Manhattan Connection já foi bem mais elegante

Programa em nova fase na TV Cultura teve episódio marcado por bate-boca e baixaria em entrevista com Fernando Haddad

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Com pitadas de jazz e muito close nas galerias de arte e nos arranha-céus de Nova York, o Manhattan Connection já foi um marco da elegância na TV por assinatura. Era uma época em que programa para as classes A/B não se importava com audiência nem com views na internet.

Agora em nova fase como atração semanal na TV aberta (TV Cultura, quartas, às 22h), o programa deixou-se rapidamente contaminar pela polarização politico /ideológica que atinge o ambiente nacional, mesmo com seus integrantes vivendo fora do Brasil.

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De quebra, fomos brindados com linguagem chula, tão comumente espalhada pelas redes sociais. Nunca antes na história daquele ambiente fino se viu tamanha baixaria entre um entrevistador a um entrevistado.

Com o tratamento que o entrevistador Diogo Mainardi dispensou ao convidado Fernando Haddad, a sorte da noite de quarta-feira (10) foi que um deles (Mainardi) estava na Itália, enquanto o outro (Haddad) respondia a partir de São Paulo.

Como resultado, o programa bateu 1,5 de audiência (aproximadamente 300 mil telespectadores na Grande São Paulo), um grande índice em se tratando de TV Cultura no dia e horário.

Uma semana depois, já é o episódio mais visto no canal do programa no YouTube desde sua estreia na Cultura, em 20 de janeiro, com mais de 100 mil views. O trecho da discussão entre Mainardi e Haddad, com duração de seis minutos, sozinho atraiu mais de 200 mil cliques.

Independentemente da posição política de qualquer entrevistado, não cabe a um jornalista ofender seu interlocutor. Reza todo bom manual das práticas de imprensa que a assertividade é obrigatória em questões importantes ou polêmicas. Mas acima de qualquer regra profissional, o que vale sempre é manter a educação, no jornalismo como na vida.

Enquanto Mainardi destratou Haddad, que estava ali na condição de convidado – entre outras, o ex-prefeito foi chamado de “poste de ladrão” – Lucas Mendes e Caio Blinder assistiam a tudo, impávidos, direto de Nova York.

Mendes, como o comandante da nave, demorou a intervir, deixando o bate-boca correr solto até as frases justapostas se tornarem inaudíveis para os telespectadores, como nas piores mesas redondas de futebol.

As redes ferveram na hora, com a hashtag do programa se espalhando, até que finalmente Mendes chamou o veterano Nelson Motta, a quem coube tocar o barco com ânimo menos exaltado.

Não se tinha notícia de tamanha animosidade entre jornalista da grande imprensa e entrevistado desde o embate que chegou às vias de fato entre Augusto Nunes e Glenn Greenwald (do The Intercept BR), nos estúdios da Rádio Jovem Pan, em novembro de 2019.  Ali, tudo foi devidamente registrado pelas câmeras na transmissão online do programa “Pânico”.

Chique no último

O Manhattan Connection marcou época na TV por assinatura. Foi o símbolo maior do que significava ser chique na televisão num tempo pós-Plano Real, quando a elite brasileira prosperava por aqui, mas sonhava poder desfrutar da civilidade de Nova York.

A novidade era o quarteto formado por Lucas Mendes, Caio Blinder, Paulo Francis e Nelson Motta trazendo comentários diretos da Big Apple no final da noite de domingo. Dava a injeção de ânimo necessária para quem era obrigado a ganhar a vida mais uma semana nos tristes trópicos até que se pudesse partir em férias ou feriados para os EUA.

O programa começou no longínquo 1993, quando a programação brasileira nos canais da TV paga dava os primeiros passos e apenas as classes mais altas conseguiam acesso aos pacotes.

Quatro anos depois, morria seu comentarista de humor mais cáustico, o brilhante Paulo Francis (1930-1997), que nunca teve um substituto à altura seja na bancada do Manhattan Connection, seja como correspondente em Nova York para jornais e TVs. O programa foi, ao longo de 27 anos, um marco na grade dos canais da Globosat, a empresa da Globo para canais da TV paga.

Esforço contínuo de executivos de então, como o dirigente da Globosat, Alberto Pecegueiro, e a diretora do GNT, Leticia Muhana, o talk show demandava além dos custos inerentes a um estúdio e produção em Nova York, também um investimento tecnológico considerável. Em 2000, passou a ter link direto via satélite com o Brasil.

Primeiramente, no canal GNT, e depois de 2011 até 2020 na GloboNews, o programa representava o suprassumo da elite nacional. Sem nunca ter sido um campeão de audiência, a cada ano o departamento comercial da Globosat celebrava o fato de o programa conseguir negociar suas valiosas cotas de patrocínio.

Era o melhor exemplo de programa de audiência restrita com alta rentabilidade, e a justificativa era seu prestígio com a classe A, o que agradava anunciantes de produtos e serviços para o público de maior poder aquisitivo.

TV Cultura

Agora nesta nova fase na TV Cultura – uma rede aberta vinculada à Fundação Padre Anchieta, mantida com recursos do governo do Estado de São Paulo -, os intervalos do programa vêm sendo ocupados por propagandas da JHSF.

Trata-se de uma empreiteira com negócios no mercado imobiliário de luxo. Vamos torcer para que o alto padrão se mantenha também nas entrevistas e debates que acontecem entre um comercial e outro.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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