Autora sobre Os Dias Eram Assim ser retratada em fase difícil do Brasil: “Contribui para enriquecer a trama”

Publicado há 4 anos
Por Endrigo Annyston
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Estreantes como autoras titulares, as cariocas Angela Chaves e Alessandra Poggi têm uma longa trajetória como roteiristas na Globo. Angela Chaves, 50, é formada em Letras e mestra em Literatura Brasileira pela UFRJ. Autora de livros infantis, começou na emissora compondo a equipe do ‘Você Decide’ (1997). Colaborou com Gilberto Braga em ‘Celebridade’, e com Manoel Carlos nas novelas ‘Páginas da Vida’, ‘Viver a Vida’ (2009) e ‘Em Família’ (2014). Foi também coautora da minissérie ‘Maysa – Quando Fala ao Coração’ (2008). Recentemente, esteve na equipe de ‘Rock Story’, de Maria Helena Nascimento.

Alessandra Poggi, 43, é formada em Jornalismo pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira pela PUC-Rio, trabalha na Globo desde o ano 2000, onde começou no programa ‘Gente Inocente’. Escreveu várias temporadas como colaboradora de ‘Malhação’ (de 2003 a 2010), de onde saiu para integrar a equipe de Miguel Falabella na novela ‘Aquele Beijo’ (2011), e nas séries ‘Pé na Cova’ (2013 a 2016) e ‘Sexo e as Negas’ (2014).

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Confira entrevista:

De onde surgiu o desejo de contar a história de ‘Os Dias Eram Assim’?
Angela: ‘Os Dias Eram Assim’ nasceu da vontade de contar uma história de amor forte como o tempo e apesar do tempo. É também o desejo de falar um pouco do período histórico pouco abordado na nossa teledramaturgia e que é bem recente. Como seria começar uma história de amor ali entre apaixonados de duas famílias opostas? Separado contra a vontade, como seria quando o casal protagonista se encontrasse, numa outra época, de mais liberdade?
Alessandra: Queríamos contar uma história de amor de um casal jovem que, após muitos anos separados, se vê diante da possibilidade e também das impossibilidades de recomeçar. Partindo daí, decidimos situar o início desse romance em 1970, ano de Copa do Mundo, época dos movimentos de vanguarda, da contracultura. Aproveitamos esse cenário político e cultural como pano de fundo da história de Renato e Alice. Vamos acompanhar a vida deles atravessando os anos de chumbo, passando pela anistia política e chegando até a campanha pelas Diretas Já, em 1984, ano em que a maior parte da trama se concentrará.

Como foi desenvolver uma história de amor em que o período histórico do país determina seu curso?
Angela: O foco principal é o romance, o amor entre dois jovens que são separados por causa da intolerância familiar e da situação do país, que permitia a existência de pessoas como o delegado Amaral. O folhetim está sempre em primeiro plano, mas os personagens estão inseridos num contexto histórico importante e lutam, cada um à sua maneira, pelos ideais que acreditam.
Alessandra: ‘Os Dias Eram Assim’ é uma história de amor em que os protagonistas são separados por uma armação dos vilões. O fato de ser contada numa época turbulenta da nossa história contribui para enriquecer a trama.

Os protagonistas, Alice (Sophie Charlotte) e Renato (Renato Góes), sofrem uma separação brusca e ficam distantes por mais de uma década. De que forma o tempo age sobre o amor dos dois?
Alessandra: Eles nunca vão se esquecer um do outro, pois foram separados no auge da paixão de uma forma muito traumática. O tempo e a distância vão amenizar o sofrimento e deixar aquele sentimento adormecido. Quando se reencontrarem e descobrirem o que realmente os separou, o amor voltará a falar alto e a chama se reacenderá.
Angela: Há uma frustração muito grande em ambos, um sentimento de interrupção pela separação abrupta, e um luto vivido de forma diferente por cada um. Eles seguiram em frente, mas, mesmo com o passar dos anos, não encontraram nada que se comparasse àquela experiência anterior. Não que o tempo tenha congelado para eles, ambos viveram suas vidas. Mas o amor é insuperável, continua pulsante e vai explodir no reencontro.

Alice (Sophie Charlotte) e Renato (Renato Góes) são separados por questões externas, alheias ao desejo deles. Quando eles se reencontram, no entanto, os impedimentos são outros.
Alessandra: Renato estará casado com a médica Rimena e terá um filho com ela, Valentim. Alice estará casada com Vitor e será mãe de dois filhos, Lucas e Gabriela. O mais velho é filho biológico de Renato, cuja paternidade Vitor assumiu como desculpa para levar Alice ao altar. Ficarem juntos significa desestabilizar todas essas relações. Será preciso desconstruir para reconstruir. Estarão dispostos a isso?
Angela: Como em todo folhetim, os grandes impedimentos serão armados pelos antagonistas. No entanto, Renato e Alice são adultos e respeitam a força dos compromissos que assumiram. Não é tão simples viver um amor se ele significar causar sofrimento a outras pessoas que fazem parte da vida deles agora.

