Bruno Mazzeo explica diferença entre Novo Mundo e Filhos da Pátria: “Não usamos personagens históricos”

Publicado há 3 anos
Por João Paulo Reis
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Bruno Mazzeo é o criador de Filhos da Pátria, nova série que estreia na Globo em setembro e já está disponível na Globoplay. A comédia que faz uma crítica à corrupção atual e traça um paralelo com o Brasil na época de sua independência, conta com um elenco de estrelas como Alexandre Nero e Fernanda Torres. Bruno, conversou com nossa reportagem durante o evento de lançamento da série que aconteceu nesta quinta-feira (03) no Rio de Janeiro. Confira:

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Você acha que a série chega a se confundir com o que estamos vivendo no cenário político atual?

Sim. Muitas vezes enquanto estávamos escrevendo percebemos relação da época que estávamos falando com hoje em dia, assim como também fizemos o caminho inverso, começamos a pensar no hoje e tentando buscar lá atrás. Claro que tem algumas coisas que colocamos propositalmente como a questão de Maricá, então tem várias alusões mas não dá pra dizer que é sobre um fato específico. A série está completamente ligada aos tempos atuais muito organicamente, sem forçar a barra, infelizmente.

E o momento da estreia dela, exatamente no meio desse turbilhão…

Quando terminamos de gravar no fim do ano ficamos com medo que ela ficasse defasada, mas muitas coisas curiosamente ficaram mais próximas ainda.

O que você acha dessa triste coincidência?

Eu acho uma pena como brasileiro, só posso lamentar que estejamos falando de 300 anos atrás e perceber que tão pouca coisa mudou. A situação que vivemos hoje não começou há 13 anos atrás, nem ano passado. É natural que fique rolando essa relação, e é legal que isso aconteça. Isso faz parte da nossa essência mesmo, fomos condenados à esperança.

Como foi a escolha do elenco?

De cara a Fernanda Torres, que para mim é a maior atriz do Brasil. Tinha dado para ela ler como curiosidade, passou um tempo, ela me ligou e falou “Se for rolar, vou me candidatar a Maria Tereza”. Poxa, uma candidatura de Fernanda Torres já está eleita. O Alexandre Nero, eu tinha acabado de fazer uma novela com ele, e ele faz muito bem esse tipo de sujeito transtornado, angustiado, e assim fomos montando. Tinha visto a Jessica Ellen em Justiça também e adorei.

Você se inspirou em políticos reais?

Para compor personagens não, mas em estilos sim. Durante os episódios vamos ver referências a pessoas que estão aí hoje em dia fodendo a nossa vida, mas eu não diria um em específico. A questão da corrupção nas construtoras por exemplo, sempre teve isso no Brasil, reforma de porto de não sei onde, então infelizmente esse modus operandi faz com que pareça que os personagens são pessoas de hoje em dia.

De onde surgiu essa ideia da trama central da série que trata do suborno do personagem do Alexandre Nero?

Como a gente queria falar dessa essência do brasileiro, o momento da independência era ideal porque foi quando os portugueses saíram e o Brasil virou realmente dos brasileiros, até então a gente se submetia a Portugal o tempo inteiro, motivo de descontentamento de Dom Pedro. Aí quando ele declarou independência, o que a gente fez? “Já que é nosso, é tudo nosso” (risos). E aí estamos sempre envolvidos com reformas, obras, isso é um clássico do país.

A série se passa em 1822, época em que não existia o samba, no entanto a trilha sonora é cheia de samba.

Não sei, já botei nos textos a indicação de onde entrariam essas músicas, infelizmente nem todas puderam entrar, mas eu queria achar músicas genuinamente brasileiras que falassem sobre os assuntos da série em suas letras, e ao mesmo tempo a intenção era colocar uma galera que não está no mainstream, então achamos essa linguagem bacana. Fizemos muita pesquisa sobre o tipo de música que cabia em cada cena, e que ouvimos tanto no dia a dia. Colocamos Dóris Monteiro, Bebeto, Clementina de Jesus e vários outros.

Você acha que essa série conversa diretamente com Novo Mundo que se passa numa época semelhante?

Eu não vi Novo Mundo ainda, mas acredito que sim de alguma maneira por se passar na mesma época. Me falaram que o final da novela é a independência do Brasil, exatamente o ponto que iniciamos a série. A gente teve uma ajuda imensa da equipe de produção de Novo Mundo para viabilizar nossa série. Existia uma cidade cenográfica de Liberdade Liberdade, que seria adaptada para a gravação de Novo Mundo, e nós entramos nesse meio em conjunto com a equipe de cenografia da novela e gravamos antes deles. Não é exatamente a mesma cidade, mas usamos muito daquela estrutura. Trabalhamos muito com computação também para mostrar a Baía da Guanabara, os Arcos da Lapa naquela época. A parte boa de virmos depois é que o púbico já vai estar familiarizado com aquela época, mas na série não usamos personagens históricos, apenas os citamos.

