“Após o CQC não tenho mais medo da câmera” diz Dan Stulbach que volta à Globo em A Força do Querer

Publicado há 4 anos
Por João Paulo Reis
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De volta à TV aberta e às novelas, Dan Stulbach será Eugênio, em A Força do Querer, um empresário que tem uma relação conturbada com os irmãos e que viverá em em família, o drama da descoberta da transsexualidade da filha Ivana, interpretada por Carol Duarte. O Observatório da Televisão bateu um papo com o ator para saber mais sobre esta nova jornada. Confira:

Você viverá o Eugênio, que é um empresário. Como foi a sua preparação e imersão no personagem?

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Muito prazerosa. Eu adorei ser chamado pra fazer a novela, adorei os companheiros que eu tenho porque a imersão passa muito pelos companheiros de cena que você tem. Eu tenho muitas cenas no começo da novela, que foram gravadas em Manaus e em Três Rios, cenas muito emotivas. A primeira cena que gravei de todas é a que meu filho cai no rio. Eu li todos os capítulos que eu recebi, e adorei. A história é boa, e eu vi muitos núcleos diferentes o que é muito bom, porque interessa a muita gente de classes sociais diferentes, de lugares diferentes e tem emoção, tem cor. Aí fui ver o meu personagem dentro disso tudo, tive a sorte de ser com a Maria Fernanda (Cândido), Fiuk, Carol, Humberto (Martins), o Rodrigo (Lombardi) eu conheci a milênios, a Carol Duarte fez EAD que é a mesma escola que eu fiz.

Qual sua relação com a equipe da novela?

Quando fui fazer as leituras de texto, a Gloria chegou pra mim e falou “Se você tiver qualquer coisa a acrescentar pode me falar. Você tem uma autora aberta ao diálogo”. Eu nunca liguei pra autor nem pra reclamar nem pra nada, mas é um privilégio saber que você tem alguém pra conversar, porque o autor de novela tem um trabalho miraculoso, sobretudo ela que escreve sozinha. E a nossa novela é feita de um jeito muito específico, a gente não usa ponto eletrônico como em outros países e a nossa novela brasileira tem uma ambição de qualidade que nenhuma outra novela tem no mundo. Tive essa surpresa do meu personagem gravar a primeira cena, essa do filho caindo no rio. Eu já tinha trabalhado com o Papinha (diretor Rogério Gomes) em Mulheres Apaixonadas mas você chega pra gravar e não sabe bem o que pode ou não pode, se pode dar opinião ou não. Aí a gente fez a cena, depois perguntei “Posso fazer de novo?”. Quis fazer outra vez com mais emoção em outro tom para que o diretor escolhesse. Você cria muita coisa antes, e quando você vai gravar você tem que chegar no mesmo tom, porque na semana que vem você precisará chegar nesse mesmo tom também.

Você ficou bastante tempo sem fazer novela não é?

Sim. Fiquei muito tempo sem fazer novela, eu fui criado assistindo, eu imitava todos os personagens. Eu quero fazer uma boa novela, não fiz antes porque não pintou nenhum personagem que se encaixasse e também porque ficar fora de São Paulo é desgastante, viver em função disso. Minha vida particular acaba sendo deixada de lado. Eu fiz muito mais séries, depois eu fui pra São Paulo, fui pra Band e fiz teatro que é onde me sinto completo.

E por que você aceitou fazer especificamente essa novela?

O fato de ser da Gloria e o fato do que li no texto me chamaram atenção. Eu gosto de personagens mais maduros e que tenham importância na trama, para que eu possa navegar pela emoção, e ter seriedade, cenas íntegras. É o personagem mais honesto, mas íntegro que já fiz na vida. Isso é bom ainda mais nesse momento do país. Ele quer ser advogado por uma razão nobre, não para ser alpinista.

A palavra ética foi muito dita por outros atores em entrevistas sobre a novela. Você acha que o querer passa pela ética?

Nenhum querer é ético! O querer vem de você e ele é aético e amoral. O que você se permite ou não fazer é individual. Ética é da sociedade e felizmente podemos discutir isso. Eu acho o máximo tratar do assunto da trans por exemplo, vou ter uma participação efetiva nesse assunto. Não sei ainda como vai ser porque ainda não li mas creio que o pai vai aceitar isso com maior clareza do que a mãe, que é a personagem da Maria Fernanda Cândido porque ele é inclinado pro direito, e sabe lidar com questões legais. Por minha iniciativa, eu entrevistei 5 trans. Estava no teatro, os chamei pra ver a peça e acabou que bati papo, filmei a entrevista porque eu queria aprender com o assunto, derrubar minha ignorância. E acho que o preconceito é filho da ignorância e você de repente está fazendo uma novela, que está chegando na casa de várias pessoas, e propor um assunto desse, esclarecendo o que as pessoas não entendem é uma possibilidade de você derrubar o preconceito ou diminui-lo, e isso engrandece minha profissão. Quando eu fiz Mulheres Apaixonadas foi assim também, era um grande personagem, era emotivo e ele podia mudar uma situação e mudou. É uma das funções da televisão, sem ser chata, didática.

O que você aprendeu neste encontro com pessoas trans?

