Adversários políticos vão tentar demolir imagem de bom moço de Luciano Huck, diz cientista político

Publicado há 9 meses
Por Leandro Lel Lima
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Loucura, loucura, loucura, ou um chamado? Os próximos anos podem ser decisivos para Luciano Huck e Angélica, com toda a certeza. Estrelas do primeiro escalão da Globo, o casal de apresentadores precisa decidir seus destinos. As opções ficam entre seguir na TV ou ingressar na política, uma vez que o contrato deles está em jogo. O de Angélica prestes a vencer, o de Luciano vale até meados de 2021, isto é, um ano antes das eleições presidenciais.

Luciano segue líder com seu Caldeirão do Huck nas tardes de sábado do canal, a saber. Mais à frente teria grandes chances de comandar uma atração aos domingos numa possível aposentadoria de Faustão. Mas nos últimos anos, Huck tem demonstrado cada vez mais que seu caminho é a política. Com efeito, essa é uma decisão que vem se arrastando desde as eleições de 2018.

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Em declarações, análises e postagens, Huck faz críticas às ações do governo Bolsonaro quando o assunto é cultura, meio ambiente, direitos das mulheres e LGBTQI+. Ademais, ele também divulga eventos do Renova, grupo político do qual faz parte e que discute problemas e soluções para o Brasil. Nesta semana irá a um dos maiores eventos econômicos, o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, que contará com a presença de autoridades do mundo todo. Paulo Guedes, ministro da economia, representará Bolsonaro.

Análise de prós e contras de uma candidatura à presidência para Luciano Huck

Ao Observatório da TV, Eduardo Viveiros de Freitas, sociólogo e professor universitário, pesquisador do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política da PUC-SP, analisou o perfil de Luciano Huck como possível candidato à presidência. Para o cientista politico, o global tem certa vantagem em relação aos adversários por ser um profissional de TV. No entanto, ele será duramente atacado por ser adversários.

Quadros de sua atração na TV, como os de distribuição de prêmios, reforma de casas, carros e relatos de histórias de superação e a imagem de família feliz e perfeita contam, de certa forma, a favor do comunicador. Todavia, suas relações com Aécio Neves, deputado federal por Minas Gerais pelo PSDB e alvo de investigações, podem atrapalhar seus planos.

Sua esposa, Angélica, também entrará na mira. Caso Huck entre de vez para a política, a apresentadora terá que se comportar como uma primeira-dama. Ademais, além de cumprir uma agenda política, precisará conhecer bem os problemas do Brasil para se sair bem em entrevistas e possíveis debates. Além disso, caso Huck seja eleito, Angélica será comparada com suas antecessoras. Só para ilustrar, Angélica ganhou de presente de sua assessora a biografia de Michelle Obama, ex-primeira-dama dos EUA.

Visibilidade e ganhos

Vale lembrar que Luciano e Angélica são conhecidos no Brasil – ela está na TV desde os quatro anos, ele desde 1996 – e em pelo menos 77 países, quase 4 milhões de domicílios, por conta da Globo Internacional. Fora o alcance das redes sociais, que no caso deles somam mais de 70 milhões de seguidores. Se a vida deles já é um BBB por conta da fama e sucesso como artistas, imagina como será quando ingressarem na política.

Outro fator que terá peso e importância nessa decisão é o que envolve os ganhos da família. O salário de Luciano gira em torno de 1 milhão de reais por mês, fora a publicidade. O de Angélica está por volta de 200 mil. O contra-cheque de um presidente é de quase 28 mil reais brutos, mais auxílios com transporte privativo (avião, helicóptero, segurança reforçada para todos os membros da família, centenas de funcionários, cartão corporativo, entre outros). Publicidade é proibida. Ainda, pouco antes da campanha o casal terá que declarar à Justiça Eleitoral todos os bens que possui.

Como
um especialista em jornalismo, política e ciências sociais, como o senhor
avalia uma possível candidatura de um comunicador do porte do Luciano Huck à
presidência?

