“As pessoas devem mudar e melhorar todos os dias”, diz Roberta Rodrigues sobre as mudanças de sua personagem em Cidade dos Homens

Publicado há 3 anos
Por Greicehelen Santana
Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Roberta Rodrigues apresentará uma nova fase da Poderosa, personagem vivida há 13 anos em Cidade dos Homens, na nova temporada da série em janeiro de 2018. Longe da influência do mundo do tráfico, a moça agora é evangélica e retorna à trama para tentar uma reaproximação com o filho, cujo pai é o Laranjinha (Darlan Cunha). Ao Observatório da Televisão, a atriz falou sobre a emoção de reviver e construir essa nova Poderosa. Confira a entrevista.

Leia também:Globo 2017: emissora emplaca novelas de sucesso

Continua depois da publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Fale um pouco sobre a volta da sua personagem na trama…

A Poderosa era uma personagem louca, desvairada na comunidade que queria curtir a vida independente de qualquer coisa e se envolvia com os marginais daquele lugar, e ela volta 10 anos depois, querendo rever o filho. Eu acho muito legal, porque, normalmente, quando se fala em ‘Cidade dos Homens’, as pessoas esperam a questão da violência, e essa mulher volta querendo rever esse filho, querendo tomar o lugar como mãe, num momento em que fica sabendo que teve um tiroteio e atingiu a escola do filho. E, eu fiquei me perguntando como essa mulher iria se redimir perante a esse filho e ao Laranjinha, que ficaram esperando por 10 anos. Ela é uma mulher que viveu tudo aquilo, mas que as pessoas podem se transformar, as pessoas devem mudar e melhorar todos os dias. Não é nem uma questão de ter esperança, mas é porque o ser humano é assim, a gente erra aqui, depois passa um ano e vir que poderia ter feito diferente. Eu fiquei muito feliz por ter sido convidada para voltar para ‘Cidade dos Homens’, porque é um xodó, eu confesso.

Qual a importância dessa produção para você?

A gente pode fazer mil coisas, mas ‘Cidade de Deus’, ‘Cidade dos Homens’, é algo que move alguma coisinha dentro da caixinha que é diferente, é como se fosse o primeiro filho, e eu fiquei muito feliz de voltar redimindo essa mulher, transformando ela em uma pessoa melhor, não que ela tenha perdido a essência dela da alegria, da vaidade. Mas ela descobriu que tem outros caminhos, um caminho mais legal para se trilhar. Esse encontro é bem emocionante, dela ter essa responsabilidade de ter que mostrar para o Laranjinha e para o filho, que ela é apta a ter o filho de volta. É um processo, e vocês vão ver que a gente passa esse processo muito curto, de muita turbulência, mas é lindo de ver o desfecho de ter uma esperança de algo melhor.

A Poderosa volta evangélica. E existe uma cultura evangélica muito forte nas comunidades e que nem sempre aparece representada na imprensa. Como foi a sua preparação para essa nova identidade da Poderosa?

Eu conheço muitas pessoas evangélicas dentro da comunidade do Vidigal. Eu recebi a religião para essa personagem, como algo que não fosse a justificativa dessa mulher mudar, porque eu acho que o ser humano deve mudar por si só. A Poderosa volta evangélica, grava um CD e se transforma em uma cantora, o sonho dela era ser cantora, e a religião para ela é como se fosse um carinho. Eu acho que a religião é algo que cuida e que lhe faz se sentir bem, e não pode ser uma doença, você não pode ser alienado. Eu recebi essa questão de ser uma evangélica para a Poderosa, como ela ter descoberto que queria ser o melhor e que precisava de um caminho, de palavras. A religião é como se fosse um psicólogo dela, algo que centra e deixa ela preenchida de esperança. Eu não quis receber a religião como um fanatismo, porque eu acho que o fanatismo leva a ter preconceito ao próximo, e eu acho que a religião não está ligada a isso, a religião é algo mais livre, eu acho que é o amor.

