Jornalista entrevista militar: bom momento para rever Geneton Moraes e o general Newton Cruz

Material integra seleção especial de 25 entrevistas que serão exibidas este ano no Globoplay

Publicado em 22/6/2021
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Num momento em que políticos e governantes despejam sua ira diante de repórteres e jornalistas de TV, não poderia ser um melhor momento para rever uma entrevista icônica com um militar da reserva. Conduzida pelo repórter Geneton Moraes Neto (1956-2016), o material está aberto a não assinantes do Globoplay e é uma aula de jornalismo. É também um registro claro de como os acontecimentos podem ser cíclicos e histórias se repetem.

Foi um cara-a-cara levado ao ar em abril de 2010, com o general reformado Newton Cruz, ex-chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI). Quando foi veiculada, a entrevista era parte do especial Os Generais Falam, exibido no programa Dossiê GloboNews – um material que rendeu ao canal de notícias GloboNews à época o Prêmio Imprensa Embratel, na categoria Televisão.

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A conversa integra a seleção especial de conversas jornalísticas agrupadas para celebrar o aniversário do canal no GloboNews: 25 anos em 25 Entrevistas.

Climão

A entrevista com Newton Cruz foi realizada na casa do general, um ambiente de decoração clássica, porém sem ostentação. Tem um ar um tanto intimista, com o general com sua camisa ensopada de suor sob a luz de um abajur.

Um espectador cinéfilo veria nessa disposição uma curiosa recriação, uma alusão a um interrogatório nos porões da ditadura. Mas isso é pura especulação — o que há ali é jornalismo, não cinema. Só que o jogo de cena não deixa de ser interessante e toda esta ambientação dá ainda mais clima à entrevista.

Nota-se como Geneton Moraes Neto está sentado tão próximo de seu entrevistado, a ponto de o militar quase tocar seu nariz quando lhe aponta o dedo em riste. O jornalista permanece imóvel, preso na retidão do seu ofício, pronto para engatilhar a próxima pergunta. Não há, contudo, nenhum momento de má educação ou ofensa por parte do general entrevistado.

Geneton Moraes Neto foi um dos grandes nomes do jornalismo televisivo, com um estilo peculiar, e deixou sua marca com entrevistas diretas, com perguntas bem formuladas e sem titubear diante de entrevistados mais difíceis. Faz bastante falta nos dias de hoje, quando a bajulação virou marca registrada de alguns profissionais.

Pernambucano, ele começou sua carreira na Globo em 1985, onde trabalhou por mais de 30 anos, até sua morte, em 2016.

Vale observar como ele conduz a conversa diante de um militar linha dura, com constantes levantadas de voz, e ainda assim se mantém calmo. Geneton Moraes Neto, como jornalista da velha guarda, constantemente observa suas anotações nos seus papéis em mãos, esquecendo-se deles quando Newton Cruz faz revelações inesperadas, imediatamente formulando novas questões.  

O especial intercala a conversa a uma contextualização dos fatos, com imagens e narração de Sérgio Chapelin – esta também uma voz inconfundível dos documentários da marca Globo. Temos a oportunidade de ver que destratar repórteres tem respaldo na tradição de alguns militares.

O então chefe do SNI durante uma entrevista mandou um jornalista calar a boca e depois partiu atrás dele, segurando o seu braço. A Geneton, Newton Cruz diz que o repórter era seu amigo e negou ter-lhe dado uma chave de braço.

O general, de pele bronzeada, mesmo na idade avançada – ele usa um aparelho auditivo – mostra-se bastante alterado sobre fatos do passado em alguns momentos. No entanto, em outros, tem até alguma condescendência, um certo ar de zombaria. Mais do que uma vez, ele clama pela macheza de seus atos.

Bomba

Geneton Moraes Neto começa a entrevista perguntando ao general, já na reserva e bastante altivo aos 85 anos de idade (ele tem atualmente 96 anos), questionando Newton Cruz sobre o episódio trágico do Riocentro. Em 1981, militares planejaram lançar bombas em um evento organizado por civis na comemoração do 1. de Maio, na cidade do Rio de Janeiro.

Era um atentado que, entretanto, não se efetivou, pois a bomba estourou dentro do carro estacionado no colo de um deles, matando um e ferindo gravemente o outro. Newton Cruz admitiu que tinha ciência do planejamento – que ele tratou como um “ato de presença”.

Segundo o general da reserva, “a ideia não era matar ninguém”. Ele disse ter comentado o caso com o seu superior, pois ambos estavam em Brasília. Ele não levou o plano ao conhecimento do então presidente da República, general João Baptista de Oliveira Figueiredo (1918-1999), como seria de se esperar. O Brasil estava em pleno regime militar (1964-1985) e a bomba no Riocentro foi um escândalo nacional.

Newton Cruz guardou para a entrevista a Geneton Moraes Neto uma revelação inédita: havia um outro ataque semelhante em planejamento, que, no entanto, não foi adiante, pois desta vez ele ameaçou denunciar. Já sobre o assassinato do jornalista Alexandre von Baumgarten (1930-1982), acontecido no período, Newton Cruz preferiu não contar se sabe ou não quem matou ou mandou matar.

Para este especial de 25 anos da GloboNews, até o fim do ano haverá para o Globoplay o resgate de outras entrevistas que marcaram a história do canal com nomes como: Dalai Lama, Bill Gates, Fernanda Montenegro, Caetano Veloso, José Saramago, o casal Zélia Gattai e Jorge Amado, Oscar Niemeyer e Paulo Freire.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de sua autora e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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