Quando você escreveu essa série?

Faz bastante tempo, porque existe todo um processo de aprovação dentro da empresa, então vai um piloto, reescreve, até o momento em que se define um número determinado de episódios para que possamos criar um arco inteiro, até porque a história acaba no último episódio. Eu comecei a elaborar a série há cerca de 4 anos, e fui descobrindo a maneira de falar sobre esse assunto, do jeitinho brasileiro de lidar com as coisas, até que fomos chegando na época em que se passa a série. Eu estudo História com meu filho de 12 anos, e ele estuda Dom Pedro por 1 semana, a escola não aprofunda. Hoje em dia temos livros pop, e escritores falando sobre o lado B da história, então juntamos tudo isso. Não tenho pretensão de dizer que estamos explicando esse “jeitinho”, mas levantando outras questões pra gente pensar um pouquinho, coisas que vivemos tão cotidianamente que acabamos não percebendo.

Bruno Mazzeo e os diretores de Filhos da Pátria, Joana Jabace e Maurício Farias (Divulgação/ TV Globo)

São quantos episódios? Existe possibilidade de próxima temporada?

São 12 episódios. Pensamos sim em fazer uma segunda temporada, mas com outra história e outra época do Brasil, porque cada época é um renascimento. A independência é apenas um dos recomeços do Brasil. O Brasil vive recomeçando na esperança do “agora vai”. Foi assim na república, era Vargas, Estado Novo, Juscelino, mas esse “agora vai” nunca chega.

Como foi a pesquisa para fazer algo nesse período histórico?

Eu já tinha lido algumas coisas, mas quando iniciamos o projeto, meus parceiros autores e eu fomos atrás de livros específicos sobre cada assunto, por exemplo, sobre a imprensa do Brasil nessa época, sobre a criminalidade do Brasil nessa época, a burocracia, então fomos nos informando, e tivemos também um professor nos acompanhando. A cada episódio que bolávamos, buscávamos fazer uma ligação com a verdade, e pesquisávamos muito, o que é bastante prazeroso. O personagem Geraldinho (Johnny Massaro) por exemplo vive na janela de casa, e fazemos uma relação com as redes sociais de hoje.

O Maurício Farias, diretor da série disse que você foi um visionário ao trazer essa questão política para o projeto…

Discordo dele, não fui visionário, isso é tão antigo que não previ nada.

Qual foi sua motivação para escrever a série?

Falar sobre a essência do brasileiro, o por quê as coisas aqui não funcionam. Tudo aqui é assim, e isso me incomoda profundamente. A série não é conformista do tipo “A gente é assim, vamos rir disso”, a ideia é criticar isso. Esses personagens são adoráveis porque são feitos por grandes atores, mas são abomináveis em suas personalidades, são tudo o que a gente não quer na nossa vida. Chegamos na parte da corrupção, no extremo desse jeitinho que está lá. Essa semana passamos por isso né (risos).

As telenovelas têm perdido muita audiência nos últimos anos. Você assiste novelas e séries?

Eu não sou um público de novela, nunca fui. Vi novelas muito pontuais, e eventualmente vejo o trabalho de algum colega mas não tenho o hábito de acompanhar. Séries eu acompanho mais, mas não estou vendo nenhuma no momento. A última que assisti foi Gipsy, da Netflix, porque estava querendo só passar o tempo. Mas acho que a gente bebe muito dessa fonte, são referências.

E você acredita que o caminho futuro está nas séries?

Difícil dizer isso porque a novela é um patrimônio nacional, e é o grande carro chefe da Globo. Acho realmente difícil a novela ser superada, talvez o que possa acontecer é a novela ter uma leve mudança no formato, mas morrer ela não morre. Conheço tanta gente que não sai de casa sem ver a novela (risos).

Você tem algum trabalho como ator para ser lançado em breve?

No cinema, tenho o filme Chocante, que estreia 5 de outubro, na televisão, Escolinha do Professor Raimundo e no teatro continuo com 5 Minutos de Comédia.

Como é para você ser pai de gêmeos?

Estou muito em casa com eles, e como estou escrevendo muito, acabo ficando mais em casa. Eu não sou pai de primeira viagem, então pode jogar para mim que eu faço tudo, troco fralda, dou banho. Mesmo sendo gêmeos, eles são muito diferentes entre si, já dá para notar que cada um tem uma personalidade.

*Entrevista realizada pela jornalista Núcia Ferreira

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