“As pessoas vão ter ódio dele”, afirma Enrique Diaz sobre seu personagem em Onde Nascem Os Fortes

Publicado há 3 anos
Por João Paulo Reis
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Interesseiro, malandro e  vaidoso. Essas são algumas das características de Plínio, personagem interpretado por Enrique Diaz em Onde Nascem os Fortes, nova supersérie que a Globo irá estrear em abril. Na trama, Plínio é um delegado que se envolve em vários negócios ilegais na tentativa de se dar bem e ganhar visibilidade. Violento, ele irá se aproximar de Aurora (Lara Tremouroux), filha doente de Pedro Gouveia (Alexandre Nero), o homem mais poderoso de Sertão, cidade fictícia onde se passa a história. O ator conversou com nossa reportagem, e deu alguns detalhes sobre personagem e sobre a série. Confira:

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Como é o seu personagem em Onde Nascem Os Fortes?

O Plínio é um delegado de polícia, a parte ruim da imagem da polícia. Malandro, quer se associar às pessoas que dão mais possibilidades para ele. Está entre as duas pessoas mais poderosas da cidade, que são o Pedro (Alexandre Nero) e Ramiro (Fábio Assunção) querendo favorecer a ambos e sem saber lidar com as diferenças, e com isso ele se liga a várias negociatas e maracutaias. Ele não é exatamente do bem.

Você se espelhou em alguém?

Não exatamente. Acho que tem uma coisa de personalidades possíveis, que conhecemos de imagens, e acabamos assimilando conforme a dramaturgia nos dá elementos. Ele não é um clichê, mas tem elementos próximos do que conhecemos da polícia corrupta, mas na história tem outros detalhes sobre a personalidade dele, e percebemos que motivam ele a ser daquele jeito. Ele é uma pessoa que quer sobreviver, tem certa vaidade, se acha um pouco importante, tem um pensamento limitado, e ao mesmo tempo tenho que ter carinho por ele e tento fazê-lo humano e jogar com essas contradições.

Como será esse envolvimento que ele tem com a filha do Pedro Gouveia?

O que é bonito no personagem é que ele tem várias caras. Ele é muito violento numa cena com uma pessoa que não interessa a ele, e ao mesmo tempo um enamorado com a moça. Um fofo, compra um anel para ela, mas o público vai ver o jogo de interesses dele e como ele dança conforme a música.  Uma coisa meio Molière, servidor de dois ângulos.

Mas a família torce para o casal?

O Pedro desconfia um pouco dele, porque ele faz parte de outro mundo. A mãe acha que ele pode ser um bom partido, mas ele é um canalha (risos).

Ele é o único que não a trata com pena por causa da doença, não é? Talvez seja isso o que a encanta nele.

Ele faz essa farsa, que é agradar, se enamorar, se declarar. Ele é mais velho, uma autoridade nesse universo da cidade pequena. Ele vai se encontrar com ela com camisas anos 70 charmosonas (risos), e funciona até certo ponto.

E isso tudo é por interesse?

É por interesse, mas também fico imaginando que a atração dele por aquela menina pode ter uma certa posse por ele ser mais velho, ser uma autoridade, como se ela fosse um passarinho que ele gosta de cuidar. É uma imagem machista, mas algo que poderia ser, ele gostar daquela menina bem camafeu, novinha.

Você acha que ele pode gostar dela de verdade?

Imaginei isso em vários momentos. Conforme a história vai andando, tudo vai se desenhando, e aí não posso contar coisa demais, mas fica parecendo que era só interesse mesmo. Esse aspecto que parece que ele só quer ascensão social é bem coisa do cara que tem síndrome de vira-lata. Ele vê o delegado, e o empresário, e acha que ele tem que estar perto deles, e namorar com a filha de um deles, porque isso tem um significado muito grande para ele.  Naquela comunidade, estar inserido nesse contexto é estar perto dos privilegiados. Isso é algo que fala muito sobre o Brasil hoje, pois o mundo sempre fica dividido em classes, dinheiro, e cria-se uma cultura em que você não pode pertencer aos desprivilegiados. Aconteceu muito com a classe média em todo o processo do governo Lula, de ascensão da classe mais baixa, e a classe média teve medo por achar que estava pegando no calcanhar dela.

Ele fica no jogo duplo com Pedro e o Ramiro não é?

Exatamente. Como eles querem coisas opostas, o Plínio fica no meio como se fosse uma mola de uma engrenagem que se adapta até onde der.

Isso vai para o humor?