Que nossos quereres são diferentes mas o desejo de felicidade é o mesmo. As vezes a religião, a lei, o preconceito dita a felicidade do outro e isso é errado, por ser maioria você não é o certo. Eu sei disso por ser judeu e minha família já sofreu preconceito, e sofre até hoje de certa maneira. Tentei entrar no universo e aprender de forma real, de maneira clara a diferença de gênero e sexualidade. Eu não queria fazer a novela sem conversar.

Você conversou com trans masculinos e femininos? Acredita que a Gloria está propondo uma discussão profunda sobre o assunto?

Conversei com trans masculinos e femininos. Não sei até onde a Gloria pretende ir. Eu li apenas esses 25 capítulos e não vou ler nada antes, vou lendo à medida que vamos gravando.

Não fica curioso?

Não fico, tento não reclamar, sou um bom aluno nessa área.

Vivemos na era do politicamente correto em que as pessoas nas redes sociais julgam todo momento. Recentemente um estado americano divulgou um boicote ao filme A Bela e a Fera após a Disney divulgar que haveria um personagem gay. Você tem medo do boicote à novela em relação à personagem trans?

Não tenho medo de boicote.

As pessoas estão mais caretas hoje dia?

O politicamente correto tem coisas boas, é uma alma de respeito à ideia da não-ofensa, acho válido mas há um exagero. Acho que o politicamente correto vai achar o seu lugar ainda. Boicotes e radicalismos sempre vão existir, as pessoas podem boicotar o que quiserem. É importante pelo menos que exista diálogo. Uma obra de arte se é boa, tem esse poder de propor a discussão e de fazer repensar uma opinião diferente. A Carol Duarte é uma ótima atriz, as cenas que temos feito têm sido incríveis. Delicadas, interessantes, e verdadeiras. É o melhor caminho que a gente tem. Não é uma aula, é arte.

E como isso está sendo feito?

A história está começando de maneira completa,  afinal ela é uma menina com toda a sexualidade chegando. Todos passamos por isso e ela se sente diferente das outras meninas, tem um relacionamento com um rapaz, e vamos começar do zero, mostrando a trajetória toda. Está muito bem escrito e não está didático, o público vai entender o que ela está passando junto com ela. Como acho a Carol ótima, ela tem todo esse lado de cativar as pessoas.

A mãe da personagem, interpretada pela Maria Fernanda Cândido não vai aceitar bem?

Eu acho que a personagem dela é mais vaidosa, e tem um sonho pra filha, aquela velha projeção que nossos pais fazem para que sejamos como eles ou que sejamos o que eles não foram, então ela não vai aceitar bem. Existirá um incômodo, e há uma imposição do meu personagem, Eugênio em relação ao Ruy (Fiuk), que quer que o filho seja como ele. Cada personagem tem um desejo muito claro, e os desejos na maioria das vezes não se encaixam.

Você apresentou o CQC, além do seu programa no ESPN. O que isso agregou à sua carreira?

Eu fui apresentador sem querer, eu tinha acabado de fazer Senhora do Destino, terminou a novela e eu queria fazer um projeto diferente. Eu gosto muito mais de fazer perguntas do que responder. Eu tenho mais perguntas do que respostas. Eu gosto da provocação e queria fazer perguntas que não tinham sido feitas. Daí comecei o programa de rádio na CBN, Fim de Expediente, e nunca imaginei que fosse durar 11 anos. Um dia a Fátima me ligou, achei que era trote, e foi uma surpresa apresentar o programa no lugar dela. Tinha feito Saia Justa antes como convidado depois fiquei fixo. No CQC era mais difícil porque não tinha TP nem nada, a câmera chegava e você tinha que dar a sua opinião e isso me forçou a falar melhor. Sou hoje melhor apresentador do que eu era antes, e sou melhor ator do que eu era. Não existe mais o medo da câmera, passei a conversar com ela.

Você ainda usa raquete?

Não uso (risos). Cara, outro dia decidi voltar a jogar tênis mas não deu certo por razões óbvias. O que me ferrou não foi dentro da quadra, e sim até eu chegar à quadra (risos). Apesar de não ter sido meu primeiro trabalho, Mulheres Apaixonadas foi o meu primeiro trabalho em grande escala e do fundo do meu coração, eu não tinha noção na época. Eu tinha que ter segurança na porta de casa porque tinha ameaça de morte, eu não era atendido na rua, em restaurante, as pessoas não sentavam do meu lado no avião porque era um outro grau de envolvimento até porque a gente não tinha TV a cabo, a gente não tinha internet, então foi uma das últimas novelas que tiveram oportunidade na TV aberta mais onipresente.

E o Dan produtor?

O que é bom do teatro é eu ser dono do meu projeto. Escolho a peça que eu quero fazer, com quem eu quero fazer, do jeito que eu quero fazer e aí me sinto mais completo como artista por causa dessas questões todas. Como ator eu me dedico igual, seja TV, teatro ou cinema, mas é diferente você entrar no projeto do outro, ou você ter o poder de chamar o outro para a sua história, e o teatro tem esse lugar pra mim.

O que te incomoda no espectador de teatro hoje? Pessoal mexendo no telefone?

Na minha peça não tem chance, porque já começo dizendo que podem tirar foto, podem divulgar a peça, só não pode com flash. Meu personagem é um louco e aí eu falo “Quais são as frases que posso falar?” a plateia me dá aquilo o que eu posso falar. Estreou sexta aqui no Rio no Teatro da Gávea, se chama A Morte Acidental de Um Anarquista.

Entrevista realizada pelo jornalista André Romano

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