Império: Cora poderia ter sido uma “nova Violante”, mas texto não ajuda Drica Moraes

A atriz poderia ter emplacado uma grande vilã no horário nobre

Publicado em 12/6/2021
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Cora, vendida como a grande vilã de Império, começou promissora. A personagem, movida por um falso conservadorismo que esconde sua inveja e seu impulso sexual, poderia ser um prato cheio para uma atriz do quilate de Drica Moraes. No entanto, a personagem não decola. E o texto de Aguinaldo Silva é o grande responsável por fazer a vilã ficar no meio do caminho.

Cora parecia ser a versão atualizada de Violante, a ótima e memorável vilã de Xica da Silva (1996), da extinta Manchete. Na trama de Adamo Angel (“mas pode me chamar de Walcyr Carrasco”), Violante também era uma carola religiosa, cuja casca conservadora escondia um desejo sexual reprimido e uma inveja acima da média.

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Por conta destas nuances, Violante descontava suas amarguras em todos, sobretudo em Xica (Taís Araújo), que se casou com o Contratador (Victor Wagner), pelo qual sentia um desejo absurdo. Cora é parecida: ela tem um desejo incontrolável pelo Comendador (Alexandre Nero), mas o reprime em nome de uma crença conservadora. Isso justifica suas atitudes amargas.

No entanto, ao contrário de Violante, cujo descontrole vai deixando a vilã cada vez maior, Cora murcha no decorrer de Império. E não é por conta da frágil saúde de Drica Moraes, que foi a justificativa que Aguinaldo Silva deu na época. É o texto de Império que não dá um tratamento adequado a uma personagem de características tão ricas.

Humor inadequado

Na primeira fase, quando ainda era defendida por Marjorie Estiano, Cora era a própria personificação do conservadorismo hipócrita. Pregava o bem em nome de uma crença, mas, ao mesmo tempo, tinha uma inveja patológica da irmã Eliane (Vanessa Giácomo), o que a deixava frustrada. E a coisa piorou quando Eliane se envolveu com José Alfredo (Chay Suede), que despertou na carola um impulso sexual.

Drica Moraes levou isso à segunda fase. Cora surgiu obscura, amarga, que distribuía rancor à família toda. Pelos cantos, como uma sombra, ela agiu ao seu bel-prazer, mas sempre travestida de boa samaritana. Teve sangue frio o suficiente para ver Eliane (Malu Galli) morrer diante dela e não fazer nada.

Mas este lado obscuro da personagem começa a dividir a cena com sequências pretensamente cômicas. Cora passou a ser vistas em cenas constrangedoras, como a que solta flatulências pela rua e comenta, ou quando rouba a cueca de Robertão (Romulo Neto) para cheirá-la. Desnecessário.

Assim como Violante, Cora não é uma figura cômica. É (ou seria) uma vilã vil, amarga, daquelas que despertam ódio na audiência. E Drica Moraes, nas primeiras cenas, imprimiu tudo isso em seus olhares soturnos, ou na língua que serpenteava no canto da boca em momentos mais tensos.

Porém, ela muda de rumo sem qualquer motivo aparente. Dá a impressão que Aguinaldo Silva pretendia fazer de Império uma novela “séria”, como Duas Caras ou Senhora do Destino, mas acabou mudando de ideia e partindo para o surrealismo tosco de Fina Estampa. Com isso, perdeu-se a oportunidade de colocar Drica Moraes na galeria de grandes vilãs do horário nobre da Globo. É uma pena.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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