Vera (Cássia Kis) é chantageada por Arnaldo (Antonio Calloni) e acaba se envolvendo numa farsa que afeta diretamente a vida dos filhos. E nessa mulher e mãe, como esse episódio reflete?
Angela: Vera faz uma escolha, aceita mentir. Num primeiro momento pode ser compreendida, mas sustenta a mentira por anos, é cruel às vezes, porque não suporta que seu filho se envolva com a família Sampaio, que odeia. Vera é intolerante também, do seu jeito. E age de maneira impiedosa com Alice. Tem caráter, grandeza, mas é humana, então erra, e faz escolhas das quais se arrepende por sua própria rigidez. Isso é o mais fascinante nela, sua força e ambiguidade.
Alessandra: Vera é uma mulher forte e corajosa. Mãe atenciosa e protetora. Quando se vê diante da possibilidade de salvar a vida de um filho, ainda que para isso seja necessário prejudicar a vida amorosa do outro, não pensa duas vezes e aceita o trato proposto por Arnaldo. Durante 14 anos ela vai guardar esse segredo de Renato. Vera em nenhum momento se arrepende de ter aceitado esse acordo, mas carrega a culpa de não ter revelado a verdade para o filho assim que ele volta ao Brasil.

Vitor (Daniel de Oliveira) é um homem obcecado pela namorada, Alice (Sophie Charlotte), capaz de tudo para não perdê-la. Socialmente, no entanto, consegue esconder esse lado vil, inclusive dela. Falem um pouco sobre ele.
Angela: Vitor é um garoto mimado, um homem que não suporta perder. Alice é seu troféu. Ele ama Alice, mas de uma maneira doentia, não aceita ser preterido. A vida, pra ele, é uma competição e, pra ganhar, vale tudo. A princípio movido por interesse financeiro, quer poder e dinheiro. Mas depois seu interesse é emocional. Ele depende daquela família que construiu. Ele gosta dos filhos, ele gosta de Alice. Poderia se separar, mas não aceita, não suporta não ter o que quer.
Alessandra: Vitor é um vilão ardiloso, astuto, oportunista e manipulador, que se esconde por trás de uma máscara de homem de família, cidadão respeitável e profissional de sucesso. A obsessão por Alice e a necessidade de se reerguer financeiramente vão levá-lo a idealizar um plano para separá-la de Renato. É dele que nasce a ideia do trato que Arnaldo propõe a Vera. Vitor só se mostra como realmente é na frente da mãe, Cora.

Chama a atenção a forma como se dá a relação entre Vitor e Cora (Susana Vieira), nada afetuosa. O vilão é incapaz de chamá-la de mãe, por exemplo. Qual influência Cora tem sobre esse filho?
Alessandra: Vitor perdeu o pai ainda menino e foi criado por Cora como um rei. Cora sempre lhe fez todas as vontades e o preparou para ser um vencedor. Foi ela quem o ensinou a chamá-la pelo nome próprio. Ela é quem não gosta de ser chamada de mãe ou de avó. Cora é a pessoa que estimula, alimenta e impulsiona os desejos de Vitor. O problema é que muitas vezes ela passa dos limites quando não reconhece a hora de afastar ou de se calar. E isso o deixa muito irritado. Ainda assim, ela é compreensiva diante de seus rompantes e sempre lhe dá razão.
Angela: Não é uma relação simples. Vitor trata mal a mãe, mas depende dela emocionalmente, ela é sua principal aliada, sua força, sua torcida particular e incondicional. Cora é confidente, mentora e amiga. Chamar de mãe, na cabeça deles, seria pouco pra dimensão que ela tem na vida dele, seria redutor para ambos. E ela gosta de ser “Cora”, incentiva. Mas esta forma de tratamento só evidencia a complexidade de uma relação pouco equilibrada, nada saudável, mas intensa.

Como está sendo a parceria com o diretor Carlos Araújo?
Angela: Ótima! Foi uma sorte ter o Carlos Araújo como nosso diretor, ele é empolgado e muito dedicado ao projeto. Desde a primeira conversa, quando a gente nem se conhecia, a sintonia foi imensa.
Alessandra: Fazemos reuniões, conversamos, a parceria é afinada. Ele nos escuta e traz ideias que ampliam o que pensamos e acrescentam força à história. Tem sido muito bacana.

Que mensagem vocês esperam passar com ‘Os Dias Eram Assim’?
Angela: Em primeiro lugar, espero que as pessoas se emocionem, que sintam a força dos personagens e de seus dramas, que vibrem com eles, torçam. Que embarquem na aventura de cada um, de Renato, Alice, Gustavo, Vítor e tantos outros. São todos personagens intensos e românticos, porque transbordam desejo e transgressão. A partir daí, que reflitam sobre a importância da liberdade, da tolerância e da democracia.
Alessandra: Que em nome do amor não devemos disseminar o ódio. Que em nome da liberdade, não devemos apoiar a violência. Que para haver respeito, é preciso por um fim no preconceito. E que devemos lembrar sempre dos nossos erros para que eles nunca mais se repitam.

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