Ela reconhece que o Laranjinha foi um bom pai durante os 10 anos, em que ela esteve fora?

Eles vão para o juiz, e eu acho super justo ir para o juiz. Ela agradece porque ele cuidou muito bem do filho, tanto que é um menino do bem, foi um menino bem-criado e bem cuidado. Mas ela sempre vai conviver com essa falha e o filho sempre vai saber que ela ficou 10 anos, sem vê-lo, eu acho que não tem dor pior que essa, de ter que conviver com isso, independente de ser a mãe ou o pai. O remorso é realmente o que mata.

Você acredita que a Poderosa sofreu por ter abandonado o filho?

Essa mulher assume essa responsabilidade de que passou 10 anos fora, ela nunca omitiu isso, mas ela deixou com o pai. Ela não era uma boa pessoa naquele momento, e o que ela ia fazer com aquele filho? Ela ia levar o filho para a loucura? Então, vamos para a rua, passar fome, passar necessidade? Não! Ela também abriu mão por amor. Às vezes o amor está nas maiores dores, às vezes você tem que abrir mão de coisas. A Poderosa vai embora porque ela é envolvida com o tráfico e porque ela sabe que não vai ser uma boa influência para o filho naquele momento, e volta no momento em que ela está inteira. Claro, que os 10 anos, ela nunca vai recuperar, ela nunca viu o filho andar, não trocou fralda, ela não sabe a história dele, não sabe qual vacina ele deixou de tomar, mas ela quer construir uma história. Eu acho muito mais corajoso essa mulher voltar, muito mais digno ela reconhecer o erro, que é tão difícil para o ser humano, mas falar que estar ali.

A maternidade ajudou a você amadurecer como atriz?

Eu fico muito feliz de ter voltado no ‘Cidade dos Homens’, fazendo uma mãe, porque quando eu acabei ‘A Regra do Jogo’, eu engravidei. No processo da minha gravidez, quando a minha filha nasceu, eu refleti muito nesse tempo, que você fica meio sozinho, onde todo mundo ficava querendo saber se eu ia voltar (para TV). Refleti cada personagem que eu fiz na minha vida, e minha filha me moveu a pensar que a partir de agora, eu quero sentar e estudar meu personagem, ver se o personagem é bom para eu fazer, ver a história que eu estou mandando, porque eu represento uma galera. Eu preciso trabalhar, preciso ganhar dinheiro e porque é a única forma de se aperfeiçoar. Não desmerecendo os personagens que fiz antes, eu amei todos e sou grata, mas a partir de agora, eu estou analisando. É uma pessoa de comunidade? Tudo bem, mas ela não vai falar errado. Ela é de comunidade, mas ela tem uma conscientização, ela estudou.

E como você encara a questão da representatividade da mulher negra na televisão aberta? A personagem da Camila, por exemplo, assume o controle da casa, porque o Acerola está desempregado…

A gente carrega muita responsabilidade, nós que somos mulheres negras de comunidades e atrizes. Independente se eu for morar em qualquer lugar hoje, as pessoas vão sempre me tachar e eu sempre vou ser a Roberta que é aquela atriz negra. No documentário do ‘Cidade de Deus – 10 Anos Depois’, eu falei que não quero fazer uma personagem de advogada negra, eu não quero fazer a médica negra. Eu quero fazer a médica porque eu sou atriz, o meu DRT é igual ao das outras atrizes, não tem cor diferente, nada diferente. Temos que ter o negro, sim, na televisão, negros nas séries, a gente precisa ser representado. Acho que a gente pode melhorar muito isso, a gente precisa que seja uma seleção natural e não uma obrigação. ‘Cidade de Deus’ foi um grande sucesso, e não foi só porque havia negro, foi uma história de uma comunidade, e na comunidade 90% são pessoas negras. Então, a gente contou aquela história, mas a gente pode contar qualquer outra história.

