Prestes a estrear a série médica Sob Pressão, Julio Andrade critica situação dos hospitais públicos

Publicado há 4 anos
Por João Paulo Reis
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Sucesso na série Justiça, da Rede Globo e na série Um Contra Todos da Fox, Julio Andrade estará em Sob Pressão, nova série da Globo que estreia no dia 25 de Julho. Seu personagem, Evandro, é o cirurgião-chefe de uma equipe de médicos de um hospital, localizado numa comunidade carente do Rio de Janeiro.

O ator bateu um papo com o Observatório da Televisão. Confira:

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Você é um ator que faz bastante séries. É um formato que você prefere trabalhar?

Série é um lugar novo para os atores. A possibilidade de você fazer um personagem e encontrar ele um pouco depois é muito interessante. É metade novela, metade cinema. Tem a urgência da novela, e o cuidado do cinema. Minha grande paixão sempre foi cinema, então podendo levar um pouco do cinema para a televisão para mim é o que vale.

O que te atraiu no convite para viver este personagem?

Eu sou movido a desafios, e encarar um lugar que pra mim é muito difícil me seduziu.

Seu personagem, o Evandro, acaba se encantando pela Dra. Carolina, personagem da Marjorie Estiano. Como é isso?

Eu acho que ele não estava esperando por esse amor e acaba acontecendo, fazendo com que ele volte a viver, e sorrir, que era algo que ele não fazia há tempos. Ele é totalmente cético, já ela tem fé pra caramba e são opostos que transformam isso numa coisa bonita. Ela acaba sendo o remédio que ele estava precisando.

O seu personagem vive a questão dos embates éticos no hospital. Como você enxerga a ética nesta profissão?

Eu acho que a ética está nessa profissão como uma das coisas principais. O médico não se envolve de modo pessoal com o paciente, mas ele tem que salvar aquela vida. O Dr. Evandro é super ético, então ele não aceita que as coisas não andem na linha.

Você se considera cético assim como seu personagem?

Não. Eu, Júlio, tenho fé pra caramba, só não sigo uma religião. Acredito em algo maior. Quando estou a fim de rezar e meditar, eu vou mexer na terra, nas plantas, é ali que me encontro.

Você visitou hospitais em seu laboratório?

Durante o filme visitei hospitais, e como olheiro em algumas cirurgias. Para a série eu resolvi não fazer porque minha cota de cirurgias já estava bem legal para poder fazer este personagem.

Você viu alguma situação limite durante essas visitas?

Vi muitas, inclusive gente baleada chegando escoltada por policiais. A gente está num momento que achamos tudo normal, mas não podemos nos acostumar com o absurdo. Minha reação na hora foi ficar muito nervoso, por não saber o que fazer, mas ao mesmo tempo fui seduzido por aquela situação. Cheguei perto do cara, vi o furo da bala, o médico dando os primeiros socorros e me interessava muito mais o olhar do médico perante a cirurgia, do que a própria cirurgia. Fiquei observando o que eles conversavam, e isso para mim é mais interessante. Eu tenho um pouco de aversão a hospitais, e graças a Deus tenho uma boa saúde. Minha família e eu quase nunca vamos, mas sei que a maior parte da população precisa e depende desses hospitais públicos.

Como você definiria o olhar do médico?

Eles precisam manter o controle. Por isso também que o médico não pode operar nenhum familiar, porque ele acaba se envolvendo de outra forma com aquele paciente. Diante de uma situação limite como médico, você precisa ser rápido.

A série retrata a realidade de um hospital público que sobrevive sem os recursos necessários. Sabemos que muitos desses recursos são desviados devido à corrupção. Como se sente em relação a isso?

Como todo brasileiro, estou super indignado. Vivemos um momento que o país está doente. A questão dos hospitais é só uma parcela da merda toda que está acontecendo. Outro dia falei em entrevista que um país sem cultura é um país sem oportunidade, que adoece. Acho que as pessoas estão doentes por falta de saúde, de trabalho. O Brasil hoje é uma ferida aberta que precisamos cuidar.

Você acha que aguentaria trabalhar dessa forma, como médico?

Nunca. Não funciono sob pressão. Tive que me adequar aqui porque tínhamos muito pouco tempo para fazer 9 episódios. Então eu não tinha tempo nem para tomar café, emagreci. É uma energia que levamos para a vida.

Deu para aprender alguma coisa?

Em primeiros socorros eu me dou bem. Se alguém cair aqui eu vou saber o que fazer (risos). Eu já admirava os médicos, agora admiro muito mais. Os tenho como heróis. Meu personagem é meio McGiver da medicina, ele se vira com o que tem, e infelizmente essa é a situação dos nossos hospitais.

A série trata do drama hospitalar mas traz questões pessoais do homem por trás. De que forma você criou este personagem?

Como é uma obra fechada não tem como criar muito. São roteiristas e escritores incríveis que fizeram algo muito interessante e eu estou no caminho que este personagem está seguindo. Não sei se teremos uma próxima temporada, mas sempre fica um gancho porque é um tema que sempre dá pano pra manga.

Como é levar para a TV aberta a questão da saúde pública nesse contexto?

O hospital acaba sendo um reflexo de tudo o que acontece no país. Você tem ali um menino que chega com uma bala perdida, outro que engole uma bala de cocaína, outra que é atropelada, e vamos criando personagens do nosso cotidiano naquele universo hospitalar. É um recorte do Brasil dentro de um único lugar.

É uma série que tem uma emoção muito latente o tempo inteiro. Como é isso para você?

Quando comecei a fazer cinema eu tinha uma preparação e envolvimento que era muito mais vertical. Com o tempo fui aprendendo que isso começou a me fazer mal. É um lugar muito denso, e como ator não posso me envolver com a causa, tem técnica e preparação psicológica. Hoje em dia eu cuido mais de mim, aprendi com o tempo a não levar os personagens pra casa.

O que você espera da repercussão da série?

Espero que seja super positiva, porque as pessoas vão se identificar diretamente. Acho um momento muito propício para esta série acontecer. Estamos vivendo um momento que queremos mudança, e quando se coloca algo desse tipo para as pessoas assistirem, a gente espera algo acontecer, que aconteça uma melhora na nossa saúde, que consigamos nos mobilizar para isso.

Quais são seus próximos trabalhos?

Um Contra Todos da Fox está na segunda temporada que estreia em breve, e já iremos gravar a terceira temporada em Setembro.

Como é conciliar tantos trabalhos?

Neste momento é muito corrido, mas meu plano futuro é fazer 1 filme por ano, 1 série por ano e dedicar o resto do tempo à minha família. Quero mais qualidade do que quantidade. Sempre prezo pelos personagens. Eu mais nego trabalhos do que aceito, é uma construção de carreira que eu decidi fazer na minha vida. O mais legal do trabalho é saber que você vai voltar para a casa e ter uma família te esperando.

*Entrevista realizada pelo jornalista André Romano.

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