Redonda, A Força do Querer termina como a melhor novela de Gloria Perez

Publicado há 3 anos
Por João Paulo Reis
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Me lembro como se fosse hoje de uma entrevista da Gloria Perez no Domingão do Faustão. Ela falava com o apresentador sobre as dificuldades de se escrever uma novela e contava curiosidades como o número de páginas que costumava escrever por capítulo. O ano era 1996, sua trama, Explode Coração, fazia um enorme sucesso movimentando uma campanha em prol das crianças desaparecidas. Eu, criança, vendo aquilo na televisão, só conseguia pensar o quanto era interessante escrever novelas: “É isso o que quero fazer da vida”, pensei.

_ O que você quer ser quando crescer?
_ Quero escrever novelas. – Ao dar essa resposta, que era inusitada, tinha sempre a cara de surpresa de quem fez a pergunta. O tempo passou, e fui prestando atenção no trabalho de cada um dos autores brasileiros. Conheci o trabalho da Gloria Perez de verdade em O Clone, e confesso, ela nunca foi minha autora favorita.

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Quando Salve Jorge estreou, fiquei triste pelos temas recorrentes, e recursos como as muletas de sustentação da trama utilizadas pela autora estarem presentes: Cultura exótica de um lugar onde a maioria dos brasileiros não vai poder conhecer de perto, danças, figurino igualmente exótico, viagens na velocidade da luz, e demais elementos que em tempos de redes sociais, não passaram batido pelo público, que resolveu online massacrar a novelista. Tudo o que ela dizia, ou escrevia em seu texto virava motivo de chacota, até a chegada de A Força do Querer.

Sem dúvida, A Força do Querer foi a redenção de Gloria Perez que deu sua cara a tapa, e colocou no ar uma trama envolvente, que pode sim, ser considerada um fenômeno. Muitos são os motivos pelo seu sucesso, tanto em audiência como em repercussão.  Na trama das 21h, não houve a enrolação típica dos folhetins, afinal são outros tempos e ninguém mais tem paciência para acompanhar a cenas longas e capítulos que não se desenvolvem. A agilidade deu o tom destes 173 capítulos, em que a autora mostrou todo o seu poder de fogo e conhecimento acerca dos temas trabalhados. Todos aqueles diálogos eram extremamente próximos da realidade, e do dia a dia dos telespectadores. O principal produto da Globo veio de forma clara para discutir sem rodeios todos os aspectos do mundo contemporâneo.

Protagonistas

Gloria Perez fez algo interessante em A Força do Querer. Ela colocou no ar, tramas entrelaçadas de três diferentes protagonistas, todas mulheres, e todas com força suficiente para segurar a novela. Com enredos giratórios, ela deu diferentes pesos a diferentes histórias. Era como se a cada nova semana, uma personagem entrasse no foco do enredo e tivesse o seu momento de brilhar. Ali, ela mostrou o amor em seus diferentes tipos:

Isis Valverde (Divulgação/ TV Globo)

Ritinha (Isis Valverde) é a representação clara do amor próprio. Ela não é uma vilã, e não tem prazer em fazer o mal, mas suas atitudes são pautadas pelo tal amor que beira o egoísmo. Ela é definitivamente uma sereia, em sua explicação mais clara, encanta os homens, os leva para suas águas e faz com eles a sirvam a seu modo. Em algumas cenas, outros personagens chegaram a dizer que a moça era como líquido, que escapava quando tentavam segurá-la. Ela tem essa irresponsabilidade infantil, misturada a uma sensualidade quase adolescente, que conquistou e ao mesmo tempo irritou o público. Ritinha age no instinto, na auto-proteção, é humana, complexa. Não mentiu quando disse gostar de dois homens, mas gosta de si mesma acima de qualquer coisa. Não tentou frear as investidas de Ruy (Fiuk), quando comprometida com Zeca (Marco Pigossi), porque o cortejo a fazia se sentir desejada. Não havia porque domá-la, ela é a menina do pé descalço, das águas e da natureza.

Bibi (Juliana Paes) e Rubinho (Emílio Dantas) (Divulgação/ TV Globo)

Bibi (Juliana Paes) representa o amor desmedido. Ela queria amar grande e ser amada na mesma medida. Se jogou de cabeça em suas convicções sem receio ou medo de que isso pudesse afundá-la. Quando traiu Caio (Rodrigo Lombardi) com Rubinho (Emílio Dantas) no início da trama, e resolveu construir uma vida ao lado do garçom, ela fez uma aposta naquele homem, e acredito que ele conseguiria fazê-la feliz como ela sempre desejou. Ao vê-lo enveredar pelo caminho do crime, ela foi junto, e o que para o público soou como burrice ou desculpa esfarrapada, para Bibi era bem mais: provar a todos que o investimento que ela fez nessa relação anos atrás ainda valia a pena. Fabiana, ao contrário de Ritinha não tem amor próprio, ela é daquelas mulheres carentes ao extremo, que precisa sempre do olhar alheio para se afirmar, ela precisa sempre se sentir aprovada por alguém. Muito se falou sobre a personagem de Juliana estar fazendo uma glamourização do crime. Só existe glamourização quando aquilo o que é mostrado em cena, é colocado apenas com intenção de exaltação, o que não houve em A Força do Querer. Bibi não foi vítima das circunstâncias, ela escolheu este caminho e pagou pelas más escolhas. As pessoas passaram a temê-la, afastaram-se dela. Sua fama respingou em sua profissão, e em sua possibilidade de futuro, enfim, ela teve a vida destruída pela proximidade com o mundo do crime. Isso é glamourizar?

