Aline Dias fala da importância de O Tempo Não Para discutir questões sociais: “Refletir sobre valores”

Publicado há 2 anos
Por Cadu Safner
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A atriz Aline Dias segue colhendo os louros com sua personagem, Damásia, em O Tempo Não Para. Escrava do lar, criada na redoma de vidro da casa grande. Damásia foi evoluindo aos poucos, cresceu na história e agora ela tenta se se virar no novo e ameaçador século.

Em entrevista ao Observatório da Televisão, a atriz fala das maiores dificuldades de representar uma parcela significativa da população brasileira, ainda analfabeta. Ela também revela sobre maternidade, relembra Malhação e fala sobre os novos rumos da personagem na trama de Mário Teixeira.

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Maternidade

“É o melhor papel da minha vida. Eu estou vivendo dois papeis, a Damasia em O Tempo não Para e o da Aline, mãe e dona de casa. Apesar de ter essa responsabilidade, ela vem com um aprendizado muito grande. Vem para um crescimento pessoal, crescimento como mulher e como ser humano. Estou vivendo a melhor época da minha vida. Eu aprendo muito mais que eu ensino, nem estou muito nessa fase de ensinar. Acho que rola mais uma troca, tem muitas descobertas que me fizeram crescer.”

Trabalho pós-maternidade

“Eu estava muito com vontade de voltar. Primeiro que a gente vive nessa correria como atriz, então, eu estava vindo numa crescente muito bacana, no fim, veio a gravidez que foi uma surpresa ótima. Eu estava com muito vontade de voltar para seguir o meu caminho, por mim e pelo meu filho, para poder dar tudo de bom pra ele, pela arte, e eu fiquei muito feliz com o convite do Léo e Adriano, veio em uma ótima hora.

Eu tive medo, mas, ao mesmo tempo eu tive muito carinho das pessoas, principalmente do Adriano e Léo, na época. Eles vieram super carinhosos falar comigo e isso me fez ficar segura e confiar em mim. Filho não vem para estragar a vida de ninguém, vem para acrescentar. Eu tive uma gravidez bem tranquila, não fiquei neurótica, tudo tem o tempo certo, o tempo de Deus.”

Damásia (Aline Dias) em O Tempo Não Para (Divulgação/ TV Globo)

Relação com a personagem

“É uma novela que você olha e pensa que é uma historinha boba. Depois que eu vi o texto eu percebi: “Que história, que critica legal que essa novela trás pra gente”. E veio num momento legal para poder falar de desigualdade social, sobre racismo, dentre outros assuntos que existem, como a de tecnologia. Foi um presente muito legal, a Damasia era uma dama de compania da Marocas, e a gente cria também vários subtextos dentro da gente de como era a história dessa menina e como que ela apareceu nessa família.

Quando ela descongela, ela descongela com muito medo. A gente vê um novo século, mas muita coisa de cabeça para baixo, valores que se perderam, e a gente se depara com isso e o medo dela é estar nesse século e não conseguir avançar. Ela se descobre como mulher e ela vai se adaptando com outras pessoas. Está sendo uma construção muito bacana. Ela começa como cozinheira sendo explorada pela Coronela, mas depois ela dá a volta por cima e vai trabalhar como chefe de cozinha. Então é um crescimento muito legal para a gente poder trabalhar.”

Você cozinha bem?

“Eu tive que me virar. Depois que eu casei e tive filho, eu tive que aprender. Já sabia algumas coisas. Foi legal essa fase de grávida porque fiquei em casa descobrindo essa nova vida como dona de casa e mãe. Sei fazer algumas coisas mas não sou muito audaciosa.”

Romance na novela

“Conquistou o Elmo pela boca. Está sendo uma coisa muito verdadeira porque ela vem de outro século e não tem essa maldade que outra mulher talvez teria. Ela vai se sentindo especial. Ela tem um momento em que se olha como mulher, ela experimenta uma nova roupa, se olha no espelho de calcinha e sutiã e vê o quanto ela é uma mulher bonita. E ai ela tem esse contato com ele, que é o primeiro homem no século atual com queme la se envolve. Ela vai se aprendendo a se comportar, e tem sido muito legal construir isso com ele. Por enquanto não tem namorinho não, é só um flerte. O Felipe é ótimo e está sendo uma troca muito bacana.”

Aline Dias (Divulgação/TV Globo)

Como é representar uma analfabeta que vai buscar estudar?

“A gente tem um número muito grande de analfabetos e pode ter certeza que não falta vontade para eles aprenderem, assim como para a Damasia. A vida inteira ela ficou servindo, ela não teve essa oportunidade de estudar e na época nem era cabível um escravo estudar, não tinha o porquê.

Hoje ela se sente envergonhada por estar ali com outras pessoas que sabem ler e escrever, e depois desperta nela de querer aprender. Estou representando sim muita gente, existe muito preconceito nisso ainda. As pessoas que são analfabetas elas tem outras coisas sim a serem admiradas. Na minha família a gente tem uma cobrança de ter uma faculdade. Agora você imagina para um analfabeto, de ter que começar do zero. É legal representar e ver que existem outros valores e é nisso que ele (Elmo) se apaixona. Ela ser analfabeta é apenas um detalhe. Ela é discriminada no trabalho, mas ela luta, ela demonstra o que ela sabe fazer e impõe respeito.”

Crítica social

“Da parte da Damasia não tem tanta coisa que alfineta, mas eu vejo os textos vindo de Dom Sabino, Cecílio e Cairu, é uma coisa que choca e precisa ser falada. A gente espera que as pessoas que estão assistindo reflitam. Nós atores que estamos fazendo os congelados escravos, somos muito unidos. A gente se encontrou muito para conversar e trocar e poder ajudar um ao outro.

Essa união, tanto existe entre nós quanto com os personagens, acho que na época eles (escravos) eram muito unidos. Eles não tinham para onde correr, você trabalha numa casa de graça, cada um tem que contar com o outro. É bem legal isso de ter essa união e a gente tenta trazer isso para a realidade também.”

Ser exemplo através de personagens

“Eu tive essa noção em Malhação, depois que eu vi o tanto de mensagens que eu recebi de jovens. Uma negra estar ali, é uma coisa que a gente precisa dessa resposta. Eu tive um retorno muito positivo. Os pais que me paravam nas ruas para dizer que a filha parou de alisar o cabelo para deixar ele natural. É uma evolução lenta, mas estamos evoluindo e podendo dar essa voz, inclusive em O Tempo Não Para que é uma novela com o maior elenco negro escalado.”

Carinho das pessoas nas ruas

“É legal ter esse retorno do público. Muita gente pedia: cadê os congelados? Como foi acontecendo aos poucos, muita gente se interessou pelas histórias dos escravos. Muita gente queria saber para onde iriam essas historias. O branco a gente sempre sabe para onde vai, sempre vai ter um abrigo, alguém ajudando, mas, como vai ser para o negro? Eu vi muito isso no twitter, foi uma sacada ótima do autor ter feito isso aos poucos, a Cris Viana, que está brilhando na novela, foi a última descongelada. Cada um teve seu espaço, a gente está contando essas historias aos poucos, cada um seguindo o seu caminho para mim, é ótimo saber que estão gostando de mim e do meu trabalho, isso só me dá forças para continuar.”

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