“A Adinéia se gruda no Cido contra a Suzy”, adianta Ana Lucia Torre sobre O Outro Lado do Paraíso

Publicado há 3 anos
Por Greicehelen Santana
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Ana Lucia Torre está feliz da vida com a repercussão de sua personagem Adinéia na novela O Outro Lado do Paraíso. A veterana interpreta a mãe linha dura de Samuel (Eriberto Leão), e se no início da trama, Adinéia queria mais que o filho lhe presenteasse com um neto, agora ela quer mais proteger o psiquiatra da maledicência alheia, ao descobrir que o rapaz é homossexual. Em conversa com a nossa reportagem, a atriz falou sobre os rótulos, e sobre possíveis destinos para a personagem. Confira:

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Como você está vendo a repercussão da novela?

“Eu acho que a gente está muito feliz com uma novela de muito agrado com o público. A gente está conseguindo uma média de audiência muito elevada e que nos dá um imenso prazer. Isso é mérito de Walcyr Carrasco e de Maurinho Mendonça Filho, que souberam encaminhar da forma mais delicada possível esse trabalho. Nós começamos a trabalhar, fazendo ensaios e exercícios dois meses e meio antes da novela começar a gravar. Então, todo mundo junto foi o que deu a esse grupo uma noção de conjunto, que por onde a gente transite, nós sabemos exatamente o que está acontecendo, porque o preparo foi feito com todo mundo junto. Então, isso dá uma tranquilidade para a gente desenvolver o trabalho.”

E como está a repercussão da sua personagem, a Adinéia?

“Eu estou felicíssima! Eu adoro fazer personagem divertido e a repercussão do público é muito boa. Eu viajo muito, porque eu moro em São Paulo e trabalho no Rio de Janeiro. Fico de um lado para o outro e, realmente, o público tem adorado.”

A Adinéia está representando muitas mães, né?

“Por incrível que pareça, uma mãe chegou até a mim para dizer que passou por esse processo, que acha que o filho está nesse processo. Eu tenho a impressão que isso é uma coisa que está tão arraigada nas pessoas, por tanto tempo, que esconderam essa situação, que isso me causa uma certa tristeza. Eu acho que todo mundo pode ser o que quiser quando é livre e é respeitado, nada pode acontecer de errado, porque uma característica de uma pessoa, quando ela tem expansão disso, não vai afetar absolutamente o seu caráter. Você pode ser cristão, muçulmano, branco, vermelho, azul, gay, não gay, hétero, se você tem bom caráter, você vai ter uma vida de respeito. Eu acho que isso é a grande mensagem que a gente tenta passar.”

Recentemente, foi ao ar a cena em que a Adinéia afirma que sempre soube que o filho Samuel (Eriberto Leão) era gay. E muita gente acha que isso tem a ver com a criação no lar, comportamento. Como você analisa essa situação?

“Eu acho que ele nasceu com isso. Tanto que durante a vida toda ele tentou ser outra coisa, e, era absolutamente infeliz, tinha uma vida dupla. E agora ele consegue ter mais tranquilidade, o próprio comportamento dele muda, ele está bem. Então, ser homossexual, ser hétero, não é uma opção, é uma qualidade com a qual você vem. É a mesma coisa de você ser bandido, não ser bandido. Você ter uma família super estruturada, eventualmente, com três ou quatro filhos todos estruturados e tem um quinto que parece que não pertence aquele ambiente. Não é uma questão de criação, não é uma questão de você estar sendo influenciado, é uma questão de você ser.”

A trama está chegando no momento em que o Cido (Rafael Zulu) vai morar na casa da Adinéia, junto com o Samuel e a Suzy (Ellen Rocche). Essa cena já foi gravada?

“A gente está começando a entrar nessa nova seara. Por enquanto, estamos tateando, mas eu acho que o público vai se divertir muito com as situações que vão ser criadas.”

Vai ter muito humor nas cenas da Adinéia com o Cido, né? Afinal, ela já começou a implicar com o amante do filho, é isso? 

“Só pode ser bem-humorada. Cada um dentro dessa casa é completamente diferente do outro. E essas quatro personalidades muito diferentes e muito extravagantes vão ter que conviver.”

Antes de conhecer a história da sua personagem, você já teve contato com mães de homossexuais?

“Eu fiz uma vez uma peça, chamada ‘Norma’, em que eu era mãe de uma pessoa homossexual, só que essa pessoa já tinha morrido em um acidente. Eu fiquei com essa peça durante uns três anos percorrendo o Brasil, e aí sim, eu ouvi muitas histórias. Mas eu ouvia histórias das pessoas que tinham passado por isso e não das mães. O que me ocorreu ver naquela época, é que muitas mães, simplesmente, aceitavam porque era uma coisa que existia e boa parte das mães, ou dos pais, no momento em que souberam, expulsaram os filhos de casa. Eu acho que esse problema é mais social do que outra coisa. Eu já vi mãe em entrevista dizer que preferia ter um filho bandido do que um filho homossexual. É uma loucura essa coisa, que está arraigada em nós, na nossa sociedade, de que tenha o macho e de que tenha a fêmea. Eu acho que nisso a gente peca, porque quando você divide muito entre o macho e a fêmea, você esquece do ser humano que é o mais importante.”