É sempre interessante ver como um comunicador se comportará e será assimilado (ou não) fora da telinha, do aquário da TV. Luciano Huck, nos últimos três anos, tem dado sinais claros de que deseja enfrentar um desafio político, aproveitando sua experiência na TV, sua visibilidade nas redes sociais, sua condição de celebridade televisiva. Podia ter sido candidato em 2018; talvez tivesse valido a pena correr o risco, pois o eleitorado acabou optando por um outsider que, mesmo tendo sido político por quase 30 anos, aproveitou-se da crise de credibilidade da política, da polarização entre esquerda e direita inventada pelos defensores da antipolítica, da conjuntura que conhecemos bem daquele momento.

Em 2022 teremos um cenário completamente diferente. A construção de uma candidatura de Centro ou Centro-esquerda, que não se enquadre na divisão vigente entre Extrema-direita e Esquerda ao longo do mandato do atual presidente, teria pela frente desafios que exigirão muita habilidade política, capacidade de diálogo, articulação e compromissos. As habilidades técnicas e o carisma de comunicador ajudam, mas não serão suficientes. Huck teria também que superar a principal contradição em seu perfil político: ele defende o combate às desigualdades sociais, a melhora de verdade da vida do nosso povo de carne e osso, mas apoia a política ultraliberal na economia de Paulo Guedes, ministro da Economia do atual governo. Ora, essa mesma política econômica leva à destruição do Estado, em nome das reformas, da austeridade fiscal etc. E causa a piora de verdade na vida do povo, em especial os mais pobres.

Concorrentes

Por
ter tanta visibilidade na TV e na mídia, ele leva vantagem em relação aos
demais concorrentes?

Leva uma vantagem do ponto de vista do carisma e da linguagem, das técnicas que domina como apresentador de programa de entretenimento, na TV, e como influenciador nas redes sociais (em outubro de 2019 possuía quase 50 milhões de seguidores). Mas os demais concorrentes, com maior ou menor habilidade e expressão, também estão se familiarizando com a linguagem e as técnicas. Hoje esse é um requisito básico da prática política. João Doria Jr., também egresso da área de comunicação e com habilidades semelhantes, está no páreo para 2022. Até um ex-juiz, que se tornou ministro da Justiça do atual governo em Brasília, passará por um treinamento midiático, já que começa a ser sondado para dar um salto mortal na política em 2022…

Nas eleições de 1989, Silvio Santos saiu candidato na última hora. Teria ele chance de vitória, levando em conta a época e as condições sociais daquele Brasil?

Esse é um bom exemplo de como um comunicador, sem preparo político, pode ser tragado pelo furacão de uma campanha eleitoral. Em 1989 não tínhamos redes sociais, mídia digital. A TV era praticamente soberana no terreno das comunicações, e Sílvio Santos dominava (como ainda domina) a linguagem e as técnicas do veículo como poucos. Tinha um discurso que cativava o povo simples e setores da classe média, estávamos na primeira eleição direta para presidente após a ditadura civil-militar, a TV tinha um papel decisivo na campanha eleitoral. Enfim, Sílvio Santos era uma novidade política viável e competitiva, mas teve a candidatura impugnada por questões burocráticas não cumpridas no registro eleitoral. Quem descobriu e utilizou isso foi Eduardo Cunha, na época iniciando uma carreira política que todos sabemos como terminou.

Até
que ponto carisma faz diferença na hora do voto? O eleitor se deixa seduzir
facilmente por candidatos mais comunicativos?

O carisma é fundamental, em termos políticos e eleitorais, num país como o Brasil. Parte significativa do eleitorado é atraída por candidatos mais comunicativos. Mas isso parece estar mudando. Apesar de terem sido eleitos muitos candidatos ligados à comunicação, na TV e nas redes sociais, mais ou menos carismáticos, para o principal cargo executivo do país a população escolheu alguém que não preenche o perfil do político carismático e bom comunicador. Esse político, por sinal, explorou ao máximo o politicamente incorreto, dizia-se “antissistema” e procura constantemente o confronto com alguns veículos e muitos profissionais de comunicação.

Família e primeira-dama

Luciano construiu, ao lado de Angélica, uma família bonita. Acredita que os brasileiros se identificarão com esses perfis (família de comercial de margarina) que eles trazem?

