O Tempo Não Para: novela aborda racismo e lugar do negro com seriedade

Publicado há 2 anos
Por Fábio Costa
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Neste Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, cabe uma vez mais a reflexão acerca do problema do racismo em nossa sociedade. Ironicamente, um país como o Brasil, composto de maioria negra ou “mestiça”, apresenta níveis de preconceito de cor alarmantes. A ponto de ser necessária a existência de uma lei para assegurar o óbvio, o respeito aos não brancos como iguais que todos somos. O Tempo Não Para, no ar às 19h, tem colaborado para esse respeito e essa consciência.

As novelas podem e devem colaborar para uma abordagem não só natural do assunto, como também necessária. A recém-concluída Segundo Sol, de João Emanuel Carneiro, causou polêmica no início do ano. Em virtude de seu elenco ser composto na quase totalidade por brancos, a produção foi muito criticada. Isso numa história passada na capital baiana, Salvador. Espelho da Vida, de Elizabeth Jhin, em cartaz às 18h, quase não tem negros. Sem simplesmente preencher uma cota, e sem forçar a barra, O Tempo Não Para é a novela com mais atores negros em posições determinantes.

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A obra de Mário Teixeira, com direção-artística de Leonardo Nogueira, apresenta em sua trama central uma família do século 19, que é vítima de um naufrágio e ficou congelada no oceano por mais de 130 anos. E por “família” entenda-se além da esposa e das filhas de Dom Sabino Machado (Edson Celulari). Incluam-se também os cinco escravos, de diferentes funções. Não bastasse o choque de acordarem numa sociedade completamente diferente, mais de um século após tudo a que estavam habituados, eles também se veem às voltas com uma condição diferente àquela destinada aos negros em seu tempo. Pelo menos, em termos.

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Os escravos de O Tempo Não Para e sua posição nos novos tempos – ainda com discriminação e preconceitos

Cesária (Olívia Araújo) em O Tempo Não Para (Reprodução/TV Globo).

Cesária (Olívia Araújo), Menelau (David Júnior), Damásia (Aline Dias), Cairu (Cris Vianna) e Cecílio (Maicon Rodrigues) foram congelados junto com o núcleo familiar de Dom Sabino. Cesária era ama de leite da casa, e as belas joias que faz enchem os olhos de quem vê. Menelau atuava como escravo de segurança. Damásia era ama de companhia de Marocas (Juliana Paiva), e cozinha muito bem. Cairu, escrava mina, cobiçada por sua beleza e porte. Por sua vez, Cecílio era “tigre”, a saber, nome dado aos escravos encarregados de transportar os dejetos das casas.

Além dos problemas decorrentes da adequação aos novos tempos, eles se defrontam com a condição de ex-escravos, no sentido de não pertencerem mais a Dom Sabino. Embora livres, a sociedade os mantêm até certo ponto em posições semelhantes às que ocupavam enquanto propriedade do antigo senhor. Em mais de 100 anos, as coisas mudaram menos do que a princípio pareceram ter mudado. Em virtude de ser analfabeta, jovem e negra, Damásia foi discriminada ao assumir a vaga de chef na Samvita. O emprego na empresa de Samuca (Nicolas Prattes) foi arranjado por Elmo (Felipe Simas).

Personagens não escravos, mas negros, que também marcam presença em O Tempo Não Para

Além do núcleo central, o dos “congelados”, como são chamados, O Tempo Não Para apresenta outros personagens negros importantes. E que levantam questões válidas para discussão num horário supostamente mais leve e “engraçadinho”. Sem abrir mão do tom geral da novela, o autor e seus colaboradores tocam em feridas da sociedade.

Paulina (Carol Macedo) e Eliseu (Milton Gonçalves) em O Tempo Não Para (Reprodução/TV Globo).

Eliseu (Milton Gonçalves) é um dos mais simpáticos personagens da novela. Foi confundido com um escravo por sua cor, especialmente por Agustina (Rosi Campos), mulher de Dom Sabino. Criou como filha a neta Paulina (Carol Macedo), na verdade filha de seu filho marginal. Barão (Rui Ricardo Diaz) é um bandido perigoso e temido na Freguesia do Ó. Paulina é uma jovem bonita e esforçada, estudiosa, orgulho do pai-avô.

Há ainda outro neto de Eliseu, Omar (Max Lima), filho de Barão com Mazé (Juliana Alves). A fim de evitar que Omar seguisse o mau exemplo de Barão, afastou-o de maiores contatos com o lado paterno. A propósito, o adolescente também foi vítima de preconceito. Ele teve inicialmente recusada sua presença numa escola particular de alto padrão. No entanto, Miss Celine (Maria Eduarda de Carvalho), professora e também ela uma “congelada”, não se calou e intercedeu por Omar.

O preconceito, eventualmente, pode ter pautado o comportamento de Vanda (Lucy Ramos), responsável pela área jurídica da Samvita. Temida e respeitada, ela se impõe com sua autoridade – eventualmente para afastar de si o racismo com o qual, por sua cor, ela está habituada.

O Tempo Não Para: Cesária é vítima de racismo em loja luxuosa de São Paulo

No Dia da Consciência Negra, O Tempo Não Para é boa pedida

Mário Teixeira, Bíbi Da Pieve, Marcos Lazarini e Tarcísio Lara Puiati oferecerão nesta noite a melhor e mais respeitosa abordagem do racismo entre as novelas atuais. Mesmo que não haja cenas nessa linha. O Tempo Não Para reafirma com seus personagens negros a importância da existência de um Dia da Consciência Negra. Apesar da obviedade da igualdade, não falta quem a negue.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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