Cidade dos Homens é um marco histórico para a questão da representativa negra no audiovisual com um olhar afetivo, e esse pioneirismo está completando 15 anos. O que você acha que mudou de lá para cá nessa questão da representação do negro na TV?

A história já vai para um outro lado, para o lado da amizade, dessa mãe que volta, dessa coisa família. A gente vive num momento hoje, em que eu acho que está muito presente essa questão de voltar com o conceito de família independe de gênero, mas do fraterno. Acho também que agora a gente tem que dar outros passos, espero que a gente tenha mais 15 temporadas, e que fique mais um ano com ‘Cidade dos Homens’, para a gente ter uma evolução também nas histórias desses personagens, falar de outros assuntos. Eu me dou como exemplo, eu sou uma pessoa nascida e criada na comunidade, onde a minha história é até meio atípica. Eu fiz nado sincronizado dos 06 aos 16 anos, joguei futebol um período, abandonei tudo e resolvi fazer teatro. Fiquei fazendo teatro no ‘Nós no Morro’, sem nenhuma perspectiva de ser famosa, não tinha noção disso, e as coisas aconteceram na minha vida. Eu não dei sorte, eu aproveitei as minhas oportunidades, porque a vida também te dá oportunidades, depende também muito de cada um. Eu acho que chegou em um momento das próximas temporadas da gente falar da questão da violência nas comunidades, mas também ir para outros caminhos. O Douglas falou uma coisa que é perfeita, essa é uma questão da sociedade. Aqui não têm histórias diferentes, eu só nasci ali (na comunidade), mas todo o processo que acontece ali ou aqui embaixo (asfalto), um complementa o outro. O brasileiro precisar começar a ter essa conscientização, principalmente no Rio de Janeiro, de que a favela é um todo. O Rio de Janeiro é uma favela, uma favela generalizada. A gente tem que parar com essa separação, porque é por isso que a gente não consegue entrar num acordo e estamos chegando num caos, numa calamidade. Essa história do cara desempregado tem um monte, a gente tem amigos que moram na Barra e que estão desempregados e desesperados, porque a gente vive num momento de crise. A bala perdida não é só dentro da comunidade, a bala perdida é em qualquer lugar. A gente pode estar sentado no Jardim Botânico, que é um lugar supertranquilo e em paz, e ouvir que teve um tiroteio. E quando a gente entender isso de verdade, sem hipocrisia, começar a reconhecer, porque eu acho que falta um pouco de reconhecimento de que estamos em uma só situação, que estamos todos sofrendo pela violência, pela falta de hospitais, pela falta de estudos, e no futuro, todo mundo vai pagar igual.

O que você acha que garante o sucesso dessa história?

Desde que começou ‘Palace II’, ‘Cidade dos Homens’ e ‘Cidade de Deus’, eu acho que o que faz ser um grande sucesso, ser essa coisa que todo mundo gosta de ver, ter esse frescor, é que tem a questão de o diretor ter consciência de que o ator também tem direito a falar. Eu acho que a arte é feita assim, na vida tudo tinha que ser feito assim, a gente tem que ouvir a outra pessoa, está todo mundo envolvido em prol de um só projeto e todo mundo fala a mesma língua. É muito legal você chegar no set e ver que o carinha do café é o mesmo, ver o da arte, e ver que todo mundo é responsável por essa história, não é só nós atores, e quem escreveu, quem dirigiu. O ‘Cidade de Deus’ veio com isso e a gente conseguiu manter em ‘Cidade dos Homens’. É isso!

Como é para você voltar depois de tanto tempo para uma produção que representa o início de sua carreira?

