Há 93 anos nascia Janete Clair, a senhora dos sonhos às oito

Janete Clair
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Em 25 de abril de 1925, na cidade mineira de Conquista, nascia Jenete Stocco Emmer. O nome da menina foi grafado de forma errada no cartório devido ao sotaque puxado do pai de Janete, o comerciante libanês Salim Emmer. Sua mãe, Carolina, era costureira e tinha ascendência portuguesa. O nome com o qual tornou-se conhecida do grande público e inesquecível para ele, Janete Clair, surgiu de sua música preferida, “Clair de Lune”, do francês Debussy, e foi sugerido já nos tempos de rádio por Octávio Gabus Mendes, um dos diretores da Rádio Tupi, onde ela iniciou sua carreira como atriz e locutora em 1946.

Janete começou a escrever para rádio em 1948. Sua primeira radionovela foi Rumos Opostos, na Rádio América. Em 1950 ela se casou com o dramaturgo e também profissional de rádio Dias Gomes, e passou a escrever para o programa Pausa para Meditação, de Júlio Louzada, apresentado pela Rádio Tamoio. Outras radionovelas foram Perdão, Meu Filho; A Canção do Rio; A Noiva das Trevas; Inocente Pecadora; Alba Valéria; Rosa Malena; e Um Estranho na Terra de Ninguém. Essas duas últimas mais tarde a inspirariam a criar os enredos televisivos de Rosa Rebelde (1969) e Pai Herói (1979), respectivamente.

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Dias Gomes e Janete Clair
Dias Gomes e Janete Clair (Reprodução)

Sua primeira telenovela foi produzida pela TV Tupi do Rio de Janeiro em 1964: dirigida por Fábio Sabag, O Acusador trazia como protagonista Jardel Filho, que interpretava dois irmãos gêmeos na história passada em Pernambuco e que trazia ainda em seu elenco Márcia de Windsor, Zilka Salaberry, Lourdes Mayer e Átila Iório, entre outros. Apenas em 1967 a escritora voltaria a escrever para o gênero, assinando na mesma Tupi a novela (diária, ao contrário da primeira) Paixão Proibida, com Sérgio Cardoso e Miriam Mehler vivendo um romance tumultuado por desavenças entre suas famílias e pelas circunstâncias políticas da Inconfidência Mineira, em fins do século 18.

Anúncio de Anastácia, a Mulher Sem Destino (1967)
Anúncio de Anastácia, a Mulher Sem Destino (1967) (Reprodução)

Nesse mesmo ano de 1967 ocorreu uma grande mudança em sua vida. Com o marido tendo sua vida profissional cada vez mais prejudicada pela perseguição política do regime militar – Dias era comunista e tido como “subversivo” –, com peças proibidas e seu nome boicotado nas emissoras de rádio, Janete foi convocada pela supervisora do núcleo de novelas da Globo na época, a escritora cubana Glória Magadan, para dar um rumo à atração das 21h30, Anastácia, a Mulher Sem Destino – que vinda sendo escrita pelo ator Emiliano Queiroz, representava muitos gastos e pouca audiência para a emissora e precisava de uma solução para uma trama intrincada e com muitos personagens. “Eu tenho um abacaxi para você”, a frase dita por Glória a Janete quando lhe foi apresentado o desafio, tornou-se histórica. Mas ela soube descascar esse abacaxi com uma maestria que permearia toda a sua carreira: teve a ideia de provocar um terremoto na ilha onde a história se passava, que matou quase todos os personagens, deixando apenas os centrais – interpretados por Leila Diniz, Henrique Martins, Ênio Santos e Mirian Pires. Daí em diante, com uma passagem de 20 anos na narrativa, ergueu-se uma nova história. Anastácia não se tornou nenhum superestouro, mas atendeu às expectativas e diminuiu seus custos, tornando-a menos dispendiosa.

A partir daí iniciou-se uma sucessão de títulos, os primeiros ainda sob a supervisão de Glória Magadan, que tinha aversão à ideia de ambientar as novelas no Brasil e tratar de temas nacionais. Transpor para a TV as histórias brasileiras e interioranas de Janete, então, fora de cogitação. Sangue e Areia (1967/68) se passava na Espanha, Passo dos Ventos (1968/69) localizava sua trama no Haiti e Rosa Rebelde mostrava conflitos também espanhóis, nos tempos de Napoleão Bonaparte em sua empreitada de tentar dominar todo o continente. As três novelas tiveram como heroína Glória Menezes, que se tornaria amiga da autora e faria outros trabalhos com ela.

Glória Menezes e Tarcísio Meira em Rosa Rebelde
Glória Menezes e Tarcísio Meira em Rosa Rebelde
(Reprodução)

Ao longo de 1969, Glória Magadan teve enfraquecida sua posição de liderança da dramaturgia global, com queixas de grandes nomes como Sérgio Cardoso e Tarcísio Meira em relação a seu trabalho e o desejo de uma renovação de temas e ideias nas produções da casa. Com sua demissão, o diretor Daniel Filho assumiu seu lugar de comando e deu início com Janete e Dias à renovação das novelas globais. Véu de Noiva, que estreou em novembro de 1969 às 20h, foi a primeira história escrita por Janete como há algum tempo ela já desejava: uma história de amor moderna, atual, no Rio de Janeiro de então, entre um piloto de automóvel, Marcelo (Cláudio Marzo), e uma vendedora de loja, Andreia (Regina Duarte).

Cláudio Marzo e Regina Duarte em Véu de Noiva
Cláudio Marzo e Regina Duarte em Véu de Noiva
(Reprodução)

A disputa de Andreia com sua irmã Flor (Myriam Pérsia) pelo filho desta, que vinha sendo criado pela outra, gerou grande expectativa na reta final da história, que foi sucedida por Irmãos Coragem (1970/71), um faroeste brasileiro com outros ingredientes de apelo como futebol e tripla personalidade. Os garimpeiros João (Tarcísio Meira) e Jerônimo (Cláudio Cavalcanti) e o atleta Duda (Cláudio Marzo), astro do Flamengo, eram os irmãos do título, envolvidos numa grande busca por justiça quando um grande diamante encontrado por João é roubado a mando do Coronel Pedro Barros (Gilberto Martinho), todo-poderoso da região de Coroado, no interior de Minas Gerais. Um ano de sucesso.

A cada novela, mais sucesso e mais problemas com a Censura, que passou a visá-la em razão da grande audiência de seus trabalhos. Uma saraivada de críticas também atingia Janete, acusada de escrever histórias alienantes num momento de convulsão política do País. Mas nada disso a impediu de marcar a história da televisão brasileira para sempre com O Homem que Deve Morrer (1971/72), alegoria da vida de Cristo através do médico Cyro Valdez (Tarcísio Meira), muito perseguida pelos censores; Selva de Pedra (1972/73), que conquistou 100 pontos de audiência ao situar o tumultuado romance de Cristiano Vilhena (Francisco Cuoco) e Simone Marques (Regina Duarte) em pleno “milagre brasileiro”; O Semideus (1973/74), com a trama de um grupo inescrupuloso para se apossar do patrimônio de Hugo Leonardo Filho (Tarcísio Meira); Fogo Sobre Terra (1974/75), que tratava dos impactos da construção de uma barragem no interior de Mato Grosso, também muito prejudicada pela ação da Censura.

Uma nova fase da carreira da autora teve início com Pecado Capital (1975/76), a primeira produção em cores do horário das 20h da Globo, que pensava questões sociais e o dinheiro como influência na vida das pessoas, para o bem e para o mal. A ela seguiram-se Duas Vidas (1976/77), um drama urbano a partir das obras do Metrô, que separavam famílias há muito unidas no bairro carioca do Catete; O Astro (1977/78), com a figura irresistível de Herculano Quintanilha (Francisco Cuoco) tornando-se eminência parda do império da família Hayalla, cujo herdeiro era avesso a dinheiro e poder, e parou o Brasil para revelar quem havia assassinado Salomão Hayalla (Dionísio Azevedo); Pai Herói (1979), a luta de André Cajarana (Tony Ramos) para resgatar a honra de seu pai, enlameada pelo bandido Bruno Baldaracci (Paulo Autran); Coração Alado (1980/81), com a busca por ascensão do artista plástico Juca Pitanga (Tarcísio Meira) dividido entre duas mulheres, Vivian (Vera Fischer) e Catucha (Débora Duarte); Sétimo Sentido (1982), a história de Luana Camará (Regina Duarte) em seu desejo de reaver o patrimônio que lhe fora roubado pela família Rivoredo, e Priscilla Capricce, atriz italiana já falecida que ela incorporava. Uma sucessão de novelas do horário nobre, que lhe rendeu apelidos como “Nossa Senhora das Oito” e “Maga das Oito”.

Dois pontos fora da curva na trajetória de Janete: Os Acorrentados (1969), novela que escreveu às escondidas para ajudar o amigo Daniel Filho, numa rápida passagem pela TV Rio, com Leonardo Villar, Leila Diniz, Dina Sfat e Betty Faria; e Bravo! (1975/76), exibida às 19h e que contava os dramas da vida do maestro Clóvis Di Lorenzo (Carlos Alberto). Com a censura a Roque Santeiro, de Dias Gomes, em 1975, Janete criou Pecado Capital para cobrir a lacuna e deixou Bravo! aos cuidados de Gilberto Braga. Uma curiosidade é que a autora desenvolveu Os Acorrentados ao mesmo em que escrevia os capítulos finais de Passo dos Ventos e os primeiros de Rosa Rebelde… Uma verdadeira máquina de criar histórias, com todos os ingredientes que faziam a glória do público.

Em 1982, durante entrevista a Leda Nagle, Janete explicou com muita simplicidade o que consistiria numa eventual “fórmula” de sucesso: “Eu acho que entendo um pouco da psicologia do povo, o que é que ele gosta de ver, gostaria de sentir naquele momento… Se é uma emoção de alegria, de tristeza, de drama… Então, eu acho que você sabendo dosar isso bem, é quase que… não digo que uma fórmula de se atingir o sucesso, mas é uma maneira de se atingir o grande público. É uma comunicação assim: de gente pra gente, de emoção pra emoção. Eu acho que é isso. Não pode ser outra coisa, eu não estudei pra isso… É uma intuição, é um sexto sentido.” Não era preciso dizer mais nada.

Em setembro de 1983, Janete Clair estreou aquela que viria a ser sua última novela: Eu Prometo, que reativava o horário das 22h, tinha como protagonista o deputado Lucas Cantomaia (Francisco Cuoco), exemplo de homem público, marido e pai, em conflito com seus verdadeiros anseios, de viver plenamente seu amor com a fotógrafa Kely (Renée de Vielmond). Infelizmente desta ela não viu o final, tendo falecido em novembro do mesmo ano aos 58 anos e deixado a condução da história a cargo de Glória Perez. A obra de Janete Clair ainda hoje influencia os novos autores, dado o fascínio de suas histórias e o modo único de cativar o público e ao mesmo tempo levantar temas importantes para a discussão. Ela segue insubstituível.

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