Nos 30 anos da Tela Quente, uma reflexão sobre o cinema na TV

Publicado há 3 anos
Por Fábio Costa
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Com a saída de Jô Soares da Rede Globo no final de 1987 (quando se transferiu para o SBT), a emissora precisou de uma atração de peso para ocupar a lacuna deixada pelo humorista, que nas noites de segunda-feira apresentava seu Viva o Gordo.

Em parte tendo por base os bons resultados de audiência do Supercine, no ar desde 1981, a Globo decidiu atacar a concorrência com filmes “arrasa-quarteirão” às segundas-feiras e criou a Tela Quente, que estreou em 7 de março de 1988. O nome combina com o espírito geral dos cartazes destinados à sessão, filmes de ação com cenas de violência, perseguições, tiroteios, adrenalina. Já no primeiro mês a emissora mostrou que não estava mesmo para brincadeira e programou os seguintes filmes: Guerra nas Estrelas – Episódio 6 – O Retorno de Jedi (dia 7), Os Caçadores da Arca Perdida (dia 14), Rocky III (dia 21) e Alien – O Oitavo Passageiro (dia 28).

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William Bonner volta a anunciar filme da Tela Quente de maneira irônica

De lá para cá, muita coisa mudou no modo de ver cinema em casa, parafraseando o título da sessão de filmes da TV Excelsior e, depois, do SBT. Surgiram o videocassete, a TV por assinatura, o DVD, a internet e o streaming, e a TV aberta, que demorava anos para exibir um filme, deixou de ser a única alternativa para que o público tivesse acesso às produções cinematográficas. Com isso, e também por impedimentos como a Portaria 796, do ano 2000, que iniciou uma marcação cerrada com a divisão dos programas por faixas horárias e etárias e a qualidade da imagem que foi retirando aos poucos certos clássicos vespertinos da Sessão da Tarde, as sessões de cinema na TV passaram a ter suas opções bastante limitadas.

William Bonner anuncia filme da Tela Quente de maneira irônica

Entre meados da década de 2000 e os primeiros anos da atual, a queda de audiência dos filmes na TV foi acentuada. Mesmo assim, a Sessão da Tarde, a Tela Quente, o Supercine etc. permaneceram no ar, servindo de opção àqueles que apreciam ver filmes na TV e que não têm acesso a outras opções, ou não gostam delas. O pensamento é de que o mercado de TV brasileiro vai além de São Paulo e Rio de Janeiro – praças que ditam regras em razão de concentrarem boa parte das decisões de cunho publicitário e mercadológico –, e Brasil afora as condições socioeconômicas são outras e favorecem a permanência de sessões de filmes.

A Tela Quente atinge hoje uma audiência de cerca de 20 milhões de espectadores em todo o Brasil, sendo 53% deles da classe C e 26% das classes A e B. 44% da audiência têm entre 25 e 49 anos de idade. Não é muito diferente de outras atrações exibidas na linha de shows da casa nos outros dias da semana, o que também justifica sua permanência no ar. A Sessão da Tarde, na faixa das 15h às 16h45min, atinge perto de 12 milhões de pessoas, o que é muito para o horário de todo modo. Ainda, mesmo com uma queda nos índices ao longo do tempo, em geral as sessões de filmes conseguem liderar em seus horários de exibição.

Preferencialmente sem abusos na escolha das atrações, tornar a Sessão da Tarde mais atraente ao público, mesclando clássicos da faixa com os novos filmes com potencial para agradar ao público da tarde – e fugindo de produções simplesmente leves, filmes com bebês e/ou animais que falam e que mostrem famílias enfrentando a doença de um ente querido, por exemplo –, ajudaria a manter e mesmo ampliar esses números. A Tela Quente chegou aos 22 pontos exibindo uma atração inusitada, o filme argentino Relatos Selvagens, em 20 de novembro passado – uma prova de que fugir do clichê do filme americano de ação e/ou aventura pode dar bons resultados.

Fala-se aqui da Globo, mas praticamente todas as emissoras recorrem a filmes para atrair público e conseguem audiência cativa. Se assim não fosse, SBT e Record, por exemplo, não reprisariam à exaustão determinados títulos de seus catálogos – como A Era do Gelo, A Múmia, Titanic, A Hora do Rush, franquia Batman etc. – nem a Bandeirantes garantiria espaço em sua grade para os conhecidos filmes de ação que renderam até uma Sessão Kickboxer em tempos idos. Até a TV Cultura e a TV Brasil, emissoras públicas, no cumprimento de sua função de difusão cultural exibem filmes, tanto nacionais quanto estrangeiros de variadas origens.

O cinema na TV, mesmo em tempos de Netflix, balança, mas não cai. O grande público o segura com firmeza e força, seja por hábito e carinho, seja por falta de opção. Que os programadores de filmes se esmerem tanto quanto possível e nos ofereçam mais e melhores opções de filmes para ver na televisão.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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