É tempo de assistir a Cuba e o Cameraman

Jornalista, o diretor acompanhou por 45 anos Fidel Castro e moradores da ilha até concluir o filme

Publicado em 23/7/2021
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É um momento propício para assistir ao filme documental Cuba e o Cameraman, em cartaz no catálogo da Netflix. A produção (2017) já estava ali entre as atrações na prateleira do streaming. Porém, desde os acontecimentos do último dia 11 de julho, quando vieram à tona os protestos de populares tomando as ruas de Cuba, seria interessante aproveitar o filme para entender um pouco sobre a vida na ilha do Caribe, tão próxima da Flórida, tão distante do modelo de vida capitalista.

O mais interessante no filme é o lado essencialmente humano da abordagem do diretor. Quase sempre quando há discussão política e ideológica, não nos é permitido entender o universo cotidiano de quem vive em modelos diferentes aos que estamos habituados.   

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O jornalista e cineasta norte-americano Jon Alpert faz um retrato bem peculiar sobre o país e o legado do regime comunista implantado por Fidel Castro há mais de 60 anos.  

Pois Alpert visitou Cuba ao longo de 45 anos, no melhor estilo repórter-abelha, aquele que filma e faz perguntas ao mesmo tempo, registrando ao longo das décadas o que acontecia na vida de três núcleos de moradores da capital, Havana, e arredores.

Terra do rum, do beisebol, de lindas praias, de uma gente simpática, prédios antigos e carrões vintage, Cuba tem problemas relacionados à escassez de todo tipo de produtos, de remédios a materiais de construção; falta energia, água e alimentos. O documentarista mostra essas carências, entrevista pessoas reais, nas suas alegrias e tristezas, já que para elas não há interesse em fingir uma realidade.

Embargo econômico

Os problemas, conforme se verifica no filme, começaram no final dos anos 80 e começo dos anos 90, a partir do desmonte da antiga URSS, que ajudava financeiramente o regime cubano. A situação do pequeno país só se agravaria mais ainda diante de um crescente bloqueio econômico (o chamado embargo) imposto pelo inimigo político Estados Unidos e que se perpetua até os dias de hoje

Para os simpatizantes do atual regime, o embargo econômico é o motivo dos atuais protestos dos cubanos na ilha. Já para os opositores, o motivo é a falta das liberdades civis e de condições econômicas mínimas, pioradas ainda mais com o advento da pandemia da Covid19, que também atingiu Cuba.

Como se vê no documentário, a escassez já vem de muitos anos, e a câmera de Jon Alpert conseguiu captar o movimento, mesmo numa nação que parece congelada no tempo.

Sem firulas, vemos como a vida segue sem perspectivas num local que não muda nunca, que não sofre a lógica de transformação do capitalismo, mas também não se renova, caindo em degradação. O contraste entre a Havana para turistas e a Havana dos moradores é esclarecedor. Ali, uma engenheira tem de vender artesanato na rua para sobreviver, um médico não tem meios materiais para ajudar os pacientes e as luvas são reutilizadas nos hospitais.

Jon Alpert visitou desde os anos 70 um grupo de três agricultores e não há como não se emocionar com a história destes trabalhadores da terra e suas agruras até o envelhecimento. Ver a trajetória dos três irmãos Borrego — Angel, Cristóbal e Gregório –já compensa todo o filme.

Há ainda a visita frequente a Luís Amores, um típico morador de Havana, que se vira entre bicos e serviços ilegais, como vendas no mercado negro local. Também é autoexplicativa a história da menina estudante que queria ser enfermeira, até que amadurece, tem filhos e netos. Como sonhar com um futuro com uma vida tão difícil?

Com Fidel

O ditador cubano Fidel Castro, entrevistado em Cuba e o Cameraman. Foto: Reprodução/Netflix

Por fim e não menos importante, Jon Alpert exerce do início ao fim de suas viagens um feito por si só notável: tem proximidade e conquista a confiança e a simpatia de Fidel Castro, a ponto de abrir sua geladeira e até oferecer cerveja ao ditador cubano.

O cineasta viajou no avião do governo cubano numa visita de Fidel aos EUA. O destino foi Nova York, para um discurso na ONU.

Alpert vai conquistando a atenção do ditador, obtém declarações entre uma e outra baforada de charuto, e consegue entrevistas exclusivas a que poucos jornalistas yankees poderiam ter tido acesso.

Antes que alguém diga o contrário: o cineasta não favorece o líder cubano, tampouco o condena.

Após a morte de Fidel (2016), o diretor concluiu seu filme para a Netflix, participou de festivais internacionais, foi indicado ao prêmio Emmy.

Independentemente das convicções políticas, vale assistir a Cuba e o Cameraman e entender um pouco sobre como o povo vive — quer você seja ou não daqueles que gostam de sugerir que os outros vão pra lá.     

* As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de sua autora e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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