O ‘Cidade dos Homens’ é como se fosse a continuação de ‘Cidade de Deus’. E no ‘Cidade de Deus’,  a gente se descobriu família, foi muito legal, a gente não tinha essa coisa de ser famoso, ninguém sabia o que era a fama, o que era estar na mídia, nada disso. A gente só acreditou no projeto, amou esse projeto e fizemos com todo o carinho, então, ‘Cidade dos Homens’, foi a continuação disso. Continuamos todos amigos e em cada dia de filmagem era uma festa, a gente se divertia muito. Então, depois de 13 anos, voltar com o meu personagem, que eu nunca imaginei que ela seria mãe do filho do Laranjinha, é muito bom.

Você agora está vivendo essa maternidade. Você acha que te ajudou a construir essa nova fase da Poderosa? Comente um pouco sobre o seu amadurecimento…

Eu falei que agora todo mundo me bota para ser mãe. Tudo que estou fazendo, eu sou mãe, gente. Não tem problema. Foi muito legal para mim ter virado mãe, eu acho que nunca pensei nisso na vida. Todo mundo falava que quando eu fosse mãe, eu teria um sentimento diferente, que ia me transformar, que algo iria mudar, e eu achava bobeira, mas não é bobeira. Cada criança que passa na rua, você vê a cara do seu filho, cada coisa de violência, você sofre porque pensa no futuro do filho. Então, estar no ‘Cidade dos Homens’ como mãe, foi um presentão, foi poder demonstrar esse sentimento totalmente verdadeiro, não que não existisse, antes, eu já tinha feito uma mãe, mas eu acho que agora vem com mais força. Antes, eu imaginava e hoje ele é real, existe dentro de mim. Foi do jeito que eu queria voltar, eu falei que queria voltar fazendo algo diferente, mostrar uma vertente diferente de tudo que fiz. Foi um presente mostrar um personagem mais profundo, que mexe com emoções mais profundas.

As suas antigas personagens tinham características mais livres, de dançarina, funkeira, um lado mais cômico. Como é mergulhar nesse universo dramático?

É algo que eu nunca tive uma grande oportunidade de mostrar na televisão, e ‘Cidade dos Homens’, me deu esse presente, me deu esse retorno, depois da maternidade, de poder contar essa história que é tão forte. Ficou muito bonito.

Como foi conciliar as gravações com a sua filha, ainda tão pequena? Quando as filmagens aconteceram?

Nós gravamos em outubro. Faltando uma semana para a Flor completar seis meses, eu fui chamada para fazer uma participação. Daí, eu fiz o ‘Vai Que Cola’, e foi a primeira vez que deixei ela o dia inteiro. E eu fiquei chorando o dia todo, mandando mensagem para as amigas dizendo que não estava aguentando. Ela ficou com o pai e eu liguei para o meu marido perguntando como ela estava. Ele falou: ‘Roberta, relaxa! Vai fazer o seu trabalho, você estava louca para trabalhar. A Flor está aqui, e está ótima, não está nem lembrando que você existe’. Aí, eu levei um tapa na cara (risos). E foi muito importante, porque quando eu estava grávida, eu já pensava que tinha que criar a minha filha com maior independência, que não podia ser aquela mãe que mima, fica grudada, porque eu quero voltar a trabalhar logo, e ela já veio com isso. A Flor é muito tranquila, é uma criança que sempre vai para todo mundo, está sempre muito bem-humorada, nunca chora, só quando está com fome. É só dar comida e ela está bem, não lembra nem que tem mãe (risos). Mas foi muito importante, porque eu me descobrir uma outra Roberta, descobrir uma outra atriz. Eu acho que agora tenho muito mais bagagem, estou muito mais forte, eu já era muito forte, mas agora eu estou muito mais preenchida, quero mostrar outras coisas, novos desafios.

Fora ‘Cidade dos Homens’, você já tem outro projeto na televisão ou no cinema?

Eu estou com um projeto que está chegando e daqui a pouco vocês vão saber.

Vai deixar só na curiosidade?

Vou (risos).

Mas o público vai ver você em 2018 na televisão?

Com certeza! Porque eu quero trabalhar, não paro nunca.

*Entrevista feita pelo jornalista André Romano. 

Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio