Verão 90 diverte, mas é uma novela cheia de furos

Publicado há 2 anos
Por Fábio Costa
Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Já com dois terços de sua história exibidos, Verão 90, a novela das 19h da Rede Globo, pode ser considerada um sucesso. Seus índices de audiência se mantiveram próximos dos de sua contemporânea das 21h até meados de maio, O Sétimo Guardião, e seguem em bom patamar para seu horário. Todavia, nem tudo são flores. Desde o começo não são poucas as críticas a variados elementos que compõem a novela. De acontecimentos, músicas e elementos de cena a anacronismos com expressões verbais, penteados e vestuário, a história contada por Izabel de Oliveira e Paula Amaral já pisou na bola em diversas ocasiões. Vamos citar algumas.

Patotinha Mágica: o conjunto poderia muito bem não existir

A Patotinha Mágica de Verão 90 – João (João Bravo), Jerônimo (Diogo Caruso) e Manuzita (Melissa Nóbrega) se apresentando no programa infantil comandado pelo trio (Foto: Globo/Estevam Avellar)

Manuzita (Isabelle Drummond) e os irmãos Jerônimo (Jesuíta Barbosa) e João (Rafael Vitti) poderiam ter se conhecido na infância em virtude de estudarem na mesma escola. Ou mesmo por morarem na mesma vizinhança. Apesar de a ideia da alusão a conjuntos como Balão Mágico e Trem da Alegria ter sido válida e feito a alegria de alguns nostálgicos, ela mostrou-se um pouco gratuita no desenrolar da narrativa. Às vezes ainda são feitas algumas referências ao passado dos personagens, como nas citações de Lidiane (Cláudia Raia) a Janaína (Dira Paes) justificando suas diferenças. Ou quando Manuzita canta trechos da música de maior sucesso da Patotinha. Mas fica nisso.

Continua depois da publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

O anacronismo da trilha sonora é um dos furos de Verão 90

A narrativa de Verão 90 teve início com um prólogo nos anos 1980. Posteriormente, durante alguns capítulos a ambientação foi em 1990. Isso até a passagem de tempo que levou a história a 1993, ano no qual se situa desde então. No entanto, “Menino do Rio”, com Baby do Brasil, outrora Consuelo, tema de abertura de Água Viva (1980), é usada como tema de João. Que nos anos 1990 está na casa dos 20 anos. Os jovens dessa faixa na época em questão seriam embalados por outras músicas. De tal forma que, mesmo que “Menino do Rio” seja muito bonita, não reflete o tipo de surfista que João representou.

Outro exemplo é “Saideira”, do Skank, bastante utilizada em cenas de reuniões e festas descontraídas. Como dito anteriormente, estamos em 1993 na novela. A música foi lançada em 1998.

Objetos e expressões impossíveis de serem usados em 1993 – mas que constam de Verão 90

Mercedes (Totia Meireles) no cenário com a trilha de Hilda Furacão na estante (Reprodução/TV Globo)

Seja porque o texto pede, seja porque os atores improvisam, Verão 90 vira e mexe surge com uma expressão que não existia nos anos 1990. Ou que, ao menos, não tinha na época a acepção que damos a ela hoje em dia. Principalmente os mais jovens, que naturalmente dirão coisas às quais estão habituados. Só para ilustrar, “Tô passada”, entre outros, sequer passavam pela cabeça das pessoas naquela época. Vale ressaltar que eram tempos de politicamente incorreto muito mais tolerado do que hoje. Uma reprodução da linguagem sem o espírito polido do século 21 poderia soar ofensiva ao público.

Outra coisa são penteados, roupas e objetos de decoração que não poderiam constar das cenas em virtude da época que supostamente se deseja evocar. Um dos exemplos mais gritantes é um CD com a trilha sonora da minissérie Hilda Furacão, focalizado na estante do quarto de Quinzinho (Caio Paduan) e Dandara (Dandara Mariana). Nada haveria de errado, não fosse o fato de que a minissérie de Glória Perez, baseada no romance de Roberto Drummond, fora ao ar apenas em 1998.

Lambada em alta em 1993

No quesito penteados e caracterização, uma das mais adequadas é Marina Moschen. O cabelo e as roupas de Larissa na novela condizem com os das meninas de sua posição social no começo dos anos 1990. Alguns outros personagens, como Álamo (Marcos Veras), Galdino (Gabriel Godoy), Quinzinho e Dandara também não fazem feio, em geral. Aliás, falando em Dandara e seu antigo parceiro artístico, Ticiano (Ícaro Silva), lambada já não era algo tão em voga em 1993. Se fosse ainda em 1990, com toda a certeza, estaria adequado. Tanto assim que a novela das 20h daquele ano, Rainha da Sucata, de Silvio de Abreu, tinha uma lambada como tema de abertura. Era “Me Chama que Eu Vou”, com Sidney Magal.

Nos nomes dos irmãos protagonistas, a homenagem que resultou
em tropeço cronológico

Os filhos de Janaína não se chamam Jerônimo e João à toa. Segundo a personagem, o batismo ocorreu em virtude dos personagens homônimos da novela Irmãos Coragem, de Janete Clair. A novela em questão foi exibida entre 1970 e 1971. Na fase de Verão 90 passada em 1990, os dois rapazes tinham mais de 20 anos. Ou seja, não podiam ter sido batizados em homenagem à novela. Quando os irmãos foram concebidos, ela não havia ainda sido exibida. Quando a história estava em 1990, João contava 20 anos e Jerônimo, 22. Logo, com tudo isso se passando pouco depois do Plano Collor (em março de 1990), as contas não fecham.

Chacrinha na Globo em 1980

Outro caso assim ocorreu já no primeiro capítulo, no prólogo dos anos 1980. Uma cena de almoço em família mostrou uma folhinha que indicava que os personagens estavam em 1980. No entanto, eles almoçaram assistindo ao Cassino do Chacrinha, que estreou apenas em 1982.

Nas referências “internas”, os erros também se fazem
presentes

Rafael Vitti é filho de João Vitti, ator lançado em 1992 em Despedida de Solteiro, de Walther Negrão. Seu papel era o de Xampu, filho de Dona Emília (Lolita Rodrigues) e irmão de Flávia (Lúcia Veríssimo). Antes que Verão 90 chegasse a 1993, numa cena foi mostrado o LP com a trilha sonora da novela. E se fez referência ao fato de que João era muito parecido com Xampu. O noveleiro de carteirinha não deixa passar esse tipo de coisa. Nem boa parte do público, ao contrário do que deve parecer. As redes sociais estão aí para atestar isso.

A perda da oportunidade de retratar uma década

Os nostálgicos anos 1980 começam a dar também espaço ao decênio seguinte nas narrativas da dramaturgia. O mínimo distanciamento temporal que já existe leva a um resgate daquela época. Verão 90 deixou passar uma boa oportunidade de resgatar a década com um vigor que poderia ir além das referências. Como a estrela pop La Donna (Danni Carlos), que fazia sucesso com “Rhythm of The Night” (de Corona). E as alusões nada discretas a Vale Tudo (1988), entre outros pontos.

Pode parecer bobagem se ater a isso, reparar em detalhes. Existe quem defenda que é a década de 1990 que se representa, não os anos em questão. Ora, então que não fossem especificados os anos. Do contrário o que temos é uma salada de referências que mira na homenagem e acerta na caricatura. Ademais, não detesto a novela e acho que ela cumpre bem sua função de entreter. Ficção não precisa ser uma representação fiel da realidade. Mas quando um projeto de tanta visibilidade se propõe a retratar um período histórico, não pode fazê-lo superficialmente.

*As informações e opiniões
expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou
não refletir a opinião deste veículo.

Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio