Maior erro de Amor de Mãe foi gerar expectativas demais

Segunda fase não foi muito diferente da primeira, mas pausa de um ano fez parecer que sim

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Quando estreou, no já longínquo mês de novembro de 2019, Amor de Mãe chamou a atenção do público, para o bem e para o mal. A saga de Lurdes (Regina Casé), Vitória (Taís Araújo) e Thelma (Adriana Esteves) apresentou uma trama bem armada, bons diálogos e um visual meio “documental” que imprimiu uma realidade estética pouco vista em novelas.

Porém, Manuela Dias não reinventou a roda em sua estreia como novelista titular. A autora, experiente colaboradora em diversos folhetins, recorreu aos principais clichês do melodrama bem temperado. Por conta da pegada conceitual do diretor José Luiz Villamarim, alguns podem ter achado que Amor de Mãe era uma novela “diferentona”. Não era. Era uma novela, com as qualidades e defeitos comuns ao formato.

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Nada mais repetido numa novela do que a busca de uma mãe por um filho (ou o contrário). O plot aparece em praticamente todo folhetim, seja na trama principal ou nas paralelas. Basta observar as novelas da Globo que estão no ar: Alice (Sthefany Brito) procurou a mãe em A Vida da Gente, enquanto Luna (Juliana Paiva) tenta se aproximar da sua em Salve-se Quem Puder. Até mesmo em Ti-ti-ti, Jacques LeClair (Alexandre Borges) tem a mãe desaparecida.

O que não quer dizer que esta busca seja um fio condutor batido. Quando bem contado, é sempre arrebatador. E neste sentido, Amor de Mãe acertou em cheio. A busca de Lurdes por Domênico (Chay Suede) dominou toda a trama e emocionou.

Ou seja, Amor de Mãe, apesar de esteticamente diferente, era uma novela bem tradicional. E uma boa novela bem tradicional, bem entendido. A história era boa, vários personagens cresceram e surpreenderam e os diálogos eram bem escritos. Mas, talvez pela pegada diferente, Amor de Mãe tenha gerado expectativas a mais em parte do público. E a pausa de um ano parece ter feito parte da plateia se esquecer do que era, realmente, Amor de Mãe.

Segunda fase

Sendo assim, quando Amor de Mãe estreou sua segunda fase, a expectativa estava lá em cima. E isso fez parecer o desfecho da novela inferior ao que foi visto na primeira etapa. Mas não foi bem assim. O principal defeito da segunda fase foi ter sido corrida demais. Com apenas 23 capítulos para colocar um ponto final em seu enredo, Manuela Dias teve que correr, explorando menos alguns entrechos.

Mas, no geral, o andamento da novela não foi muito diferente do que foi visto na primeira fase. Reclamaram que Vitória “emburreceu” ao enfrentar Álvaro (Irandhir Santos) sozinha. Mas a advogada já teve vários outros momentos meio incoerentes, como toda a história envolvendo a entrega de Sandro (Humberto Carrão) para Kátia (Vera Holtz), ou o fato de ela ter preferido pegar dinheiro com uma agiota, em vez de pedir ao namorado milionário.

Também reclamaram que Lurdes foi ingênua demais ao acreditar em Thelma quando a vilã a sequestrou. Não foi bem assim. Lurdes e Thelma desenvolveram uma amizade legítima ao longo de toda a novela. Nada mais natural que a doméstica acreditasse na malvada. Estranho seria se, do nada, ela começasse a desconfiar.

O grande vacilo foi mesmo a transformação de Thelma em serial killer. A primeira fase foi soltando pistas de que a dona de restaurante era desiquilibrada. Seu primeiro assassinato fez sentido neste contexto. Mas os demais crimes foram corridos demais, acelerando a transformação de uma maneira que a tornou pouco crível. Mas isso não chegou a prejudicar a narrativa.

Saldo geral

Dito isso, é possível classificar Amor de Mãe como uma boa novela. Uma novela que buscou trazer uma linguagem nova, ao mesmo tempo em que deitou e rolou sob os mais variados clichês da boa dramaturgia. E que teve o mérito de contar com Regina Casé à frente do elenco, com uma de suas personagens mais brilhantes. Lurdes ficará marcada.

A trama, em suma, foi um novelão “envernizado”. Que contou com uma direção firme e atuações impecáveis, dos protagonistas aos coadjuvantes. Sim, foi prejudicada pela pausa. E também pela decisão de abordar a pandemia, que trouxe mais problemas do que soluções para o andamento da narrativa. Amor de Mãe realmente ficou pesada demais na reta final.

Mas a novela mostrou também que Manuela Dias tem um estilo que merece atenção. A autora, ao mesmo tempo em que abraça o realismo, com momentos “a la Manoel Carlos”, também propõe um thriller dos mais interessantes. Foi essa mistura que fez de Amor de Mãe uma novela de identidade muito forte. E esse foi seu grande mérito.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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