Essa imagem de família comercial de margarina será a primeira a derreter quando o candidato for exposto ao sol da política. Ironicamente, será graças ao que o candidato presumivelmente em construção, Luciano Huck, melhor apresenta como instrumento de trabalho, o domínio da linguagem e das práticas de comunicação, que essa imagem será desconstruída. Esse é o maior medo que os atores midiáticos têm com relação à exposição de sua vida particular no palco da política. O patrimônio da credibilidade (ou aparência de credibilidade) é o que mais prezam. Mas esse é o preço a pagar pelo engajamento na vida pública. E não podia ser diferente. Com maior ou menor intensidade, em todo o mundo a vida privada do homem público é submetida às exigências de transparência que a prática política traz consigo.

Ruth Cardoso (1953-2008), esposa do ex-presidente FHC, foi vista como referência por conta de sua formação em Ciências Sociais durante o período em que foi primeira-dama. Já Marisa Letícia (1950-2017), esposa do ex-presidente Lula, sofreu críticas por conta de sua origem humilde, a ausência de formação acadêmica e a falta de “identificação com a elite brasileira”. A atual primeira-dama, Michelle Bolsonaro, começou o mandato do marido levantando a bandeira dos deficientes auditivos. Depois foi bombardeada por críticas em relação aos seus familiares, alguns com processos na justiça. E Angélica? Com uma carreira consolidada na TV, conhece bem o público infantil, e possivelmente seus problemas sociais, é admirada por sua carreira e beleza. Mas, sem formação universitária, ela poderá ter um desempenho melhor que suas antecessoras? As críticas poderão ser mais suaves por conta de sua relação amistosa com o público?

Na eventualidade de seu marido ser eleito, Angélica pode ser um fator importante na divulgação dos programas e projetos de um hipotético governo Huck, justamente por sua experiência e carreira na TV. Mas, pelo mesmo motivo que a exposição política debilitaria a imagem do marido, sobre ela também pesariam as exigências da vida e da prática política: cobranças sobre transparência, prestação de contas, domínio do discurso político etc. As críticas e cobranças podem até ser mais severas sobre quem teve uma vida anterior à política em que a visibilidade era uma constante. No caso de suas antecessoras, com exceção de Ruth Cardoso, foi/é possível desaparecer atrás do marido político. No caso de Angélica e Huck, não.

Ser um apresentador popular, que viaja o Brasil e comanda quadros assistencialistas, tem os seus prós e contras. O senhor pode exemplificar alguns deles?

Em Política, há momentos em que a hiperexposição é prejudicial. Quantas vezes não vimos, por motivos táticos ou estratégicos, desaparecerem da cena política atores políticos importantes como Aécio Neves, José Serra, Paulo Maluf, Alckmin, Marta Suplicy e outros? Por outro lado, políticos como Lula, Guilherme Boulos e Ciro Gomes fazem de suas caminhadas pelo País um dos principais recursos políticos de comunicação, o famoso corpo-a-corpo com a realidade social do país. E nisso são muito bons.

No caso de Luciano Huck, as viagens e os quadros assistencialistas que apresenta na TV têm como lado positivo (em termos de imagem política) o fato de serem controlados, editados e apresentados sempre de maneira positiva para o apresentador. Não há riscos significativos e o apresentador-político pode até capitalizar o acervo de imagens e as experiências vividas nesses quadros para a construção de sua nova imagem e novo discurso junto ao público. O lado negativo é a existência, sempre, de bastidores, reações, falas, desdobramentos não mostrados no ar, que certamente serão recuperados por adversários para tentar demolir a imagem de bom moço preocupado com as questões sociais e humanas que Luciano Huck tem mostrado ao público e à mídia. Esse risco é importante e certamente seria levado em conta se o lançamento da candidatura vingar.

Luciano Huck foi a Moçambique (Foto: Reprodução / Globo)

Lula e Bolsonaro versus Luciano Huck

Lula
e Bolsonaro apontam Luciano Huck como o “candidato da Globo”. O que
isso pode significar ou até mesmo implicar? A Globo disse que a entrada dele na
política é um caminho sem volta à TV. Ou seja, um risco à carreira caso não
seja eleito.

A relativa previsibilidade da vida profissional numa grande rede de comunicação, numa TV como a Globo, não existe na vida pública, na política. A imagem da Globo foi arranhada pelo conflito parcial entre o governo atual e a rede de televisão de maior audiência do Brasil, uma das maiores do mundo. Para a empresa é um risco muito grande ver seu nome associado diretamente a uma campanha eleitoral do peso da campanha para presidente da República.

