Roberto Cabrini faz jornalismo, sobe o morro e ouve os dois lados no caso Jacarezinho

Repórter entrevistou autoridades da polícia e moradores em sua reportagem para o Domingo Espetacular

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Roberto Cabrini com sua equipe do Domingo Espetacular, da Record TV, mal esperou o fogo baixar. Ele foi ver o dia raiar numa manhã seguinte na favela do Jacarezinho, Zona Norte do Rio de Janeiro, onde na última quinta-feira (5 de maio) houve uma operação policial gigantesca com resultado sem precedentes na história da cidade.

Cabrini entrou nas casas da comunidade e conversou com seus moradores, mostrou pontos onde houve confrontos, além de exibir uma espécie de barricada que impediu o veículo blindado da força policial de subir o morro.

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Foram exibidas imagens do meio da operação – provavelmente produzidas pela própria força policial -, além daquelas cenas que todos os telejornais tiveram, a partir dos helicópteros que sobrevoaram o local, mostrando homens em fuga portando armamentos pesados, como fuzis.

Foram 250 homens da Polícia Civil que entraram no Jacarezinho para cumprir 21 mandados de prisão por conta de investigação sobre aliciamento de crianças e adolescentes para o tráfico de drogas. A ação resultou em 28 mortos, um número inédito mesmo para uma cidade com histórico de grande violência como é o Rio de Janeiro. A polícia carioca divulgou como saldo a apreensão de seis fuzis, 15 pistolas e ainda, munição antiaérea.

Entre os policiais, houve uma baixa: o policial civil André Leonardo de Melo Frias, 48. Ele foi alvejado na cabeça logo no início da ação e Cabrini mostrou o local onde ele morreu, ainda com a mancha de sangue. Uma gravação de celular com o momento em que o policial foi abatido foi exibida pela reportagem e ela é bem chocante, seja pelo acontecimento, seja pela comemoração que traz.

Essa morte logo no começo da operação pode ter sido decisiva para todo o trágico resultado final, conforme questionou o jornalista às autoridades policiais envolvidas na decisão da invasão do local. O jornalista também entrevistou a viúva de Melo Frias e seu filho adolescente em seus momentos de dor.

É preciso dar crédito ao esforço de reportagem de Cabrini e sua equipe de produtores. O principal concorrente do Domingo Espetacular no horário, o Fantástico, na TV Globo, fez uma breve e superficial matéria sobre o acontecido na semana, numa opção editorial que foi a de privilegiar a cobertura da morte do ator e humorista Paulo Gustavo, astro da casa e vítima da covid-19 aos 42 anos.

Temos visto que parte significativa da imprensa, inclusive a televisiva, vem preferindo emitir opiniões sobre o acontecimento trágico no Jacarezinho sem, no entanto, buscar novas informações para tentar elucidar melhor o episódio.

E isso é compreensível: o crime não facilita a vida de quem investiga e faz reportagem. Nunca é demais relembrar o que fizeram com o jornalista da TV Globo Tim Lopes, em 2002. Desaparecido enquanto apurava uma reportagem sobre tráfico de drogas e abuso de menores em bailes funk da Vila Cruzeiro, Zona Norte carioca, ele foi sequestrado, torturado e queimado vivo por traficantes, sob comando de Elias Pereira da Silva, conhecido como Elias Maluco.

Em fevereiro último, completaram-se 25 anos desde que o astro Michael Jackson (1958-2009) subiu o Morro Dona Marta para gravar, sob direção de Spike Lee, o videoclipe da música ‘They Don’t Care About Us’. Depois de ter de buscar autorização da Prefeitura, PM, Guarda Municipal e Associação de Moradores, a equipe precisou entrar em negociação com os chefes do tráfico local para poder seguir as filmagens.

Isso tudo só mostra o mérito de Roberto Cabrini e do seu time para conseguir negociar tal inserção no local. A tarefa foi desempenhada em tempo recorde. Mas não tenhamos ilusões: ele fez o que lhe era possível. Em áreas onde o Estado não está presente e há domínio do crime, nem tudo pode ser dito diante das câmeras. Não há espaço para o contraditório no morro.

Assim, vimos que todos os moradores entrevistados por Roberto Cabrini condenaram a ação policial, ninguém admite ter visto armamentos, as versões são únicas: todas dão conta que homens foram executados após se renderem. As mães choram os filhos mortos que deveriam, segundo elas, terem sido presos. São depoimentos carregados de revolta e emoção.

Ainda, as entrevistas foram todas dadas em aberto, ou seja, sem aqueles recursos de se esconder a identidade e mudar a voz, garantias para quem opta por for se pronunciar e manter sua identidade sob sigilo. O espectador mais atento percebeu que ninguém deu entrevista para condenar ou criticar a presença do crime no local.

O fato relevante aqui é que, no calor do momento, Cabrini fez a sua parte e de forma ágil, entrevistando os lados possíveis e levando sua reportagem ao grande público. Às autoridades competentes cabe agora seguir com todo o restante.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de sua autora e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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