Jeiza (Paolla Oliveira) e Iron em A Força do Querer (Divulgação/ TV Globo)

Jeiza (Paolla Oliveira), é sem dúvida uma heroína dos novos tempos que representa o amor racional: Uma mulher forte, decidida, que cuida da mãe, preza seus relacionamentos, se afeiçoa aos vizinhos, mas está longe de ser uma princesa frágil. Pelo contrário, ela tem força, defende sua profissão com unhas e dentes, e se dedica a um esporte que é o espelho de toda a sua força interior. Ela é o reflexo da mulher jovem atual, que trabalha, tem opinião forte, e vai de encontro a qualquer tipo de machismo e injustiça. Ela é a mulher do mundo real, e também do mundo ideal. É a policial ética que todos gostariam de ter por perto. Existe um motivo muito forte para que Jeiza não tenha conseguido um final feliz ao lado de Caio. Como excelente lutadora, ela é movida a desafios, e o secretário de segurança, não a desafiava emocionalmente. Zeca sim, ela viveu com ele lutas diárias para que ele deixasse de lado o machismo presente em sua personalidade e enraizado culturalmente na sociedade que o rapaz estava acostumado a viver.

Codjuvantes

Todos os coadjuvantes foram planejados para estarem ali presentes naquelas situações. Eles deram veracidade às suas cenas, e foram construídos de maneira irrepreensível tornando toda a trama redonda o suficiente. Desta forma, vimos personagens ora pequenos tornarem-se enormes e ganharem o carinho do público, como é o caso de Aurora (Elizângela), a sofrida mãe de Bibi, que presenciou as escolhas da filha em seguir um homem pelo caminho do crime, ao invés de lutar para ser uma grande advogada, como era seu sonho.

Maria Fernanda Cândido como Joyce em A Força do Querer (Divulgação/ TV Globo)

A construção de todas as tramas paralelas se deu de forma madura e entrelaçada. Nonato (Silvero Pereira), Ivana (Carol Duarte), Sabiá (Jonathan Azevedo), Joyce (Maria Fernanda Cândido), Elvira (Betty Faria), Silvana (Lilia Cabral), Simone (Juliana Paiva). Sozinhos nenhum destes personagens teria o vigor que tiveram. Joyce agiu como a âncora da história, aquela que não era protagonista, mas foi o centro para que tudo orbitasse à sua volta: Desde a paixão pelos filhos, e seu desejo de manutenção dos costumes que a impedia de enxergar as mudanças do mundo.

Joyce é como as pessoas conservadoras que ressurgiram das cinzas há alguns anos pregando “bons costumes” de modo autoritário: Todo o seu castelo desmoronou quando percebeu que o mundo era diverso, e diferente do que ela estava acostumada. Sua implicância com Ritinha, a não-aceitação da transexualidade de Ivana, a falta de apoio ao marido que queria mudar de profissão, tudo era fruto do tradicionalismo mais triste, aquele que cega a quem não percebe que o mundo vai além de suas caixinhas. Joyce foi como a “tradicional família brasileira”, que encontra problemas em lidar com um filho transgênero, mas não vê problemas em um filho que atentou contra a vida de outra pessoa.

Ivana (Carol Duarte) vivencia conflito com o corpo em A Força do Querer (Reprodução/TV Globo)

Outro positivo de A Força do Querer, foi a forma como foram exploradas as tramas em relação às minorias: Ivana, uma das personagens que mais emocionou o público, foi construída passo a passo, e ao contrário do que se esperava inicialmente, não sofreu rejeição. Os telespectadores abraçaram sua causa, e entenderam, de forma geral, quais os sentimentos uma pessoa trans carrega, afinal a mudança existe de dentro para fora. A aparência é só a última etapa. Seu desenvolvimento foi irrepreensível, assim como Nonato, que agiu como contraponto para explicar ao grande público as diferenças entre transgêneros e travestis. Carol Duarte, em seu primeiro trabalho na televisão deu verdadeiro show de sensibilidade e atuação, mesmo carregando em suas costas o peso da responsabilidade de explicar para 80 milhões de pessoas (público médio da novela) todas as principais questões acerca dos gêneros, algo tão importante de ser informado no país que mais mata LGBTs no mundo.

A direção de Rogério Gomes fez toda a diferença na história de Gloria Perez, afinal um bom diretor, consegue captar toda a alma do projeto, e ele conseguiu juntamente com sua equipe. Suas inserções de áudio ao final dos capítulos, seus cortes, e planos fizeram de toda a novela, um produto bonito de se ver esteticamente, mesmo com aquele incômodo filtro azul na imagem. Problemas? Tiveram alguns poucos, do qual destaco o principal: Um último capítulo corrido, onde os desfechos de histórias importantes foram simplesmente disparados cena a cena. Silvana precisava de mais tempo de tela, mas somente ao ver a filha na mira de um bandido, se deu conta do próprio problema, o mesmo digo a respeito do desfecho atribuído a Nonato e Eurico (Humberto Martins), que mereciam mais.

Interessante como a Globo consegue flertar mais com a fotografia cinematográfica em suas novelas atuais do que em suas séries. Neste último capítulo, talvez o que menos importou foi com quem um ou outro personagem terminou, afinal com mais altos que baixos, A Força do Querer, é certamente uma novela que vai ficar na memória do público por razões muito maiores que os casaizinhos da trama, e sim como um grande sucesso, e como uma das melhores, senão a melhor obra de Gloria Perez, responsável por fazer um público que andava torcendo o nariz para as novelas parar novamente em frente à TV por 6 meses. À Gloria, Papinha, e a todos os envolvidos, um obrigado.

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