Certamente isso será explorado por adversários de peso como Lula e Bolsonaro. Na política é preciso correr riscos, fazer escolhas, renunciar a alguns privilégios e associações, rever compromissos, vínculos, alianças, a vida não tem certezas. Renunciar a uma carreira vitoriosa na TV para participar de uma disputa política das mais aguerridas, como certamente será a de 2022, é correr imensos riscos com retorno incerto. É essa a escolha que o apresentador deve fazer, se estiver disposto a arriscar.

Plano de governo de Luciano Huck

Luciano
Huck representa qual segmento da política? Direita, Esquerda, Centro-esquerda,
Extrema-direita ou Extrema-esquerda? Pode exemplificar como funcionam de fato
esses termos?

Grosso modo, a Direita defende o pensamento liberal em economia e nos costumes, na questão individual. A Esquerda tem uma visão de mundo comprometida com a igualdade, colocando num horizonte de objetivos o fim do capitalismo e a revolução em moral, costumes, ambiente etc.

A Centro-esquerda imagina poder civilizar o capitalismo. A Extrema-esquerda radicaliza o combate ao capitalismo, defendendo a revolução como instrumento mais rápido de transformação e implantação de uma nova sociedade que, no limite, nem Estado teria. Para isso postula o uso da violência como modo de atingir esses objetivos. A Esquerda, a Centro-esquerda e a Extrema-esquerda se apresentam como progressistas no debate econômico.

A Extrema-direita faz da violência, do autoritarismo, da intolerância e do enfraquecimento e destruição da democracia os instrumentos para a implantação de uma ordem totalitária, como aconteceu no fascismo italiano e no nazismo alemão. O Centro, que muitos cientistas políticos dizem não existir, é um hipotético ponto de equilíbrio entre essas gradações e extremos à Esquerda e a Direita. Fica cada vez mais difícil dizer quem é de Centro no Brasil, sem apontar certo oportunismo de quem se esconde atrás desse rótulo.

Huck entre os conceitos e divisões da política

Huck tem sido apresentado na política como defensor de propostas que o caracterizariam como um político de Centro, com propostas de Centro-esquerda para a cultura, a questão social, o meio ambiente. No entanto, ele tem defendido a política ultraliberal do ministro Paulo Guedes, que pertence a um governo de Extrema-direita. Ser contraditório não o deixa sozinho no cenário político brasileiro. Temos exemplos claros de como essa classificação de posições é usada de maneira muito relativa no Brasil. Mas, até pela polarização atualmente existente na política brasileira, quem postular qualquer cargo ou posição importante deve cada vez mais se posicionar sem meios-termos sobre vários temas.

Na conjuntura que deve perdurar até 2022 não haverá espaços para meios-termos, posturas excessivamente conciliatórias e falta de clareza em programas, propostas e projetos. Principalmente na área econômica, devido aos grandes impactos de decisões e políticas que fortaleçam privilégios, não produzam resultados em termos sociais, geração de emprego e renda, temas que não podem esperar para apresentar resultados, uma vez que há muita gente sofrendo no desemprego, subemprego, exclusão etc. Há quem diga que Huck e seus aliados representam um projeto liberal-progressista, seja lá que diabos isso venha a significar.

Agenda política de Luciano Huck

A ida a grandes eventos econômicos nos EUA e Europa, como Davos, entre os dias 21 e 24 de janeiro, pode ser vista de que forma pelo eleitor que está acostumado com o “Luciano Huck da Globo”? Em um artigo publicado na quinta-feira (16), Huck criticou a forma como Bolsonaro trata o meio ambiente, e ainda afirmou que a desigualdade é um dos problemas que o Brasil precisa enfrentar em 2020 com maior rigor.

A ida a Davos, onde estará reunida a maior parte do que chamamos de poder econômico mundial é uma forma de dar visibilidade ao candidato e sua visão de mundo, principalmente para investidores estrangeiros, governos, mídia internacional. É um compromisso a que chefes de Estado, grandes executivos e celebridades do mundo empresarial, financeiro e cultural dão importância e peso.