Adinéia (Ana Lucia Torre) entre Samuel (Eriberto Leão) e Cido (Rafael Zulu) de O Outro Lado do Paraíso (Divulgação/ TV Globo)

A homossexualidade do Samuel veio à tona a partir de uma vingança da Clara (Bianca Bin). E no dia que a cena foi ao ar, muitas pessoas condenaram essa exposição de maneira agressiva, já que ele queria viver no ‘armário’. Qual a sua opinião sobre isso?

“Eu particularmente não sei julgar essa atitude da Clara, realmente eu não sei. Dentro da novela, do contexto em que está esse personagem, se nós pensarmos em todo o horror que ela passou por conta de quatro pessoas, dá até para, digamos, entender. Talvez não concordar, mas entender que ela tem uma raiva muito grande em si e a forma que ela está achando de expressar essa raiva é ir contra essas pessoas ao longo do tempo. Eu ainda nem pensei se a Adinéia achou bom ou não isso, acho que ela nem pensou nisso. Ela tem só pânico de que isso se estenda para a Suzy, e a gente já sabe que vai estender. Ela quer de qualquer forma preservar o filho da sociedade. Por outro lado, ele não queria continuar no ‘armário’, ele só continuava no ‘armário’ por causa da mãe, porque ele sabia que a mãe ia entrar em choque. E eu acho que muitas vezes é isso que acontecer, e quando a pessoa consegue, tudo bem que o Samuel não disse, ele foi exposto, e que a partir do momento em que ele compreende que a mãe sabe e que a sociedade sabe, porque a Suzy contou para todo mundo, ele relaxou e ficou uma pessoa mais meiga, mas amável, menos rígida e sofrendo muito menos do que ele sofreu a vida inteira.”

O Samuel vai passar por alguma situação de preconceito no hospital, por outras pessoas?

“Não, porque no momento em que ele soube e que resolveu enfrentar, ele chegou no hospital com muita tranquilidade. Conversou com todo mundo e ninguém mais tocou no assunto e nem pôde falar por trás, porque não tem mais o que falar. E ele fala para a mãe que todo mundo sabe, que não tem mais o que esconder e vai entrar de cabeça erguida por onde quer que ele vá, tanto que imediatamente ele vai jantar com o Ciro em um restaurante.”

Como está sendo contracenar com o Eriberto Leão? Ele está muito intenso nesse personagem e se esforçando para que o Samuel não caísse no caricato…

“Eu até queria ressaltar que em nenhum momento ele caiu no caricato. Eu fico muito feliz pelo Eriberto, porque não é sempre que o ator tem uma oportunidade como essa que ele teve. E o Eriberto que sempre fez o machão, o gostosão, o mocinho, também viu nesse papel um presente para ele como ator e se agarrou a isso de uma forma incrível. Desde que ele recebeu, ele foi atrás, pesquisou, trabalhamos intensamente durante os ensaios. Eu acho que ele fez de uma forma sensacional, sem em nenhum momento ir além da conta. Ele está num limite muito tênue que pode descambar para o caricato ou pode descambar para uma dramaticidade que ele segurou, que ele não fez. Então, eu acho uma maravilha quando a gente tem oportunidade de fazer um negócio desse.”

A Adinéia sempre foi uma mãe protetora. Agora, depois que a homossexualidade do Samuel foi revelada e que o Ciro passar a morar na casa dela, essa proteção vai continuar?

“A gente gravou muito pouco ainda sobre isso, acho que gravamos só três cenas. Mas a gente começou a brincar no estúdio, a Adinéia junto com o Cido, contra a Suzy. Depois, provavelmente, vai ter uma mudada nessa história, mas a Adinéia se gruda no Cido contra a Suzy.”

Será que vai surgir um romance também para a Adinéia?

“Eu acho que para a Adinéia vai ser difícil (risos).”

Qual o balanço que você faz da sua carreira? São tantos anos de atuação, tantos personagens marcantes já vividos na dramaturgia brasileira.

“Eu estou muito feliz! E eu acho que todo esse caminho que nós todos, os atores mais velhos, construímos foi um caminho de pequenos passos, porque todos temos uma formação de teatro, que na época a televisão era muito insípida. Depois que começou a televisão, eu demorei bastante para entrar. Eu acho que foi uma trajetória construída degrau por degrau, talvez porque na época que a gente começou não tinha esse ‘boom’ que é a televisão, que é maravilhoso,porque eu nunca fui assistida por tanta gente. A televisão é isso, ela não é nacional, ela é internacional, a TV Globo é internacional. Hoje em dia, você pode viajar para alguns lugares e as pessoas te param na rua como se fosse aqui em Copacabana, em Ipanema. Então, eu acho que é isso, você construir degrau por degrau, sem ter fama, você vai se dedicando no trabalho com muita profundidade, as suas pesquisas vão sendo muito profundadas para você poder superar cada etapa. Eu comecei profissionalmente tarde, eu comecei com 30 anos de idade. Já fazia teatro amador, mas profissionalmente, eu comecei tarde. É um acumulo de 42 anos de trabalho, que chega em algum momento como esse, por exemplo, que eu agradeço muito.”

*Entrevista feita pelo jornalista André Romano

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