Gosto muito de ter uma pitada de humor, o que não quer dizer fazer graça, mas acho que tenha um olhar de humor que faz com que aquilo seja patético. Nas cenas de violência, temos violência, mas ele não é apenas um personagem que odeia. A imagem de querer ser bem visto, ter sempre uma roupinha bonita pode soar patético, e quase engraçado, não engraçado de fato. É um contorno muito diferente para o personagem do que se fosse apenas um cara troglodita.

Você não faz novelas desde 2012. Você gosta mais desses produtos mais curtos?

Quase nunca fiz novela. Fiz uma novela só que foi Cordel Encantado, e eventualmente participações soltas. Em geral prefiro séries por não serem tão massificadas e darem ao ator um tempo de concentração maior. Também tive sorte de ter parcerias muito boas com diretores. Além disso, também já dirigi duas novelas, Joia Rara e A Regra do Jogo, e uma novela quando fica realmente boa, a gente agradece porque as pessoas não sabem como é difícil fazer uma novela boa no ritmo em que se trabalha.

Você acha que o público pode torcer pelo seu personagem, assim como aconteceu em Justiça? Afinal, o Douglas não era santo, mas ninguém conseguia ter ódio dele.

Eu não posso adiantar muito e nem tenho como saber, mas torço para as pessoas verem a complexidade dele. É um personagem muito bem escrito, acho que as pessoas vão ter ódio dele com certeza, mas espero que vejam algo diferente que é semelhante ao que aconteceu com o Douglas de Justiça. Aquela coisa de “odeio, mas não consigo odiar”. Eu prefiro que seja assim, mas não tenho controle sobre isso.

Você já dirigiu novelas como disse. Quando você está sendo dirigido por outro diretor, você consegue ficar quieto sem dar palpite?

Não. Eu dou muito palpite. Sou o maior palpiteiro da história (risos). Com os diretores que gostam do diálogo com o ator, isso é muito bacana até porque sentimos que estamos os ajudando, e achamos esse acordo. Acho bacana dar opiniões e ideias. Lembro de quando eu dirigia, e o ator tinha estudado, e tinha uma inteligência da cena, de perceber algo que eu não tinha percebido, eu pensava “Que bom que não tive que vir com a ideia pronta”.

Você já tem algum projeto para depois da supersérie?

Tenho um longa que ainda não fechei e uma série que não posso comentar por enquanto.

Delegado no sertão tem muita caricatura. Como você trabalha para não cair na caricatura?

Essa é uma preocupação que eu tenho mas confesso que é um jogo entre as possibilidades que o personagem tem concretamente na dramaturgia. Dá para inventar coisas que não estão ali, e como ele é muito bem escrito, ele tem essas chaves muito charmosas. Por outro lado, quando a função é a truculência, não tenho muito como escapar. Não gosto muito disso, nem me sinto bem. Toda vez que tinham cenas mais violentas, eu dizia “Ah, que saco”, mas às vezes a função naquele momento para a história acontecer, é necessário. E fico procurando compensações para fazer esse personagem parecer mais humano.

Você é um homem de muita opinião. Sabemos que é peruano radicado no Brasil, mas como é o Brasil que você enxerga hoje?

Ih, pergunta complexa. O Brasil que estamos vivendo hoje é um descalabro total, e não digo isso para desmerecer o país, porque é um país que amo. Vivemos um retrocesso em função de uma elite predadora. Acho tudo isso um golpe mesmo e tudo o que está acontecendo é terrível para os avanços que tivemos em relação à inclusão social, educação, autoestima, e até mesmo para a ideia de uma sociedade onde as pessoas colaborem umas com as outras. Tudo está sendo destruído em função de uma ganância cada vez maior que forma uma desigualdade social e de renda absurda, e espero que consigamos reverter isso num prazo razoável, porque pelo jeito não vai ser tão cedo.

Vai ser uma eleição complicadíssima, não é?

Muito. Não sei se esse é lugar para falar sobre, mas tem uma questão de uma elite financeira transnacional que afeta nossos governos e usa nossos governantes como bonecos, e a elite também corrobora isso, então qualquer iniciativa igualitária acaba sendo destroçada, o que é péssimo.

Como é você no seu dia a dia?

Eu tenho uma família que acho incrível. Sou casado com a Mariana Lima, que é atriz e está em São Paulo gravando. Temos duas filhas, Helena, de 3 anos, e Antonia de 10, e minha casa é o lugar que mais gosto do mundo, porque é um lugar muito amoroso, bagunçado, criativo, e minha família é o que mais gosto na vida.

Você curte redes sociais?

Eu uso pouco, tenho tentado estar pouco presente. Tenho evitado, leio, gosto da informação, mas não fico entrando na onda de dar opinião sobre tudo. Algumas matérias que leio e acho interessante que as pessoas saibam, tento replicar, mas tento evitar polêmicas.

* Entrevista feita pelo jornalista André Romano

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