O mesmo acontece com outros eventos e compromissos no exterior que o candidato cumpre numa espécie de tour em busca da visibilidade de sua nova persona política. Isso parecerá novo para o público que conhece Luciano Huck da Globo. Pode surpreender e, até, decepcionar esse público. Posicionar-se na imprensa sobre temas da agenda sócio-ambiental já denota a incorporação do discurso de candidato; porém isso abre, três anos e meio antes das eleições de 2022, um flanco aos críticos e adversários que vão bater na tecla de Huck ser o candidato da Globo. Isso pode precipitar a quebra do vínculo profissional do apresentador e desgastá-lo ao longo do caminho até a eleição.

Angélica

Em entrevista à revista Marie Claire, Angélica, esposa de Luciano Huck, avaliou como uma “espécie de chamado” essa fase do marido na política. Por que as pessoas escolhem serem “políticas”, no conceito de representar um povo?

É muito presente no debate político brasileiro o uso da religião, do sentimento religioso e da religiosidade. Daí o chamado mencionado por Angélica. Isso tem base no fato de o Brasil ser um país muito religioso, esse sentimento está muito presente das mais diversas formas. A Política, no entanto, é uma das mais nobres e complexas atividades do ser humano que vive em sociedade. Os gregos diziam isso e, para eles, a busca de uma vida digna, de uma vida boa para todos era o objetivo maior da Política. As pessoas que resolvem se dedicar a esse objetivo têm de ter claro que, cada vez mais, Política é vocação, missão, compromisso, conhecimento, falando alguns em Arte ou Ciência da Política. Políticos todos nós somos, porque vivemos, convivemos e trabalhamos por objetivos mais ou menos comuns, num espaço político que os gregos chamavam de Pólis (a cidade, o Estado), daí o termo Política ser entendido como a prática, estudo, debate e busca dos objetivos da Pólis. Porém, nem todos estão preparados para representar, na busca de uma vida boa, o povo, a sociedade complexa, os interesses em conflito, a resolução de problemas da maneira mais próxima da plena aceitação de políticas por todos. Entrar na Política para dar vazão ao narcisismo, vaidade, promoção pessoal ou defesa de interesses egoístas é o caminho para o fracasso, a rejeição, o opróbrio, esquecimento. A Política, também, é efêmera, exige tempo e paciência. A memória do povo é seletiva, o próprio povo é cruel. Lidar com ele exige muita habilidade. Maquiavel que o diga…  

Luciano Huck e Angélica (Divulgação/TV Globo)

Levando em consideração o alto salário que ele tem na Globo, mais suas relações com a publicidade, não seria uma aventura ou até um tiro no pé se lançar candidato? Afinal, a cobrança será grande, o trabalho seguirá 24 horas por dia, a família inteira será alvo de vigilância, especulações… E os ganhos serão bem menores e com restrições à publicidade.

Certamente a possibilidade de se lançar candidato pode ser um tiro no pé, em especial se essa decisão não for tomada no momento correto, no timing quase perfeito. Como dito mais acima, esse momento poderia ter sido nas eleições de 2018. Mas, como disse o filósofo espanhol José Ortega y Gasset, o homem é o homem e suas circunstâncias. Fernando Henrique Cardoso disse, sobre Huck, que ele tem boas intenções, mas de boas intenções o caldeirão do inferno na Política está cheio. Se as circunstâncias mudarem, no entanto, tudo pode mudar. Antes de se decidir sobre trocar o praticamente certo na vida profissional, empresarial, pelo duvidoso na vida pública, é bom que o apresentador ouça o conselho de velhas raposas políticas que dizem que, em Política, deve-se ouvir muito e falar pouco. Difícil para um comunicador, mas necessário, se esse for seu desejo.

Cobrança dos eleitores

Se
eleito, Luciano Huck será cobrado mais ou menos da grande massa de eleitores do
que seria um político de carreira?

Precisamos ter claro que a cobrança, em Política, vem na forma de críticas de adversários, decepções de eleitores, exposição na mídia, e se materializa em fracassos nas eleições seguintes. Além disso, acostumados com a resolução mágica de problemas como um carro velho caindo aos pedaços ou falta de uma moradia decente, entre os blocos do seu Caldeirão, uma constante nos programas apresentados por Huck na tela da TV, seus eventuais eleitores, das mais diversas origens e formações, vão criar grandes expectativas sobre sua ação nesse novo mundo da Política. As cobranças certamente serão num patamar diferente do que acontece com políticos de carreira, até porque a informalidade que caracteriza o apresentador é bem diferente da formalidade e do uso de canais institucionais para prestação de contas dos políticos tradicionais. Talvez por ser mais experiente com as câmeras, Huck possa ter uma performance mais confiável e efetiva do que o atual ocupante do Palácio do Planalto, que lida de maneira grosseira com instrumentos midiáticos, internet e com a imprensa, fazendo tudo menos prestar contas ou dar respostas satisfatórias sobre o que faz para tentar resolver os problemas do país. Mas nem isso é certo. Trump foi apresentador de reality show (O Aprendiz) nos EUA, tinha experiência com a linguagem televisiva, mas isso não o ajuda muito em suas decisões e na relação com o Congresso. Como populista de Direita, Trump apela para o contato direto com o eleitor, utilizando o Twitter como veículo preferencial.

