naturalmente, se você me vir envolvida em um espetáculo de teatro, com certeza é o meu trabalho pessoal, particular, intransponível. Aí eu me jogo inteira e tenho a liberdade de escolher com quem quero trabalhar.

Você tem um sonho profissional na TV? Um personagem que gostaria de interpretar?

Eu quero muito fazer e vou brigar muito para isso. Vou fazer o teste porque já soube que vai acontecer, e é uma minissérie chamada Defeito de Cor. E eu vou fazer essa mulher. Já estudo esse livro (de Ana Maria Gonçalves) há muito tempo, é a minha pesquisa diária. Soube que Rede Globo já está com os direitos e eu queria muito ter a oportunidade de fazer esse teste.

*Entrevista feita pelo jornalista André Romano

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