Órfãos da Terra: novela chega à metade e dá mostras de que perdeu o gás

Publicado há um ano
Por Fábio Costa
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Com previsão de terminar apenas no fim de setembro, a novela Órfãos da Terra, cartaz das 18h na Rede Globo, não exibe mais a inspiração do começo. Os primeiros capítulos, exibidos no começo de abril, empolgaram. Tanto que não faltou quem considerasse a história merecedora da faixa das 21h, hoje ocupada por A Dona do Pedaço.

Refugiados de guerra, perseguição, sofrimento e um grande amor: bases lançadas no princípio da história

Thelma Guedes e Duca Rachid contam uma história de amor entremeada pelos conflitos decorrentes da mudança de uma família de país, contra a sua vontade. Laila (Júlia Dalavia) foi obrigada a emigrar da Síria para o Brasil em consequência da guerra que o país vive há alguns anos. Durante uma passagem de sua família por um campo de refugiados de guerra no Líbano, Laila conheceu Jamil (Renato Góes). Os dois se apaixonaram. No entanto, ela também despertou o interesse e a cobiça do padrinho e patrão de Jamil, o sheik Aziz Abdallah (Herson Capri). Sem que um soubesse dos sentimentos do outro, a saber. Quando Aziz estava prestes a se casar com Laila, esta fugiu de seu jugo. E só então Jamil, ao receber dele a missão de trazê-la de volta, descobriu a coincidência.

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Coincidência esta que mostrou-se, com efeito, bastante desagradável para o casal principal de Órfãos da Terra. Como se não bastasse a perseguição de Aziz, seu desejo de casar Jamil com sua filha Dalila (Alice Wegmann) gerou também os sentimentos de ingratidão e frustração no sheik. E estes foram reforçados quando Aziz descobriu que Jamil não apenas havia encontrado Laila, como também que os dois estavam juntos e apaixonados. De tal forma que obviamente ele não a levaria de volta para o Líbano, tampouco voltaria sem ela. Todavia, passados os transtornos esperados, como uma chegada de Aziz ao Brasil para recuperar a mulher que ele julgava ser sua e o assassinato misterioso do sheik, meio esquecido por ora na história, Órfãos da Terra estacionou seu casal central.

A vingança de Dalila destrói o entorno de Laila e Jamil em Órfãos da Terra

Dalila/Basma (Alice Wegmann), de Órfãos da Terra (Reprodução)

Passados três anos na história de Órfãos da Terra, Dalila veio do Líbano para o Brasil para destruir Laila e Jamil. Sua tática é desestabilizar a relação deles se insinuando para o jovem, que ela desejava ter como marido. E também destruindo todos que rodeiam o casal. Para tanto, conta com o apoio de Paul (Carmo Dalla Vecchia) para, por exemplo, envolver Miguel (Paulo Betti) numa roda-viva de vício em jogo. O que o levará a dentro em breve perder tudo que tem. Miguel não é outro senão o marido de Rania (Eliane Giardini), prima de Missade (Ana Cecília Costa), mãe de Laila. Foi ela quem ajudou os parentes quando eles vieram para São Paulo. Sob a identidade de Basma Bakri, Dalila chegou como uma figura generosa e salvadora, uma vez que supostamente é uma empresária interessada em ajudar refugiados de guerra. Bem a calhar.

Com toda a certeza, a vingança de Dalila acaba se mostrando
algo esvaziada, uma vez que sua teia, por mais abrangente que seja, pode ser
facilmente desfeita. Além disso, ela incorre no erro de todo estrategista
mau-caráter: subestimar e humilhar aquele que mais a ajuda e de quem mais
depende, a saber, Paul, que a ama e disso não faz segredo. Dalila é a grande vilã,
mas até aqui ainda faz com que o público sinta falta de seu pai, o sheik, um
malvado que dava medo, e de sua mãe, Soraya (Letícia Sabatella), morta pouco
antes do marido.

O que fazer para levar a segunda metade de Órfãos da Terra

Aziz e Soraya, em virtude de sua relação com Rania, tinham muito ainda a render na história. Seus conflitos próprios renderiam não apenas bons momentos para os atores, como também um ponto de interesse para além da trama principal. Só para ilustrar, Rania era mãe de Soraya, portanto, sabia bem do que o sheik era capaz para obter o que desejava. É certo que as tramas de outros personagens acabam chamando a atenção. A mais eficiente delas provavelmente seja a do amor entre a judia Sara (Verônica Debom) e o árabe Ali (Mouhamed Harfouch). Era mais interessante antes da discussão sobre ter ou não ter filhos o casal formado por Zuleika (Emanuelle Araújo) e Almeidinha (Danton Mello), mas os dois atores seguem bem em cena.

O relacionamento frágil de Laila e Jamil

Mas Laila e Jamil prosseguem vivendo uma relação frágil, sempre no fio da navalha em meio aos muitos problemas dos Faiek, a família dela. Nem todos provocados por Dalila em sua vingança, é bom lembrar. Afinal, não foi a jovem libanesa quem levou Elias (Marco Ricca), pai de sua rival, a trair Missade com a viúva Helena (Carol Castro). Nem foi Dalila quem viciou Miguel em jogo; apenas ajudou para que uma velha chama de descontrole se reacendesse. O casal depende em excesso de outros acontecimentos para que aja, ou tente agir.

Laila é uma personagem pouco carismática, que vive em função de todos os outros parentes e amigos. Ela carrega uma carga de sofrimento e tristeza que praticamente a impede de sorrir, apesar de ter um filho e estar casada com o homem que ama e a salvo da guerra. Por sua vez, Jamil é fraco e inseguro, e a mínima fagulha de desentendimento entre a esposa e ele os leva a tomarem atitudes exageradas de retaliação. É aí que entram Dalila/Basma e Bruno (Rodrigo Simas), fotógrafo que só espera uma chance para ficar com Laila.

Que volte a “novela das 21h exibida às 18h”

Se por um lado é bom que nos meses a fio que permanece no ar uma novela seja plena de acontecimentos, por outro sem uma boa dosagem dos acontecimentos essa suposta agilidade só mascara tramas frágeis e que acabam girando no próprio eixo. Órfãos da Terra não é ruim, longe disso. No entanto, ainda pode recuperar aquele clima do começo, de seriedade temática aliada a cenas impactantes e conflitos emocionais poderosos. Todavia, a novela pode também embarcar numa grande barriga, maior do que a que já se pode sentir, se as autoras e seus colaboradores não avaliarem de outra forma o desenvolvimento da segunda metade da história. Seria bom voltar a ter aquela “novela das 21h exibida às 18h”, algo que se perdeu no caminho.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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