João Doria Jr., ex-prefeito e atual governador de São Paulo pelo PSDB, rejeita o rótulo de político e se intitula gestor. Luciano poderá seguir esses mesmos traços, propondo uma visão diferente do que é a gestão pública?

O exemplo de Doria é interessante. Nem ele acredita mais nessa falácia do “Não sou político, sou gestor”, nesse personagem antipolítico que criou para si. Esse discurso funcionou bem nas duas eleições que venceu, em 2016 e 2018. Funcionou mais na eleição de 2016. Daqui até 2022 essa ficção não servirá para nada, para qualquer candidato.

A Política é dinâmica, exige novidades de atitudes e métodos (mas boa parte das pessoas se satisfaz com a aparência de novidade), coerência, exemplo. Doria gastou na Prefeitura de São Paulo boa parte do capital midiático de seu personagem gestor. Agora age como todo político ou liderança política tradicional, atraindo os expurgos do partido e do grupo que está no poder em Brasília. Doria passou a controlar o que sobrou do PSDB depois do desastre que foi a reação de Aécio Neves à derrota na eleição de 2014 e seus desdobramentos políticos até a tragédia eleitoral, em nível nacional, de 2018. Levou o partido a precisar da aparente novidade Doria em 2016, que acabou contribuindo, com a campanha declarada que fez para o candidato da Extrema-direita a Presidente em São Paulo, para levar Geraldo Alckmin ao final de sua carreira política nas eleições de 2018.

O discurso antipolítica, porém, começou a minguar precocemente, diante da decepção e desmoralização provocadas pelos antissistema e antipolíticos, os outsiders que chegaram ao poder em Brasília, no Legislativo e, principalmente, no Executivo. Se quer ser candidato, Luciano Huck tem que fugir desse figurino como o diabo da cruz, deixando Doria e sua promessa de dar uma Polo Ralph Lauren a cada brasileiro seguirem seu curso.

Aécio Neves

A amizade que Huck teve com Aécio Neves, deputado federal por Minas Gerais pelo PSDB, que vive na mira da Justiça por conta de suspeitas de corrupção, poderá ser usada contra ele durante a campanha?

Seria usada, sem sombra de dúvida, contra uma eventual candidatura Huck. Quem tem na política um amigo como Aécio Neves não precisa de inimigos. Talvez seja isso que levou Luciano Huck a apagar de suas redes sociais fotos ao lado do ex-amigo. Mesmo levando em conta que a internet é como um elefante, não esquece jamais.

Os eleitores estão mais atentos às fake news?

Sim. O alto custo social, político e cultural que o Brasil está pagando pela devastação causada por um candidato eleito, em boa parte, graças às fake news, pode tornar os eleitores mais exigentes nas próximas eleições. Vai acontecer com as fake news o que aconteceu com o marketing político: candidatos apresentados como produtos políticos que, eleitos, se revelaram parlamentares medíocres e executivos sofríveis foram massacrados eleitoralmente nas eleições seguintes. Desapareceram ou caíram no ostracismo político por tempo indefinido. O marketing, apenas, não engana durante muito tempo, não convence se o produto divulgado não for bom.

O uso de práticas como as fake news, distorções, mentiras, manipulações se propõem a manter suas vítimas e usuários anestesiados, alienados, disseminando o ódio e vivendo no mundo em que uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade, para citar Goebbels, inspiração de um trágico (em certo sentido, cômico também…) episódio recente da política brasileira. A realidade está provando que isso não se sustenta no tempo e no espaço políticos e, principalmente, na psicologia das pessoas. Até o ódio cansa. Felizmente.

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