Danielle, de Fina Estampa, é uma nova versão de Albieri, de O Clone

Os dois cientistas criam uma crise ética ao agirem passionalmente

Publicado há 18 dias
Por André Santana
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Quando Fina Estampa foi exibida originalmente, em 2011, público e crítica compararam a trama de Danielle Fraser (Renata Sorrah), Beatriz (Monique Alfradique) e Esther (Julia Lemmertz) à Barriga de Aluguel (1990). Isso porque, nas duas tramas, há uma disputa judicial da guarda de um bebê, que é biologicamente filho de uma mulher, mas foi gerado por outra.

Na novela de Aguinaldo Silva, Esther tem o sonho de ser mãe. Mas, por conta de sua idade, não consegue mais engravidar por vias naturais, e nem tem óvulos capazes de gerar uma criança. A médica Danielle, então, sugere uma inseminação artificial com o óvulo de uma doadora. Esther aceita. Mas, tempos depois, a doadora do óvulo descobre que teve uma filha, e tenta reavê-la.

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Sim, a disputa entre Esther e Beatriz é bastante semelhante à de Clara (Claudia Abreu) e Ana Lúcia (Cássia Kis), de Barriga de Aluguel. Mas a história narrada por Aguinaldo Silva em Fina Estampa também remete à outra trama de Gloria Perez: O Clone (2001). Afinal, a maneira passional como Danielle conduz todo o processo de fertilização é bastante semelhante ao do cientista Albieri (Juca de Oliveira).

Em O Clone, Albieri tem uma relação paternal com o afilhado, Diogo (Murilo Benício). E, quando o jovem morre num acidente de helicóptero, ele fica fascinado com a ideia de trazê-lo de volta à vida por meio da clonagem. Assim, utilizando uma célula do irmão gêmeo de Diogo, Lucas (Murilo Benício), ele faz um clone, Léo (Murilo Benício).

Ou seja, mais que o amor pela ciência, Albieri agiu pelo grande amor que sentia pelo afilhado. Inconformado com a ideia da morte (ele também sofria a perda de sua primeira esposa), Albieri defendia a clonagem como uma maneira de manter as pessoas eternamente vivas. Foi esta necessidade de ter o afilhado de volta que o levou a praticar a experiência.

“Brincar de Deus”

Em Fina Estampa, a trajetória de Danielle não é diferente. A morte do irmão faz a médica perceber o quanto deixou sua vida familiar em segundo plano em razão de seu trabalho. Quando a ex-namorada de seu irmão, Beatriz, revela a vontade de doar óvulos, Danielle se lembra que o irmão tinha o sêmen congelado. E fica fascinada com a ideia de “fazer” um sobrinho.

Ou seja, em Fina Estampa, não há clonagem. Mas há também uma manipulação de situações num laboratório que são guiadas por cientistas vivendo crises passionais, que acabam gerando uma crise ética. Danielle não quis “reviver” o irmão, mas quis continuar a história dele lhe dando um filho após a morte. O sentimento que move Danielle é muito parecido com o que movia Albieri.

Não por acaso, nas duas novelas, a expressão “brincar de Deus” é muito utilizada nas duas tramas. Albieri ouve dos amigos, o muçulmano Ali (Stenio Garcia) e o padre católico Mattioli (Francisco Cuoco) que ele não pode “brincar de Deus”. Em Fina Estampa, Esther e Beatriz também acusam Danielle de “brincar de Deus”.

Assim, propositalmente ou não, Aguinaldo Silva “homenageou” Gloria Perez em Fina Estampa. Barriga de Aluguel e O Clone estão bastante presentes nas trajetórias de Danielle, Esther e Beatriz. No entanto, ao contrário das novelas de Gloria, esta trama paralela de Fina Estampa não causou qualquer frisson em sua exibição original. E esta apatia se repete na atual reprise.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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